Junho

2018/06/21 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/06/07 - Percurso de Preparação para o Crisma

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Maio

2018/05/17 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/05/03 - Percurso de Preparação para o Crisma

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Abril

2018/04/19 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/04/16 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - José Tolentino Mendonça

Está disponível para ouvir a sessão de José Tolentino Mendonça sobre a obra “A Paixão segundo G.H.” de Clarice Lispector, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

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2018/04/09 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Manuel João Pires

Está disponível para ouvir a sessão de Manuel João Pires sobre a obra “A Insustentável Leveza do Ser” de Milan Kundera, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

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2018/04/05 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/04/02 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Carlos João Correia

Está disponível para ouvir a sessão de Carlos João Correia sobre a obra “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

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2018/04/01 - Tatear o Mistério da Ressurreição (homilia)

Queridos sacerdotes, queridos irmãs e irmãos,

Nós, como leitores do Evangelho, temos curiosidade por saber como é que o Evangelho termina. E, quando se conta uma história ela pode ser contada de formas diferentes, depende do ponto de vista que nós tomamos, que escolhemos para relatar a própria história.

A Ressurreição pode ser contada de duas formas. Os evangelistas podiam (e este “podiam” tem de ser colocado entre aspas) ter escolhido contar a história do ponto de vista de Jesus. Explicar como é que ele estando morto, tendo sido colocado no sepulcro não foi encontrado lá. O que é que Lhe aconteceu? Podiam ter contado a história do como a Ressurreição aconteceu. Contudo, não foi esse o caminho dos evangelistas que ajudam a construir a nossa fé. Eles não contam como Cristo ressuscitou, eles contam que Cristo ressuscitou. Contam a história não do ponto de vista de Jesus, mas do ponto de vista das suas testemunhas. Ou melhor, contam a história do nosso ponto de vista. Por isso, nós estamos aqui para celebrar a Ressurreição de Jesus. Certo. Mas nós estamos aqui para perceber qual é o nosso papel nisto.

O que é que nós, mulheres e homens, temos a ver com esta história? E porque é que ela é contada envolvendo-nos? Porque no lugar desta Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé estamos nós todos. Depois, quando chegarem os apóstolos homens estamos nós todos representados. Então, qual é o nosso papel no meio disto tudo?  Porque é que o Evangelho nos conta a Ressurreição falando de nós, falando de mim, falando de ti? O que é isto? Que desafio representa para a nossa vida?

Eu penso que há quatro etapas fundamentais neste breve texto do final do Evangelho de Marcos. A primeira etapa é pensarmos na natureza das testemunhas, destes primeiros que se abeiraram do túmulo vazio. Eram três mulheres, Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé. Normalmente, quando é uma grande descoberta nós ouvimos nos telejornais, nas revistas científicas. As grandes descobertas são feitas por grandes cientistas, por equipas que andam a estudar, que vão aos confins das galáxias ou que vão ao fundo da matéria humana, à sua parte mínima através de potentes instrumentos técnicos para fazer as grandes descobertas. O que é insólito é que a maior descoberta da História da Humanidade foi feita por três mulheres. Isto é, foi feita por interlocutores que nós diríamos personagens imprevistos, personagens que não estão exatamente à procura de uma descoberta da ciência que faça avançar isto ou aquilo. São personagens que vêm numa fidelidade a um amor, a uma história de amor que não aceitam que morra ali, que acabe daquela forma. Sentem a morte de Jesus e trazem perfumes para perfumar aquela morte e elas vêm no caminho, no meio da incerteza dizendo: “Há uma pedra grande na boca do sepulcro, quem rolará para nós essa pedra?” Quer dizer, o gesto delas, a viagem delas pode ser inútil, pode não servir para nada porque se a porta estiver fechada elas não vão entrar, não vão perfumar o corpo de Jesus. Mas elas na mesma fazem a viagem, pode ser inútil, pode não ser. O amor que têm dentro de si é mais forte, é alguma coisa que não as deixa ficar paradas em casa. Elas organizam-se, não vem uma, vêm três. Organizam-se em grupo, vêm sem saber, mas vêm. Vêm porquê? Vêm porque amam, vêm porque têm piedade, vêm porque choram, vêm porque sentem, vêm porque a morte de Jesus as abalou profundamente tal como a vida de Jesus as tinha abalado muito mais, e elas não eram as mesmas. Elas vêm arriscando tudo porque aquele Jesus era a fonte de sentido das suas vidas.

A Ressurreição, queridos irmãos, quem é que a descobre? Descobrem os misericordiosos, os piedosos, os que fazem suas as lágrimas dos outros, os sofrimentos dos outros. Descobrem os cuidadores, aqueles que até ao fim e para lá do fim continuam a exercer o cuidado pelos seus irmãos. Descobrem os enamorados, aqueles que se apaixonaram, aqueles que guardam o amor na sua vida que até pode ser inútil, até pode nunca se realizar. Porque, a pedra que está na boca do sepulcro há de impedir tudo, mas é essa força no seu coração, é a força do amor que leva aquelas mulheres ao sepulcro, a força da piedade.

Não deixa de ser interessante que sejam elas as primeiras testemunhas da Ressurreição. A Ressurreição não é uma verdade antes de tudo para as nossas cabeças, não é uma verdade para lermos numa revista científica. A Ressurreição é uma verdade que encontramos tatuada no nosso coração, nos gestos de amor; que encontramos dentro das nossas lágrimas; que encontramos quando o pacto que temos com os outros, a aliança de amizade, de afeto, de cumplicidade vai até ao fim e para lá do fim. Estas três Marias que vão a caminho do sepulcro são para nós um desafio muito grande, que explica como é que nós vamos tocar o Mistério da Ressurreição.

A pedra está rolada e elas entram. E é uma surpresa enorme para nós porque não há nada, não há nada. Cristo ressuscitou. Que prova é que nós temos a que nos podemos agarrar? O que é que indica como sinal? Qual é a coisa indubitável? Nada! Nós não temos nada, nós aqui não temos nada. É um vazio, não temos nada. Ele não está aqui, Ele não está aqui. A Ressurreição não é nos agarrarmos a uma certeza, não é nos agarrarmos a um corpo, não é nos agarrarmos a uma realidade física, a uma explicação. Continua a ser um mistério! E um mistério que brilha no vazio, um mistério que brilha no despojamento, um mistério que brilha no silêncio.

Onde é que nós, cristãos, vamos tocar a Ressurreição? Muitas vezes é no vazio, é no nada, no nada, no nada. Muitas vezes é no incrível despojamento da nossa própria vida. É aí que tateamos o Mistério da Ressurreição. O Mistério da Ressurreição não é para encher, é para nos esvaziar. E, nesse vazio, nós sentirmos que há alguma coisa para lá de nós.

