Queridos irmãs e irmãos

No Advento são-nos apresentados vários modelos que representam para nós, na sua exemplaridade, um desafio à transformação, ao rasgar do nosso coração para acolher o Jesus que vem.

Hoje, o modelo apresentado é a figura de João Batista. É útil integrar João Batista no movimento messiânico de expectativa, no movimento político reformista que a Palestina do tempo de Jesus conhecia. Jesus aparece, mas o seu discurso é um discurso muito próximo ou começa por ser muito próximo de tantas outras vozes que desejam a mudança, que não estão contentes com o status quo da situação, a quem não basta o conformismo em que o povo tinha caído sob a soberania do Império Romano, aquela adaptação a uma realidade já sem fulgor, já sem intensidade.

No tempo de Jesus, muitas vozes se levantaram a pedir uma mudança. Hoje nós seguimos uma dessas vozes: João Batista, que o próprio Evangelho de Lucas nos apresenta muito próximo dos círculos sacerdotais de Jerusalém. Quer dizer, João Batista era filho de uma das boas famílias ligadas ao Templo de Jerusalém. Mas o que quer que tenha acontecido, este jovem lê o profeta Isaías e diz: “Isto não pode ser só uma palavra. Isto tem de ser uma forma de habitar o tempo.” E então deixa Jerusalém, deixa o tipo de vida que se tinha ali à volta do Templo, à volta daquele comércio e nas grandes cidades e opta por ir estabelecer-se ao pé do rio Jordão.

Não é uma escolha inocente, porque o Jordão é o quilómetro zero da história de Israel. Foi ali que tudo começou, quando o povo, vindo do deserto, atravessou o Jordão e entrou na terra de Israel. Quando João Batista escolhe o Jordão é para dizer: “Vamos voltar ao princípio, vamos pensar o que é que somos realmente a partir do ponto um.” Ali, ele constrói uma alternativa, ele percebe que Deus só pode entrar na vida daquele povo se este se abrir. Isto é, se relativizar a sua forma de viver. Então, vai vestir-se desta forma estranhíssima, ter uma alimentação que não era a alimentação comum do tempo, optando por um modelo de ascética radical, comendo mel e gafanhotos, e vestindo-se com um cinto de cabedal e com uma pele de camelo, um pouco à maneira da tradição profética de Israel.

Mas o que é que ele nos quer dizer com isso? Quer dizer que só vamos perceber o tempo de outra maneira, o tempo só será um tempo oportuno para o Messias se formos capazes de relativizar o nosso estilo de vida, a nossa maneira de viver, as nossas correrias sonâmbulas, o nosso status, a nossa condição, a nossa estabilidade. João Batista vem para sobressaltar. A sua voz é um sobressalto.

Queridos irmãos, para quem está completamente contente, completamente coincidente, completamente realizado com aquilo que tem, com aquilo que vê em seu redor, não haverá Natal. O Natal chegará para os corações que se abrem em insatisfação, em procura, em pergunta, em desejo, em necessidade vital de que Jesus venha para transformar, para salvar a nossa história. Por isso, João Batista é esta sentinela que nos diz: “É preciso fazer penitência.” Isto é: é preciso afastar-se da vida que vivemos, porque às vezes estamos tão colados, tão preocupados com o que está diante dos nossos olhos que perdemos todo o sentido crítico.

E o que é que os profetas fazem? Devolvem-nos o sentido crítico, aguçam-nos a consciência em relação a nós próprios, aos nossos limites, à nossa zona de conforto. “Se calhar, estou a viver isto tudo com uma grande veracidade e intensidade mas o essencial não está aqui. Se calhar, estamos a montar tudo e a preparar tudo, mas não é isto, não era isto o suposto, não é isto que nos transformará.” Nesse sentido, a voz de João é uma voz exigente, é uma voz que nos sobressalta e que nos diz: “Espera lá, mas onde é que eu estou?”

O que é viver nesta expectativa messiânica? O que será acolher o Messias que vem? A verdade é que romarias de pessoas passam por ali para ser batizadas, neste espírito de penitência, que é no fundo este abalar. Porque Jesus só vem porque nós precisamos Dele.

Às vezes o que parece da celebração do Natal é que é uma festa supérflua. É bonita, é comovedora, é isso tudo, mas verdadeiramente não é necessária. Não é necessária, podíamos não abrir este caixote, poderíamos não estar aqui a ter esta conversa. João Batista vem, com a sua verdade, dizer: “Este povo precisa de salvação, este povo precisa de transformação.” Por isso, bendita insatisfação, bendito o desejo de mais, bendita crise, bendita rutura, benditos caminhos que nós buscamos. Porque, como diz Fernando Pessoa, “triste de quem está contente” com a sua vida.

João Batista é esta voz que nos abala. Mas João Batista é também uma grande figura da humildade. Dizemos que nós, portugueses, achamos sempre que aqueles que estiveram antes de nós são uns incompetentes e aqueles que vêm depois de nós são uns cretinos e nós, no fundo, somos os únicos que podemos salvar. João Batista é o contrário disto. João Batista é aquele que diz: “Eu não sou digno daquele que virá depois de mim.” De facto, se nós nos armamos no nosso narcisismo em centros do mundo – “Eu é que sei, eu é que faço, eu é que posso conseguir” – nunca perceberemos isto que João Batista diz: “Depois de mim vai chegar quem é mais forte do que eu.” Isto é, nunca nos colocamos na brecha, na fratura, na fronteira, nunca somos sentinelas de nada.

