Queridos irmãs e irmãos

Hoje é-nos dado, para contemplar, o ícone da Sagrada Família e desta família tão singular, que é chamada a viver, de forma tão inesperada, o mistério da vida e o mistério da salvação – como são todas as famílias. Nós podemos contemplar também o mistério da nossa própria família. Quer dizer, o mistério deste amor de Deus, que está inscrito em nós.

A família de Nazaré não é uma família tradicional, mas também não há famílias tradicionais, só no nome. Porque o que cada família é chamada a viver, o património de humanidade, de relação, a forma como cada família vive a sua história de júbilo, a sua memória, o seu desencontro, muitas vezes o seu conflito, a sua separação e, também, esta esperança que não se apaga no seu coração, a forma como cada família é chamada a viver isso está retratada na família de Nazaré.

Não há duas famílias iguais, mas cada família é chamada a viver o mesmo, é chamada a viver o mesmo tesouro. Nesse sentido, a família de Nazaré é uma inspiração muito grande, muito grande. Porque, naquela família, tudo foi ao contrário dos planos estabelecidos, todos foram obrigados a ter uma grande pobreza de coração, uma grande abertura ao que Deus revela, ao que Deus manifesta, e uma grande capacidade de fazer vida com aquilo que lhe era dado viver.

Ainda agora, neste Evangelho que lemos, Maria e José vão ao Templo cumprir as regras, cumprir as leis e a sua tradição, como as famílias fazem. É um momento de identidade que funda a própria família: levar o seu Filho ao Templo, agradecer a Deus, cumprir os ritos purificatórios dos antigos. Eles vão e, no Templo, têm uma grande surpresa, porque o que lhes é dito sobre o seu próprio filho leva-os a ficar espantados, eles não entendem.

Vemos, por exemplo, Maria. Maria, em grande medida, acompanha Jesus, é a mãe. Como todas as mães, ela sabe tudo acerca dele mas, ao mesmo tempo, tem de aprender tudo e tudo lhe escapa. O que é belo é ver como Maria está fielmente ao lado de Jesus, do princípio ao fim. Nós podemos dizer: “Maria entendeu tudo?” Intuitivamente, ela estava ao lado do filho, como todas as mães estão ao lado dos seus filhos. Mas, do ponto de vista da compreensão racional, ela não entendia o que estava a acontecer. Mas essa ignorância do outro não era para ela um obstáculo. Pelo contrário, ela foi fiel àquele filho sempre, sempre. Mesmo sem entender, ela foi capaz de acolher, de ser aquela que fomenta a hospitalidade, de ser uma referência.

Ao mesmo tempo José está ao lado deste filho de uma forma tão especial, tornando-o seu, descobrindo-o seu, transmitindo-lhe a vida, transmitindo-lhe os valores, ensinando-o, acompanhando-o. Temos menos informação acerca de S. José. S. Lucas opta por contar-nos a infância de Jesus a partir do olhar da mãe, de Maria. S. Mateus opta pelo olhar de José. Mas nós sabemos como José tem um papel muito importante na vida do seu filho e não poderia ser de outra forma. Se Jesus tinha dentro de si o Pai, que é Deus, também tinha este pai, carpinteiro de Nazaré, que com certeza lhe transmitiu, sem palavras, pelo exemplo, pelo testemunho, pelo contágio, pela relação, coisas tão vitais para a vida do próprio Jesus.

A família não é um lugar perfeito. A célebre primeira frase do romance de Tolstoi, Anna Karenina – “Todas as famílias felizes se parecem, as famílias infelizes é que são interessantes” – diz que, no fundo, a família é sempre um lugar de imperfeição, é sempre um lugar da crise, é sempre um lugar de uma grande pobreza. Se calhar nenhum de nós é tão pobre como no interior da sua própria família. Onde estamos completamente expostos, completamente vulneráveis, completamente dependentes uns dos outros, onde tudo ganha uma dimensão que, noutras situações, não ganharia nunca. Mas é ali, onde a gente parece que sabe tudo e chega ao interior da nossa família e não sabe nada, não consegue resolver e não consegue fazer, é esta pobreza que diz também muito da nossa verdade. Esta pobreza é a força da própria família, é a força da família.

O que dá a força à família não é ela ser blindada, não é ela ser um couraçado. É ela, ao mesmo tempo que é atravessada pela realidade da vida, na força dos laços afetivos, na força de uma confiança inquebrável, ela ser, de facto, uma amarra que parece muito ténue. Mas nós sabemos que é uma amarra decisiva para a construção da nossa humanidade e da nossa vida espiritual, para a nossa vida espiritual.

Mesmo hoje, numa sociedade onde, cada vez mais, o encontro com Deus se faz por iniciação e não por imersão numa determinada família, a verdade é que muitos adultos chegam ao catecumenado, pedem para ser batizados ou crismados numa vida adulta, não tiveram nenhuma iniciação no interior da sua família, mas tiveram pessoas de família que lhes testemunharam. Às vezes é uma avó que, na sua simplicidade, na sua verdade doutro tempo, de outra geração, vive com verdade a sua fé, que depois contagia uma neta, completamente diferente dela, mas que vê, na referência daquela mulher, uma luz para a sua própria vida. De maneira que a família é, de facto, também, o grande motor da transmissão da fé.