As mulheres, perante aquele vazio, elas não estão sós. Elas são desafiadas a ler o vazio através de uma Palavra. Nós viemos aqui, personagens improváveis. A NASA, as grandes agências espaciais não nos contratariam, a nenhum de nós – não sei, talvez os mais jovens, que são futuras promessas da ciência mundial, a mim não me iam contratar para descobrir grandes verdades, eu sou um personagem completamente improvável. Talvez por isso nós estejamos aqui. E estejamos aqui a tatear nada. É bom que não associemos a Ressurreição a um monte de certezas, a uma reposição. Não é o filme que nós vimos que agora vai passar, não é uma reposição de Jesus. É bom que nós sintamos que o sepulcro está vazio, Ele não está aqui. Mas que nós sintamos isto confiados numa Palavra, num anúncio tão inusitado, mais inusitado do que o próprio vazio.

“Não vos assusteis. Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou.” E é esta Palavra que nos é dita. Por isso, esta noite é a noite de uma Palavra que nos alerta, de uma Palavra que nos alarma, de uma Palavra que nos desassossega, de uma Palavra que não nos deixa mais em paz, de uma Palavra que é dita ao nosso coração. “Ele não está aqui, Ele ressuscitou.” E é a Palavra que em nós desembrulha a vida, desembrulha o sudário em que nós manietamos a nossa vida. Desamarra, desembrulha os limites, desembrulha as dúvidas, desembrulha as limitações, as imperfeições, o medo de morte que os discípulos têm nestas horas. É esta Palavra que desembrulha. Por isso, é este o alegre anúncio Pascal. A Ressurreição, nós tateamo-la num anúncio que nos é feito, num anúncio que vem de Deus, num anúncio credível no qual nós podemos confiar. “Ele não está aqui, Ele ressuscitou.”

E qual é a grande implicação disso? É aquilo que depois o jovem vestido de branco diz às mulheres e que é o quarto ponto, que é dizer: “Ide dizer uns aos outros, ide dizer aos seus discípulos: Ele vai adiante de vós para a Galileia, lá O vereis.” Ele vai adiante de vós. Como é que nós experimentamos o Ressuscitado na nossa vida? Não experimentamos Jesus simplesmente como uma memória do passado, como grande figura histórica, extraordinária. Eu ainda estes dias folheava a biografia que escreveu  o Ernesto Renan, um escritor um pouco de moda durante muito tempo mas que procurava uma perspetiva simplesmente racional de Jesus. Ele diz: “Jesus é o homem mais extraordinário que apareceu na terra.” Isto para nós não basta, isto para nós não chega. Não chega que Ele tenha sido o maior de todos os tempos, não nos basta o seu passado. Agora, hoje, esta noite nós sabemos que Ele caminha adiante de nós e que nós seguimos os Seus passos.

Isto, queridos irmãs e irmãos, dá um sentido novo à nossa vida, um sentido outro àquilo que somos, um sentido luminoso à nossa noite. Nós cantamos: “Feliz noite! Ditosa noite.” Porque, precisamente, é nesta noite que nós descobrimos que os nossos passos vão atrás dos passos de Jesus. E por isso, quando olhamos para a frente não é o vazio, não é o nada mas sabemos que Ele é o ramo verde, que Ele é o anunciador da Páscoa, que Ele é o inaugurador de horizontes, é o Deus connosco que está a nosso lado, todos os dias até ao fim dos tempos.

Vamos viver esta Vigília sentindo que somos nós os implicados, sentindo que somos nós que a partir do nosso amor vamos ao sepulcro. Que lá somos desafiados a abraçar o nada, o nosso próprio nada, a alargá-lo mais, a dimensioná-lo mais, a escutar uma Palavra. Uma Palavra a que nos podemos agarrar, uma Palavra para confiar. “Ele ressuscitou e Ele vai à vossa frente, Ele preceder-vos-á na Galileia.” Sintamos que Jesus é o homem da frente, é Aquele que caminha a nosso lado como aquela luz que no meio da noite nos dá a força para endereçarmos os nossos passos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Vigília Pascal

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Março

2018/03/30 - Música na Paixão do Senhor

O quarteto vocal composto por Sara Afonso, Margarida Simas, Rui Aleixo e Pedro Morgado vai interpretar obras de Bach, Berthier, Bruckner e Mozart na Celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-Feira Santa, 30 de março, às 15h, na Capela do Rato.

2018/03/29 - O elogio da mesa (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

No centro da nossa liturgia está a mesa. Esta Quinta-Feira Santa nós podemos entendê-la como um elogio da mesa, daquilo que a mesa significa. Na nossa vida, a mesa acompanha-nos sempre. É daquelas peças de mobília da nossa casa que podem variar mas estão sempre presente, e têm um papel fundamental.

A mesa que é o altar não tem uma função decorativa. É uma mesa verdadeira. O altar é uma mesa verdadeira. É o símbolo, é a imagem, de todas as mesas que construíram a nossa vida e ao mesmo tempo é a mesa do futuro que se abre para nós. Porque, esta mesa ensina-nos a arte de construir comensalidade, de construir relação, de construir vida partilhada. Por isso, nós sentimos que esta pobre mesa onde a cada domingo nós nos juntamos é a medida da nossa vida, é o propulsor daquilo que nós somos.

Façamos o elogio da mesa. Esta mesa que é a continuação natural da nossa própria vida. Porque, não há mesa sem dádiva. Não há mesa que se abre sem coração que se dá, sem vida suada, oferecida, entregue, transmitida aos outros. Façamos o elogio da mesa. A mesa que começa por ser a imagem da vida, daquela nutrição essencial que reflete o cuidado pela própria vida. A nossa primeira mesa foram os braços da nossa mãe, foram o corpo da nossa mãe – foram a nossa primeira mesa. Ou foi o colo do nosso pai. Foram a nossa primeira mesa. Aí nesses dias e noites, nós começamos esta aventura maravilhosa e há mulheres e homens que são mesa uns para os outros. A mesa não é só uma mesa física. A mesa é isto: a mesa é o cuidado fundamental da existência. E não é por acaso que àqueles dois foi confiada a coisa mais sagrada que é nutrir, garantir o pão e garantir a sede daquelas criaturas que eles geraram. É a missão sagrada de ser mesa, de embalar na vida. Por isso, a mesa há-de ser sempre o lugar onde se expressa o cuidado mais recôndito, mais essencial pela vida.

Na mesa, nós nem nos damos conta, mas na mesa joga-se a vida ou a morte, joga-se o sim ou o não, joga-se aquilo que somos ou a destruição de nós mesmos. Na nossa mesa e nesta mesa. Por isso, a mesa é um lugar de afirmação da vida fundamental. Façamos o elogio da mesa, dessas mesas que são a expressão do quotidiano. Acontece tantas vezes que depois nós perdemos a conta, perdemos o número. Quantas vezes nos sentamos à nossa mesa? Refeições banais, a correr, apressadas, coisas que não nos ficam na memória mas que depois, no conjunto, tornam-se a nossa biografia, tornam-se a seiva que nos alimenta. Porque nós somos feitos de vida comum, de vida ordinária, mas somos feitos dessa fidelidade permanente, repetida, mantida. Às vezes com que esforço, mas somos fruto dessa fidelidade àquilo que a mesa significa. A mesa que nos dá a ver o quotidiano e também o extraordinário.