Mas nós somos tudo, somos o anunciador e a própria mensagem. Essa também é uma das fontes dos nossos equívocos e da nossa infelicidade. Nós somos anunciadores, somos sentinelas, somos servidores, somos visionários, nós documentamos aquele que há de vir e que é mais forte do que eu e do qual não somos dignos de desatar a correia das sandálias.

A nossa posição tem de ser a de servos do futuro, de elos de uma cadeia que nos supera. Nós não somos donos, nós somos guardadores, somos transmissores de uma vida maior, somos apenas um elo desta corrente extraordinária de vida. João Batista é, de facto, uma figura que, de diversas formas, nos coloca no lugar.

Magnífico texto é esse, também, da Epístola de S. Pedro que nós lemos. A dada altura, o autor da epístola junta dois verbos: esperar e apressar. Nós temos de esperar a salvação, mas temos de apressar a salvação, temos de apressar a manifestação de Deus. Porque no coração do cristão tem de haver muita expectativa.

E o que é que nós esperamos? Esperamos, segundo a promessa do Senhor, um novo céu e uma nova terra onde habite a justiça. É esta a nossa expectativa. Mas não é apenas uma expectativa conformada: “Olha, quando vier, virá. Se vier, ou se não vier, sei lá.” Não, é uma expectativa que nos compromete, porque somos chamados a apressar a vinda do Senhor, a torná-la presente, a torná-la efetiva, a viver já nesta tensão daquilo que está para chegar, daquilo que há de renovar, que há de trazer um alento, um sopro novo à própria história.

O profeta Isaías deixa-nos com três imagens impressionantes.

Começando pela última, a imagem de que Deus é aquele pastor que toma os cordeiros nos seus braços – a relação de afeto, de dedicação que Deus tem à nossa vida e à vida de todos. Sentirmos isso verdadeiramente, que não somos nós que estamos a construir uma gruta, umas palhinhas, um lugar para o Menino nascer. Não. Ele é que nos prepara o lugar, Ele é que nos prepara uma manjedoura, Ele é que nos prepara o Natal. Nós estamos nos seus braços. É aí, no mistério da ternura de Deus, do Seu afeto, que a nossa vida, qualquer que ela seja, está colocada.

A imagem do meio é a imagem da paciência, da paciência de Deus. Deus que sabe esperar, Deus que perdoa e que dá tempo para nos podermos converter. São Pedro também há de continuar essa imagem, que foi muito importante na tradição profética e será na tradição cristã. Deus é paciente, Deus espera, Deus sabe esperar por todos. Mas não façamos desta espera um tempo de dispersão, antes um tempo de atenção, um tempo de vigilância. Para podermos de facto corresponder aquela que é a missão que o Senhor nos dá.

E a primeira palavra e imagem do profeta Isaías é essa: “Consolai, consolai o meu povo, diz o Senhor.” O nosso ministério é um ministério de consolação. Há um texto, uma pequena novela muito famosa, de um escritor contemporâneo, Stig Dagerman, que tem um título terrível e impressionante: A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer. De facto, se formos perguntar ao coração dos nossos contemporâneos, esta frase está gravada no coração: “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer.” Por isso, muitas vezes chegamos ao Natal e olhamos com um perfeito cinismo. O presépio está ao nosso lado, mas o que é aquilo? Aquilo é um símbolo. Gostamos, mas sabendo que não serve, que não vai mudar a nossa vida; não é feito para mudar, é feito para mantermos esta história, para atravessarmos o inverno com menos peso deste tempo de escuridão e de frio. Este olhar cínico de quem já desistiu, de quem olha para o símbolo e escuta a palavra mas percebe que ela já não é para si porque no seu coração está ferido, porque no seu coração já vive a derrota e sabe que nada o poderá resgatar, que nada o poderá consolar. Mas, sabendo isso, Deus diz-nos, pela boca do profeta Isaías: “Consolai, consolai o meu povo, diz o Senhor.”

Queridos irmãs e irmãos, nós temos uma grande missão este Advento que é tornar o Natal, tornar a experiência do verbo encarnado, de Deus connosco, uma experiência de consolação, uma verdadeira boa nova. Não apenas uma tradição. De que nos serve se o fundamental não é de facto esta mensagem de verdade, dizer olhos nos olhos: “Há um salvador que nasceu para ti. Olha que isto não é uma fábula, não é a lenda do Ocidente. Não, isto é a boa nova, isto é a palavra, é a âncora que tu precisas. Ele está contigo, Ele veio para ti. Deus fez-se carne e osso, assumiu o teu corpo, a tua condição, a tua fragilidade, está contigo, veio para te ver, para te olhar, para te abraçar. É Ele que te salva.”?

É quando nós somos capazes de testemunhar isso a nós próprios e aos outros que esta impossível consolação do homem se torna possível, se torna o milagre que nós vemos acontecer.

Queridos irmãos, fujamos do símbolo pelo símbolo, demos carne e osso ao Natal, tornemos o Natal encarnado nas nossas vidas, testemunhando que no centro está a pessoa de Jesus e o que Ele significa na vida de cada um de nós. Aquilo que Job dizia a plenos pulmões e com a carne em fogo: “Eu sei que o meu Redentor está vivo!” É essa palavra que nós temos de dizer: Eu sei que o meu Redentor está vivo! Sem esta palavra não há consolação. Há imaginação, há pieguice, há tradição, há isso tudo mas não há consolação. “Consolai. Consolai o meu povo, diz o Senhor.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II do Advento

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PAUSA ESTIVAL

A Capela encontra-se em pausa estival, reabrindo a 15 de setembro.

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