A revista francesa L’Express deste Natal trazia uma imagem que não esperávamos ver numa revista francesa: uma família numerosa e diversa, com o título: “O triunfo da família”. E dizia que, nos anos setenta, era moda dizer: “Eu odeio a família.” Porque a família era o grande impedimento para a verdade individual, para a afirmação individual. Era uma família burguesa, impunha valores que eram contrários à aspiração de liberdade dos sujeitos. Hoje, passado meio século, percebemos precisamente o contrário: que, se há lugar onde a experiência de liberdade, a experiência de reconhecimento do que se é, verdadeiramente acontece, é no seio da família. E, nesse sentido, hoje, há uma redescoberta da própria família, e da necessidade da família.

A Igreja está acompanhar, muito de perto, a situação da família. Este sínodo, duplo, que começou em outubro passado, e que acabará no próximo outubro, em que o Santo Padre quer fazer o elogio da família, mas ir ao encontro, também, daquilo que é hoje a realidade da família. Tentando, no fundo, ajudar-nos a perceber como a família continua a ser, e é chamada a ser, um lugar fundamental, um alicerce. Um alicerce, também, para a invenção de nós próprios, para a reinvenção da nossa própria vida.

É interessante que nós encontramos, sobretudo nos textos de S. Paulo, que é o primeiro teólogo do cristianismo, algumas coisas que existiam no seu tempo, na cultura greco-romana, onde também existiam famílias. Porque a família não é um monopólio dos católicos, a família é uma grande causa humana, é um grande património humano e nós, católicos, unimo-nos a todos os homens e mulheres da terra, porque todos nós nascemos no interior de uma família. Muitas vezes se identifica a causa da família com o chamado “povo católico”, mas a causa da família é antes de tudo uma causa humana, completamente transversal. No fundo, o que a Igreja faz é unir-se a esta grande batalha humana pela defesa, pela afirmação e, ao mesmo tempo, pela descoberta. Porque a família não é uma ideologia, a família é uma experiência vital e uma experiência de todos.

S. Paulo vai buscar códigos familiares que já existiam e vai traduzi-los em linguagem cristã. Por exemplo, nesta Carta aos Colossenses – que já não foi escrita por Paulo, é posterior a ele – encontramos um código de conduta familiar que encontramos também nos filósofos estoicos e em algum Direito Romano, e que diz o seguinte: “Esposas, sede submissas aos vossos maridos como convém ao Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.”

É claro que este código familiar, escrito no século primeiro depois de Cristo, isto é, há dois mil anos atrás, tem uma linguagem que hoje sentimos que está ultrapassada. Hoje, não falaríamos assim. Não é justo agarrarmo-nos às palavras quando o fundamental é percebermos o que está aqui em jogo. E o que está em jogo, no primeiro cristianismo, é afirmar a família como lugar de reciprocidade.
A grande novidade neste código não é que as mulheres sejam submissas aos seus maridos. Qualquer código e qualquer prática daquela época dizia isso. A mulher tinha de estar submissa, nem era preciso ser escrito. O que é que é novo neste código? É o segundo termo: “Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza.” Isto é, este estabelecimento de uma reciprocidade de deveres, no interior da relação conjugal, é que é uma coisa completamente nova. Porque, quem tinha deveres para com o homem, era a mulher, que era uma coisa do homem. Mas o homem não tinha nenhuns deveres para com a mulher. Este amor, que o homem é chamado a ter à mulher, é uma coisa que, ao mesmo tempo, subverte e alarga os códigos familiares daquela época.

O mesmo em relação aos filhos: “Filhos, obedecei aos vossos pais.” Os filhos eram propriedade dos pais, mesmo a nível económico. Mas o contrário – “Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo” – é uma coisa nova, é criar uma nova qualidade de relações. É isto que temos, queridos irmãs e irmãos, dois mil anos depois, de continuar, a dar qualidade de amor, qualidade de verdade às relações familiares, para que não se tornem relações de poder, relações de manipulação, para que não enfraqueçam a sua qualidade de amor.

Sabemos que é tão fácil isso acontecer, é tão fácil habituar-nos à nossa família como nos habituamos à mobília da nossa casa. Já não há vida ali a circular. Há apenas um hábito, apenas rotina, a sonolência. Ora, é preciso investir numa nova qualidade de amor autêntica, funda, as nossas relações familiares. Para que a nossa família, de facto, tenha um projeto e não seja simplesmente um caminhar à vista, mas tenha uma finalidade, tenha um objetivo.

Nesse sentido, a nossa família tem de estar sempre em estado de conversão, em estado de alerta, em estado de atenção, perguntando pela qualidade da vida que ela alberga no seu seio.

Queridos irmãos: que a família de Nazaré seja uma família modelo para nós. Mesmo no que ela tem de único e que funda também as nossas famílias como famílias únicas, como famílias que não têm outras iguais. Mas aquela qualidade de amor, aquela vida, aquela verdade seja também o que levamos para o interior da família que, dia à dia, hora à hora, nós construímos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo da Sagrada Família

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