Quando há uma festa nós abrimos a mesa. E a mesa, no seu brilho, na sua excedência, no seu ouro torna-se um lugar onde nós experimentamos o sabor que é ainda maior que o sabor habitual. Nós celebramos a vida. Sentimos não apenas a necessidade do corpo mas também sentimos o desejo da alma. E por isso, a mesa é também o lugar da festa. Porque a mesa não alimenta apenas o nosso corpo. Alimenta também a busca de sentido, a busca de verdade, a busca de beleza que cada um de nós é chamado a fazer.

Façamos o elogio da mesa. Eu tenho uma amiga que vive sozinha, ela disse-me um dia: “Eu como todos os dias na cozinha. E na cozinha só tenho uma cadeira na minha mesa pois sei que como sempre sozinha, mas não há vez nenhuma que eu me sente à mesa e não diga isto: «a mesa é comunidade.»” E diz ela: “Isso ajuda-me.” Eu próprio, os padres seculares que muitas vezes vivem sós, e se calhar muitos de nós que estamos aqui, também todos os dias comemos muitas vezes sozinhos. Mesmo quem tem uma família grande lhe acontece tomar uma refeição sozinho, ou em determinados momentos da nossa vida. Mas, é importante dizer no nosso coração: “A mesa é comunidade.” E que isso nos faça sentir que nós não estamos sós, sentir que a mesa nos conta uma história. Conta a história de todos os artesãos invisíveis que conspiram para que o milagre da nossa vida seja possível, e que ela se expanda, e liga-nos à fome e a sede de todas as mulheres e de todos os homens da terra. E liga-nos ao esforço, ao sentido da festa, liga-nos àquilo que cada um está a viver neste mundo vasto e largo de Deus. Rostos que nós nunca veremos mas que, na expressão da mesa, estão ali reunidos, estão ali presentes. A mesa é comunhão, a mesa é comunidade.

Não foi por acaso que Cristo na Última Ceia quis fazer o elogio da mesa. E a Eucaristia é o elogio da mesa. Porque no centro da Eucaristia está a Palavra que nós comemos, a primeira mesa. E depois está a mesa do pão, a mesa do vinho que se torna vida, porque é na mesa que nós compreendemos aquilo que Jesus nos fez, aquilo que Jesus pede a cada um de nós. Na mesa nós lavamos os pés uns aos outros, às vezes lavamos o rabo uns aos outros, cuidamos uns dos outros até ao extremo, até onde for preciso. Não temos de escolher, a vida não é de escolhas, a vida é o que é. À volta da mesa nós às vezes queríamos não ter isto, não ter aquilo. Não, é o que temos. E temos de abraçar a mesa, abraçar a mesa. Porque na sua vulnerabilidade, na sua fragilidade, a mesa é o lugar do abraço à nossa humanidade.

Jesus faz o elogio da mesa e Ele não tem dúvidas. O que é que é uma mesa? A mesa é a extensão do corpo. Como a nossa primeira mesa foi o corpo dos nossos pais, o colo da nossa mãe. O que é hoje uma mesa verdadeira? Uma mesa verdadeira não é uma mesa, é mais do que uma mesa, é a fraternidade que somos capazes de construir uns com os outros, é aquilo que colocamos lá. Mas é tudo o que nos levou a colocar aquilo na mesa e tudo aquilo que gostaríamos de colocar e muitas vezes fica por dizer, fica por nomear. Mas a mesa é o lugar onde podemos tocar mais profundamente a vida uns dos outros, nesse gesto arcaico, selvagem e sagrado que é comer. Que é colocar uma coisa que está fora dentro do nosso corpo e ela transforma-se no nosso corpo. É uma coisa primitiva, mas ao mesmo tempo é o gesto mais radical de uma hospitalidade mais radical. E não é por acaso que Jesus identifica a hospitalidade do ato de comer, e do ato de comer em companhia à hospitalidade de Deus, à hospitalidade que Deus nos oferece. Porque é assim: Deus torna-nos seus, Deus dá-Se-nos, Deus oferece-Se como alimento para que nós O comamos e para que a nossa vida se torne uma vida transformante e transformada por essa presença divina; que, na mesa, de uma forma sacramental nós podemos tocar, nós podemos beber.

Façamos, queridos irmãos, o elogio da mesa e que nas nossas vidas nós percebamos que a Eucaristia não é simplesmente um ritual estanque que fica aqui. Esta mesa é um porto, esta mesa é um ponto de partida. Desta mesa nós partimos para as nossas mesas, esta mesa é uma multiplicadora de mesas, é uma reconciliadora de mesas, é uma inventora de mesas. Cada um de nós tem de ser a mulher mesa, o homem mesa que é capaz de dizer: “Olha, estou aqui ao serviço. Ofereço-me, dou um passo em frente, estou contigo. Se posso ajudar, se posso solidariamente estar a teu lado, estou aqui.” Isso é perceber a lição fundamental de Jesus.

É claro, esta mesa, nós só percebemos iluminada pela cruz. Porque não há mulheres mesa nem homens mesa que não aceitem viver essa forma radical de amor que nós lemos hoje no Evangelho de S. João como introdução ao Tríduo Pascal. “Antes da festa, sabendo Jesus que chegara à Sua hora, Ele que amara os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” Até onde nós estamos dispostos a levar o nosso amor? Até onde nós estamos dispostos a levar a nossa dádiva?

O que nós vamos viver neste Tríduo Pascal é seguirmos Jesus. Como as mulheres e os homens, os discípulos seguiram Jesus. Um bocado desalentados, acabrunhados, desorientados, sem saber bem, amedrontados mas seguindo Jesus como puderam. Sigamos Jesus como pudermos, sigamos. Mas, coloquemos o olhar, vejamos o que Ele faz. Porque, como Ele diz no Evangelho: “Eu deixei-vos um exemplo. Eu deixei-vos um exemplo.” Queridos irmãos, nós vamos continuar a nossa celebração. Hoje é um dia de festa, porque à volta desta mesa nós sabemos o que é a comunidade, nós sabemos que não estamos sós. E sabemos que Ele é para nós o alimento que nos ajuda a ser alimento, para os outros.

Ainda a semana passada, passei no Colégio Moderno, fui lá falar a um grupo grande de jovens, mais de 200, miúdos do décimo primeiro, décimo segundo. Uma grande conversa sobre o mundo, a sociedade, a Igreja. E no final, uma miúda veio ter comigo, com aquela timidez bonita da puberdade e disse-me: “E o que é a vocação? Pode falar-me um pouco da vocação?” E eu disse-lhe: “Olha, a vocação é aquele lugar onde tu vais sentir que a vida é mais feliz, essa é a tua vocação.” E ela disse: “Eu quero ser feliz. Eu quero muito ser feliz.” E eu disse: “Se eu te posso dar um conselho, à luz daquilo que Jesus nos ensina é este: se queres mesmo, mesmo, mesmo ser feliz torna feliz o maior número de pessoas à tua volta. Porque, a felicidade dos outros vai-te contagiar para a felicidade que tu buscas, que tu anseias e que tu mereces.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Quinta-feira Santa – Missa da Ceia do Senhor

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2018/03/26 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Isabel Caldeira Cabral

Está disponível para ouvir a sessão de Isabel Caldeira Cabral sobre a obra “O Estrangeiro” de Albert Camus, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

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2018/03/22 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/03/21 - Celebrar a mulher: poesia e prosa a várias vozes

Na semana em que celebramos a Anunciação a Nossa Senhora, vamos celebrar as mulheres em verso e prosa, a diferentes vozes, homens e mulheres, crentes e não crentes, para descobrirmos a unidade na diversidade. Será no dia 21 de março, às 18h, na Capela do Rato. A iniciativa é do movimento Nós somos Igreja, em parceria com a Capela do Rato.

Teremos o gosto de ter connosco Alice Vieira, António Carlos Cortês, Camané, Carlos Alberto Moniz, Filipa Vicente, Gilda Oswaldo Cruz, Inês Pedrosa, Jorge Wemans, José Manuel Pureza, Luisa Ribeiro Ferreira, Margarida Pinto Correia, Maria Antónia Palla, Nelida Piñon, Simoneta Luz Afonso e Vitorino.

2018/03/19 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Isabel Rocheta

Está disponível para ouvir a sessão de Isabel Rocheta sobre a obra “Jerusalém” de Gonçalo M. Tavares, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

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2018/03/16 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/03/12 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - José Miranda Justo

Está disponível para ouvir a sessão de José Miranda Justo sobre a obra “Zaratustra” de Nietzsche, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

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2018/03/11 - Fixar os olhos em Jesus (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

A liturgia deste quarto domingo da Quaresma centra-nos no drama da renúncia, da recusa. Nós somos visitados, a nossa vida é visitada. Nós temos, no centro da nossa fé cristã, o Mistério da Cruz, Aquele que está levantado sobre a cruz. A imagem da serpente que Moisés ergueu na vara e que curava todas as enfermidades é apenas uma imagem, uma metáfora, desta realidade nova que é a do próprio Deus, do Filho de Deus crucificado na cruz, que nos cura e que nos salva.

Contudo, como diz o Evangelho de S. João, Ele veio aos que eram os Seus e os Seus não o receberam. É este o drama da recusa da fé, dos meios da fé, dos meios da graça, da visita de Deus à nossa vida que tantas vezes nos encontra cegos e surdos em relação à Sua passagem. Nós não estamos verdadeiramente disponíveis, criamos uma espécie de impermeabilização espiritual. Chove, a Palavra vem, o encontro eucarístico acontece mas verdadeiramente não nos molha, não nos transforma, não toca em profundidade aquilo que eu sou. Porque, sem eu me dar conta até ou de forma deliberada, mas sub-reptícia, eu construo uma estratégia de escape. É muito comum nós, cristãos, sermos escapistas profissionais em relação a Deus, em relação à Sua Palavra, à dimensão profética que nos critica e nos questiona. Nós encontramos sempre forma de escapar por entre os pingos da chuva e não ficar molhados, não ficar tocados.

Mas, este escapismo espiritual tem um preço e o preço é a nossa própria destruição. Nós não temos força de lutar contra aquilo que nos tenta, contra aquilo que nos sitia. E, quando damos por nós, somos como as muralhas de Jerusalém, as nossas muralhas, as nossas defesas estão todas em baixo, nós estamos completamente escravizados. Somos escravos, já não somos pessoas livres. Não temos desprendimento, não temos desapego. Dizemos: “Vou fazer.” Mas depois não fazemos. Dizemos: “Eu comprometo-me com isto.” Mas não somos capazes desse compromisso. Cremos, achamos, é por aqui. Mas depois não temos a força interior de ir por ali. Porquê? Porque estamos escravizados. Parece que vivemos em nossa casa, parece que cada dia chegamos ao nosso endereço, parece que somos senhores da nossa vida, mas não somos. Somos um joguete nas mãos daquilo que nos escraviza. Seja o que for. Seja o dinheiro, seja o poder, seja o orgulho, seja a autossuficiência, a autorreferencialidade, seja um erotismo mal vivido, seja a escravidão da internet, disto e daquilo. Tanta coisa que nos escraviza.

A História do Povo de Deus é, muitas vezes, uma história em que ele é escravo, em que ele está no exílio, em que perdeu a sua independência, em que a sua unidade, o seu território eclipsou-se, passou para as mãos de outro. E isso é uma imagem daquilo que acontece realmente na nossa vida. Porque, tantas vezes a chave da nossa casa, a chave do nosso coração, o elmo da nossa liberdade nós entregamos na mão de outro. E não temos essa capacidade. E olhamos para nós: custa-nos reconhecer mas somos fracos, não somos donos de nós mesmos, não fazemos aquilo que sentimos que devemos fazer. Acabamos por viver na espuma daquilo que é mais fácil.

Hoje, esta leitura do livro de Crónicas conta a ida do Povo de Israel para Babilónia. É um retrato chapado daquilo que nos acontece. Nós vivemos em Babilónia, grande parte da nossa vida estamos na Babilónia, não estamos na Terra Prometida, estamos submetidos a poderes que nós não tivemos a força de enfrentar, que nós não tivemos a coragem de dizer “não”. Dizemos um “nim”, tornamo-nos pragmáticos, achamos que conseguimos mas depois não conseguimos.

Por isso, é importante que cada um de nós entre dentro de si e faça um efetivo diagnóstico da sua situação. Porque, não são só os outros que estão no exílio, possivelmente eu também estou no exílio.

Aquilo que Sophia de Mello Breyner diz num poema: “Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos, mas as coisas têm máscaras e véus com que me prendem e se eu um momento detida me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho.” E é verdade, nós andamos assim. Somos prisioneiros de laços que não vemos, não vivemos na nossa terra, vivemos num exílio, numa pátria dividida. Como voltar? A questão da Quaresma, a questão da Páscoa é esta: como voltar a experimentar a liberdade? É possível sendo velho nascer de novo? É possível com todas estas escravidões, esta miséria, sentir um elan de um renascimento, de um rejuvenescimento interior? É possível que a primavera não seja só das tílias da minha rua mas seja também do meu coração, do meu interior? É possível isso?

Hoje a Carta aos Efésios e o próprio Evangelho de João centram-nos na fé, e dizem-nos isto: “Povo de Deus, acredita. Povo de Deus, tem fé.” Que é como dizer: “Maria, José, Manuel, João, Tolentino, Madalena, Duarte tem fé, acredita. Porque a fé é que te dá a capacidade de renascer, de recomeçar.” E este é o tempo para isso, o tempo para descobrir a força que é a fé na minha vida. Porque, não são as obras que nos salvam ou não é a nossa vontade que é tão débil, mas é a fé. Isto é, o acontecimento de Jesus Cristo na vida de cada um de nós determina um ser novo, qualquer que seja o estádio em que a nossa vida esteja. É possível. É possível porque a fé traz-nos ressurreição, a fé traz-nos vida nova. Por isso, temos de fixar os nossos olhos em Jesus. O tempo da Quaresma é um tempo cristológico, que nos enfoca na pessoa de Jesus e neste olhar de amor, de misericórdia que Ele dedica a cada um de nós. Deus está pronto a ir-nos arrancar ao exílio. Deus está pronto a ir-nos buscar ao exílio, Deus está pronto a ir buscar-nos, a arrancar-nos ao sepulcro, Deus está pronto a ir buscar-nos ao silêncio dos infernos, onde tantas vezes nós esgotamos a nossa vida. Deus está pronto a ir arrancar-nos.

E a Páscoa é isto. Um povo pascal o que é? É um povo acordado, é um povo desperto, é um povo que não se conforma a viver no exílio, é um povo que não se conforma à escravidão mas que tem ânsia de liberdade. E é assim: todos nós sabemos o que é isto. Em cada um de nós isto se traduz de uma determinada maneira. Mas agarremos esta oportunidade. A Quaresma é uma oportunidade, é a grande oportunidade para fixar os nossos olhos em Cristo e sentir que a cruz é a alavanca de uma mudança, de uma conversão, de um renascimento, de uma transformação espiritual que pode verdadeiramente acontecer em nós.

Rezemos uns pelos outros, para não ficarmos parados, para não acharmos que já não é para nós, para não acharmos que burro velho já não se converte. Mas pelo contrário, acreditarmos que é possível, para lá dos imbróglios, da frieza, dos muros que nos separam e atravancam a nossa vida e verdadeiramente não nos deixam ser, não nos deixam viver com autenticidade. Para lá disso há uma possibilidade que Deus inaugura para nós – é possível, é possível, é possível! Um homem velho pode nascer de novo? Pode. Digamos isto no fundo do nosso coração e esta certeza nos ajude a dar os pequenos passos da confiança, da procura, da misericórdia, de um caminho de libertação interior. Porque, só assim, naquele domingo em que nós vamos a correr ao sepulcro, nós encontramos um sepulcro vazio. E o sepulcro que é preciso esvaziar é o nosso, é o da nossa própria vida.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo IV da Quaresma

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2018/03/08 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/03/05 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Maria Luisa Ribeiro Ferreira

Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luisa Ribeiro Ferreira sobre a obra “Pensées” (Pensamentos) de Blaise Pascal, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

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2018/03/04 - Destruir e reconstruir (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

É curioso o modo como este passo do Evangelho de S. João termina, porque não deixa de ser desconcertante. Jesus naquela páscoa faz sinais, faz milagres, em Jerusalém. Há quem acredite nesses sinais mas Jesus desconfia dessa fé. Jesus não acredita na crença, na reação que os Seus milagres despertam naquelas pessoas.

Isto é desconcertante porque nós podemos achar que é uma coisa boa: as pessoas assistem a milagres, acreditam em quem os faz. Isso em si é uma coisa boa. É ou não é? É uma coisa boa. Então, como é que Jesus é crítico, afasta-Se, não acredita naquela fé?

Para nós dá que pensar, porque isto também questiona o conteúdo da nossa própria fé. O que é que nos faz acreditar? O que é que nos aproxima de Jesus? O que é que é o cerne da nossa própria religião? O que é que nos liga? É uma fome de milagres? É uma vontade de prodígios? É uma necessidade que Deus resolva as nossas carências, as nossas necessidades? É porque Deus vem, de certa forma, compensar algum buraco, alguma necessidade urgente em nós? É isso que é a razão da nossa fé ou nós seguimos Jesus por outra coisa? Já não é por aquilo que Ele nos dá, já não é por aquilo que Ele nos premeia, que Ele nos oferece, que Ele nos dá a ver? Ou é pela Sua vida, pelo testemunho daquilo que Ele é, daquilo que Ele fez que nós estamos aqui?

A palavra de Jesus desconserta, mas ao mesmo tempo é uma chamada à purificação da nossa própria religião. A religião também precisa ser purificada. Não a religião em abstrato, mas a nossa própria religião, aquilo que está no cerne da nossa relação com o próprio Deus, com o próprio Jesus. Porque, esta imagem que é descrita no Evangelho de S. João do templo, muitas vezes é essa imagem que está dentro de nós – os cambistas, os vendedores disto, os vendedores daquilo. Porque, no fundo, sem darmos conta, reduzimos a religião ou transformamos a religião numa espécie de comércio interior, num sistema de trocas, num mecanismo de compensação, numa expetativa que nós temos em relação a Deus ou que achamos que Deus tem em relação a nós. E, de repente, o Templo já não é um Templo mas é uma praça de comércio e a religião já não é a experiência da gratuidade e do dom, mas é uma troca de serviços, uma troca de benefícios.

Jesus põe em causa este modelo de religião em que muitas vezes assenta a nossa própria espiritualidade e a nossa prática religiosa. Jesus põe em causa esse modelo de religião e desafia-nos a olharmos para o religioso de uma outra forma, como lugar de escuta radical de Deus. Escutarmos a Sua voz, escutarmos a Sua palavra como lugar de uma oração que seja pura, no sentido de que não seja para a imediata satisfação das nossas necessidades, mas seja o colocar a vida em Deus nesta experiência de gratuidade. Amamos a Deus sem ser por nada, como é o verdadeiro amor. O amor por causa disto ou por causa daquilo não é ainda o verdadeiro amor. Amar Deus sem ser por nada, acreditar em Deus sem ser por nada, acreditar por aquilo que Ele é, acreditar como entrega total do que somos. Isso é tornar o templo um Templo.

Quando os judeus tentam aferir porque é que Jesus toma a iniciativa de derrubar, de armar o banzé naquele átrio do Templo, Jesus usa dois verbos que nos fazem mergulhar neste processo de conversão a que a Quaresma nos desafia. Jesus diz: “Destruí este templo e Eu o reedificarei em três dias.” Destruir e reconstruir, apagar e reescrever, morrer e renascer. É o binómio que o próprio processo quaresmal nos desafia a viver. Há coisas a destruir em nós para poderem ser reconstruídas. Há uma imagem que tem de ser superada para poder nascer outra imagem, há práticas que têm de ficar para trás para poderem surgir outras práticas. Há um esvaziamento da nossa vida que é necessário para podermos verdadeiramente renascer. E Jesus, quando falava do destruir e do reconstruir, falava do Templo que é o Seu próprio corpo.

Quando Jesus entra no templo de Jerusalém não é para purificar o templo mas é para o arrasar. Arrasar quer dizer superar aquele modelo de religião em que o espaço físico, a monumentalidade do lugar, a exterioridade ou a lei ainda são o fundamento, em que os ritos ainda são o centro, o âmago. Jesus vem parar esse modelo religioso e vem dizer: agora é o Meu corpo, agora é o vosso corpo, o Templo. Agora é a vossa vida o lugar, esse lugar onde o encontro com Deus, onde o verdadeiro sacrifício, a verdadeira oferta (não é a oferta de uma coisa mas é o dom de si mesmo) ocorre. Por isso, Jesus centra a religião não num templo mas no Seu próprio corpo. E, quando olhamos para o Crucificado nós percebemos que Ele é o nosso Templo, que Ele é o nosso lugar. E, que naquele corpo, naquele corpo vencido, naquele corpo esmagado pelo sofrimento, naquele corpo que é o ícone do amor, que é o ícone do dom, Deus está inteiro. Naquele corpo que morre gritando: “Meu Deus, meu Deus porque Me abandonaste?” Naquele corpo que é o sinal da ausência de Deus, do silêncio de Deus está também a voz de Deus, a palavra de Deus para todos os tempos, para as mulheres e para os homens de todos os tempos.

Por isso, queridos irmãos, é no nosso corpo, é na nossa vida que a expressão de Deus Se manifesta. Isso dá-nos uma responsabilidade por aquilo que somos, por aquilo que vivemos, pela qualidade que empregamos no dia a dia nas pequenas coisas, nas transações da vida, nos seus tráficos que tantas vezes nós abandonamos porque achamos que depois resolvemos a religião de outra maneira, fora da vida ou fazendo um gesto extraordinário, ou estabelecendo um milagre, um protocolo qualquer externo àquilo que vivemos.

E Jesus diz: não, é no teu corpo, é no que és, é no fundo do teu ser que tens de exprimir a verdade desta relação. “Destruí este Templo e em três dias Eu o reconstruirei.” Para que serve a Quaresma? Para que serve este tempo que é também um tempo de prova, um tempo exigente, um tempo de ter propósitos. Um tempo em que pelo jejum, pelo encontro fraterno com os irmãos, pela oração nos somos chamados a ir além do habitual, a ir além daquilo que já fazemos, a crescer, a sairmos de nós, a irmos ao encontro de Deus e dos irmãos. Para que serve este tempo? Este tempo serve para reconstruir a vida. E, de facto, irmãs e irmãos, nós precisamos reconstruir os laços da nossa vida, dar força àquilo que vivemos, emprestar aí, a esta vida deslaçada, a esta vida tantas vezes medíocre, a esta vida que fica aquém daquilo que ela pode ser, a esta vida que não nos satisfaz, a esta vida que não reflete o melhor de nós mesmos, aquilo que Deus já criou em nós e que não aparece verdadeiramente expresso nos nossos gestos, nas nossas palavras, nas reações, nos projetos que nos mobilizam. O tempo da Quaresma é um tempo de revisão, é um tempo de formação, é um tempo para nos vermos ao espelho e dizer: não, a vida não pode ser o rame-rame, a vida não pode ser o deixa andar, a vida não pode ser esta coisa automática em que eu rotinizo o meu coração, em que eu me esgoto de forma sonolenta. A vida tem de ser outra coisa.

Esse rasgão, essa abertura, essa brecha, essa possibilidade nova é que é em nós a Páscoa. Jesus faz-nos tomar a sério a nossa vida, faz-nos tomar a sério aquilo que somos. Por isso, nós temos de olhar para este instante, para este momento no seu dramatismo. Porque, no instante, no presente se joga o definitivo. Neste momento eu posso decidir o bem absoluto ou posso decidir perder a vida, posso decidir não escolher o amor.

Por isso, na primeira leitura do livro do Êxodo, Deus é tão perentório a dizer assim: é agora, é no aqui e no agora que se joga a salvação ou a perdição. E nós, cristãos, herdámos essa conceção da vida. Para nós, este momento que estamos a viver, o nosso corpo, não é uma ilusão. Este momento não é apenas um intervalo, este momento é o palco onde a nossa vida se decide nas pequenas coisas. Mas onde o bem, onde o futuro de Deus já se pode tocar, já se pode encontrar. O presente é uma fábrica de transformação de vida, é a nossa manjedoura. A quaresma para os cristãos é um lugar de nascimento e renascimento.

“Destruí este templo e em três dias Eu o reconstruirei.” O Senhor está empenhado em reconstruir a nossa vida. Aceitemos a misericórdia de Deus, o desafio que Deus nos lança e façamos desta Quaresma um tempo em que damos horizonte à nossa própria vida, em que sentimos que estamos a caminhar. Já vamos no terceiro domingo. Até pode acontecer que até aqui nada tenha acontecido e que os nossos propósitos de Quarta-feira de Cinzas (onde é que eles já estão?) já os abandonámos, não somos capazes, não conseguimos, fomos irrealistas, o que julgávamos que íamos fazer não fizemos, por pequenino que fosse. Aconteceu isto, aconteceu aquilo e pronto, os melhores propósitos já se dissiparam. Vamos recomeçar.

No terceiro domingo vamos relançar o nosso caminho quaresmal e acreditar que os pequenos gestos ascéticos que nós fazemos não são em vão. Não escutemos as palavras de Deus em vão e não esgotemos esta oportunidade em vão. Mas procuremos colhê-la como uma hipótese para a nossa vida. Por tonto que nos pareça dizer: eu não vou comer chocolates na quaresma ou eu não vou beber vinho na Quaresma, eu não vou tomar tantos cafés. Parece uma coisa tola, tonta. Quer dizer, não é de pessoas adultas. Mas as pequenas privações num caminho ascético fazem reflorescer a vida, temos de acreditar na proeza das mediações. Por pequeno que seja sejamos fiéis a elas.

Há uma história de um noviço em que o mestre de noviços lhe diz: “Olha, tu todos os dias vais regar uma planta que está seca.” Ele vê a planta seca mas o mestre mando-lhe regar todos os dias. Muitas vezes ele sente a vontade de desanimar, de atirar o balde, colocar a água noutro sítio. Quer dizer, regar a planta seca de que é que vale isso? Mas na história há um momento em que ele vira as costas e que a planta refloresce. É como a nossa vida. Muitas vezes parece que já não vale a pena, parece que já não há remédio, já não há cura para este caminho torto que eu vivo ou esta incompletude. Já sou assim, já tenho de me adaptar aos meus defeitos, já não me consigo corrigir, já não me vou transformar. E, quando volto costas, alguma coisa se consegui, alguma coisa se fez.

Por isso, este caminho quaresmal que seja um caminho de confiança. São pequenos passos, são pequenos gestos, são pequenos propósitos mas recomecemos. Se for o caso, neste terceiro domingo, senão continuemos. Mas façamos verdadeiramente este caminho de exercícios, de manobras espirituais, de transformação, de desapego para podermos chegar à Páscoa e perceber que Ele é sabedoria para nós.
Aquilo que S. Paulo nos diz na Carta aos Coríntios é um desafio muito grande. Eu tenho de transformar o Crucificado num mestre para mim. Aquele que está pendurado na cruz é o meu mestre. Quer dizer, como é que Ele me ensina a viver, como é que Ele me traz a sabedoria, me ilumina o caminho da minha vida?
Rezemos uns pelos outros, irmãos. Ajudemo-nos neste caminho, confirmemo-nos neste caminho e que na oração ao longo da semana tenhamos presente todos os irmãos com quem celebramos ao domingo a nossa fé.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III da Quaresma

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2018/03/04 - Oração a pedir o bom humor

Oração escrita por São Tomás More e rezada diariamente pelo Papa Francisco, oferecida à comunidade da Capela do Rato pelo P. José Tolentino Mendonça, como gesto de agradecimento pela oração da comunidade durante o retiro ao Papa Francisco e à Cúria Romana.

Oração a pedir o bom humor

Dai-me, Senhor, uma boa digestão,
mas também qualquer coisa para digerir.
Concede-me a saúde do corpo e o necessário
bom humor para mantê-la.

Dai-me, Senhor, uma alma simples,
que saiba aproveitar tudo o que é bom
e não se assuste demasiado perante o mal,
mas encontre maneira de recolocar
as coisas no lugar devido.

Dai-me uma alma que não fique refém do tédio
nem de resmungos, impaciências ou lamentações,
e não permitais que me atormente
para lá do razoável
com essa coisa turbulenta chamada “eu”.

Dai-me, Senhor, um sentido de humor apurado
e a capacidade de receber o que aí vem a sorrir
vivendo o que me cabe com alegria
e partilhando-a sem custos acrescidos
com os outros. Ámen.

Oração escrita por São Tomás More
e rezada diariamente pelo Papa Francisco

Fevereiro

2018/02/26 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Maria Luisa Ribeiro Ferreira

Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luisa Ribeiro Ferreira sobre “O Sino – Iris Murdoch”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2018/02/25 - A fé que nos costura (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

A religião pode ser muita coisa, e muita coisa diferente, e muita coisa em contraste. A religião não começou com a Bíblia, a religião é própria do ser humano, começou com o primeiro Homem que habitou a terra, com este desejo, este não sei quê, esta vontade de uma relação não apenas com o visível mas com este vestígio de infinito que cada um de nós trás dentro de si. Isto começou cedo e de formas muito diferentes.

Nós colhemos um bocadinho da cultura clássica, um bocadinho do mundo egípcio, um bocadinho do mundo mesopotâmico. Todos aqueles grandes impérios e civilizações que rodeavam o pequenino Israel, todos aqueles povos eram profundamente religiosos. Dos Romanos dizia-se que eram os mais religiosos dos Homens. De maneira que a religião é uma experiência humana, antropológica muito difundida. E, de facto, pode ser muita coisa, e foi muita coisa ao longo do tempo. Quando nós olhamos para os livros de antropologia e tentamos perceber um bocadinho o que eram as religiões arcaicas, nós percebemos que o modelo dominante, é o modelo da rivalidade de deus com o Homem. Pensem, por exemplo, no mito de Prometeu. Prometeu que vai roubar o fogo aos deuses e que depois é castigado por isso. Os mitos gregos implicam desejo de autonomia do Homem e ao mesmo tempo o castigo que o divino impõe ao humano. É um esquema de rivalidade e de satisfação. Os deuses têm de estar satisfeitos. Por isso, a religião é também em grande medida uma religião de sacrifício. O modelo sacrificial é o modelo que acompanha religiões em geografias diferentes. É preciso imolar ao deus, imolar a própria humanidade, oferecer os sacrifícios, os holocaustos porque o deus tem de estar satisfeito e não sentir o Homem como uma ameaça.

O que é que é típico da religião bíblica, da revelação judaico-cristã? É o esvaziamento do esquema sacrificial. Porque Deus, mais do que os sacrifícios, está interessado em criar com o ser humano uma relação de amizade e de amor, uma relação de confiança, uma verdadeira aliança. Deus não quer a nossa pele, Deus não quer o nosso sofrimento, Deus não quer torturar-nos. Nós não somos escravos de Deus, nós somos filhos e Ele quer-nos para Si numa relação de amor, numa relação de amizade, numa verdadeira confiança. E temos esse texto paradigmático, um texto também fundamental, muito comentado ao longo dos séculos, que lemos nesta passagem do livro do Génesis que conta a subida de Abraão, pai de todos os crentes, ao monte y para sacrificar o filho Isaac. Deus diz: “Abraão, sacrifica-me o teu filho.” E ele aceita fazer esse caminho. É uma subida que nós podemos imaginar atordoada, noturna. Abraão sobe despedaçado, Isaac não percebe o que é que está a acontecer, mas sobem assim ao monte Moriá. E quando estão no alto do monte e Abraão está com a faca para cortar o pescoço de Isaac, o Anjo do Senhor pega-lhe na mão e diz: “Não é isso que eu quero.” Agora há uma coisa mais importante que o sacrifício e que esvazia a própria dinâmica sacrificial que é a aliança, que é a confiança. A fé não vai ser mais tu sacrificares ao Deus, mas vai ser tu fazeres um caminho na confiança com Deus e uma confiança que é paradoxal.

Porque é que Deus coloca Abraão naquela situação? É para que ele experimente que a confiança, a nossa confiança em Deus, é muitas vezes uma confiança no limite, uma confiança para lá daquilo que são as nossas expetativas, a nossa razão. É uma confiança que nos contradiz na nossa própria esperança. Esperar contra toda a esperança, a fé é isso. Uma relação de confiança absoluta, que é uma coisa que se calhar nem sabemos bem o que é, ficamos a tatear o que é mas é poder experimentar que Deus está mesmo no paradoxo – foi aquilo que Abraão experimentou.

Por exemplo, Madre Teresa de Calcutá dizia: “Eu creio em Deus não por aquilo que Ele me dá, mas por aquilo que Ele me tira.” Só uma grande crente pode dizer isto! Reparem: nós não dizemos isto sem as nossas entranhas se mexerem. Nós acreditarmos em Deus por aquilo que Ele nos dá é bom, é óbvio, é natural. Mas acreditarmos percebendo que mesmo o silêncio de Deus, mesmo a interrogação de Deus, mesmo este caminho que muitas vezes nós fazemos sentindo que ninguém nos acompanha, que Deus não nos vale, que Deus não nos ouve, mesmo fazendo este caminho na confiança e sentindo que essa é uma forma de aliança, que essa é uma forma de comunhão, não é fácil.

De maneira que o que é que Abraão representa para nós? Representa a fé esvaziada de sacrifício, que já não é o sacrifício mas que é uma relação de amizade, uma relação de confiança onde eu vou até ao paroxismo da própria confiança: “Eu vou para lá de tudo, eu sei que eu não vejo, eu não sinto, eu não compreendo, eu não entendo como é que isto vai ser mas eu sei que Tu estás aí.” E é, no fundo, esta a fé de Abraão e é uma fé que nos costura. O fundamento da nossa fé é a fé abraâmica.

É interessante o texto que nós lemos da Carta aos Romanos, uma pequenina passagem do capítulo VIII que usa uma linguagem sacrificial e que muitas vezes nos confunde, nos baralha. Quer dizer, Deus não poupou o seu próprio Filho mas entregou-O à morte por nós. Nós ouvimos isto e caímos de lado. Mas como é que Deus pode ser assim, pode entregar a coisa mais preciosa que Ele tem, pode não poupá-Lo, quando nós, humanos, fazemos tudo para poupar os nossos filhos e Deus não poupa o seu próprio Filho? Como é que isto é possível?

É interessante perceber como nos Evangelhos (já o antigo Testamento faz isso, mas no Novo Testamento isso é muito claro) se usa uma linguagem ainda sacrificial, mas para esvaziar, para subverter radicalmente a teoria do sacrifício. Porque, o que é que é o sacrifício? As nossas sociedades, mesmo as nossas sociedades contemporâneas, que muitas vezes até se dizem sociedades pós-religiosas, sociedades secularizadas, são sociedades onde há uma lógica vitimária, há uma lógica de sacrifício. Há uma violência latente nas nossas sociedades que se cumpre ritualmente assim: para tudo encontra-se um bode-expiatório que carrega com as culpas de toda a gente, ele é imolado diante de todos – agora é imolado na praça pública – e nós respiramos de alívio porque encontramos uma vítima que tinha os pecados de toda a gente. As pessoas não assumem, não contamos mas ele carrega as culpas de toda a gente como se ele fosse o único culpado e ele torna-se a vítima sacrificada. A sociedade respira de alívio porque se libertou de uma fonte de mal, de uma coisa muito perniciosa. Agora podemos voltar à vida normal.

Este movimento de rivalidade e morte, que se traduz sempre no sacrifício do outro, é alguma coisa que as nossas sociedades vivem no coletivo e que nós vivemos individualmente. Porque também nós temos esta rivalidade mimética, esta rivalidade uns com os outros. Achando que o outro é que é o nosso problema, que o outro é que nos dá cabo da paciência, que se o outro não existisse a nossa vida seria muito melhor. Então, de uma maneira ou de outra, não chegamos a vias de facto, mas simbolicamente nós fazemos um ritual de sacrifício do outro. Afastamos o outro, cancelamos o outro, eliminando-o da nossa vida, e respiramos fundo porque o problema era o outro, não era o caminho que nós não fizemos, o percurso não cumprido em nós. O problema era o outro.

O que é que temos em Jesus? Jesus é o contrário da lógica vitimária. Porquê? Porque Ele faz da Sua vida dom, Ele diz: não vou ficar a rivalizar, eu ofereço-Me, eu Sou dom. E o que é que os Evangelhos dizem? Ao contrário daquilo que as sociedades dizem às cegas: aquele que é o bode-expiatório é o culpado, a vítima é sempre culpada. No Cristianismo nós dizemos: a vítima é inocente. Ele foi morto, Ele foi pendurado na cruz mas Ele é inocente, Ele é inocente. Então, nós colocamo-nos ao lado da vítima. E, em termos de civilização, em termos de cultura, em termos de humanidade, em termos de sociedade, em termos daquilo em que nós acreditamos é um salto total. Porque, um cristão tem de estar ao lado da vítima, um cristão tem de esvaziar as lógicas sacrificiais de todo o tipo, religiosas, políticas, económicas, humanas. Tem de esvaziar essas lógicas sacrificiais que estão metidas dentro de nós. Porque há uma violência que não é do mundo, é nossa, que nós carregamos dentro e precisamos de nós purificar dessa violência. E como é que nos purificamos dessa violência? É percebendo que a vítima é inocente e que o caminho de redenção não é o sacrifício mas é a dádiva, é o amor, é a oferta de si, é esta radical abertura, é este abraço que fica para sempre tatuado na cruz, é isto que nos salva.

Nós hoje, neste segundo domingo da Quaresma, lemos o texto da Transfiguração. É um texto muito belo, uma experiência espiritual forte que os Apóstolos tiveram no meio das suas dúvidas. Mas, eu só sublinho a conclusão dessa experiência espiritual da transfiguração. O texto de Marcos diz assim: ”De repente, olhando em redor, não viram ninguém a não ser Jesus.”

Queridos irmãos, o que é este caminho quaresmal que nós estamos a fazer? É isto, é desimpedir a nossa visão. Porque, na nossa visão, Jesus está lá dentro mas está tanta tralha. Jesus está aqui mas nós vemos através de tantos ramos, de tanta deformação, de tanta conveniência. Não, o olhar desimpedido: “Não viram mais ninguém a não ser Jesus com eles.” A experiência quaresmal, a experiência pascal, queridos irmãs e irmãos, é isto: cada um de nós sentir na vida concreta Jesus consigo. Mas olhando para Ele e entendendo-O. Entendendo o que significa Aquele que desarmou a lógica sacrificial, que Se oferece a Ele próprio como vítima, que está inocente mas faz a oferta de Si. Ele connosco a inspirar-nos, a dizer-nos qual é o caminho, isto é que é o itinerário quaresmal.

Vamos rezar ao Senhor, eu acho que há muito trabalho que precisamos fazer. Cada um de nós. Porque, um Cristianismo adulto pede de nós um conhecimento de Jesus percebendo o que é que está ali em causa. Porque a Cruz não é uma devoção. A devoção é bonita, mas a devoção tem de estar baseada num fundamento racional. E o fundamento racional é compreendermos o que é que este gesto significa de transformação, de mudança, de inversão do modelo, de paradigma e o novo modelo que a cruz representa.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Quaresma

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2018/02/22 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2018/02/19 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Viriato Soromenho Marques

Está disponível para ouvir a sessão de Viriato Soromenho Marques sobre “Cândido – Voltaire”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2018/02/15 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2018/02/08 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2018/02/05 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Teresa Seruya

Está disponível para ouvir a sessão de Teresa Seruya sobre “Fausto – Goethe”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

Janeiro

2018/01/29 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Filipa Afonso

Está disponível para ouvir a sessão de Filipa Afonso sobre “Confissões – Santo Agostinho”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2018/01/28 - Aventura de liberdade (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nesta liturgia do quarto domingo temos um conjunto de leituras que nos fornecem entradas no mistério cristão, mas também na construção da nossa própria identidade. Nós, como discípulas e discípulos do Senhor, temos uma forma de existência que se vai construindo no tempo e que se vai alimentando com a Palavra. Por isso, nós somos uma comunidade de leitura, nós precisamos de fazer este exercício de estar de pé ou sentados a escutar uma Palavra e depois permitir que essa Palavra ressoe dentro de nós. Porque é a relação vital, umbilical, com esta Palavra que também vai construindo a pessoa que cada um de nós é chamada a viver à medida de Jesus Cristo, à forma interior do próprio Jesus.

Sabemos que isso é um caminho, é um caminho de descoberta da própria proposta cristã e é um caminho de descoberta também de nós mesmos, daquilo que nós somos nesta relação com Cristo. Que não é uma relação estática, pré-determinada, pré-feita, mas é uma relação que se vai construindo. É uma vocação. É alguma coisa que se plasma, que se constrói, que se urde no próprio tempo ao longo da nossa vida. Há que colher três imagens destas três leituras, porque nós somos também muito construídos interiormente pelas imagens e as imagens trazem uma sugestão que não é apenas racional, mas também emocional, desce também às profundezas da nossa própria consciência.

Na primeira leitura do livro do Êxodo há uma imagem inesperada: Deus está a falar com Moisés, e Moisés vem fazer o relatório dos desejos de Deus. E um dos desejos é que Deus não se manifesta diretamente porque eles não aguentam. Não aguentam que Deus Se manifeste através de sismos, de labaredas, de vulcões, que mexa com a ordem cósmica. E pedem a Deus: Senhor, não Te queremos ver diretamente. E há a coisa espantosa, Deus diz a Moisés: “Eles têm razão.” Deus dá-lhes razão. É inesperado. O que é que Deus quer dizer com isto, que nós temos razão?

A revelação de Deus tem de se adequar à pessoa que nós somos, não se pode revelar de uma maneira que nós não consigamos suportar essa forma, ou que seja uma gramática ininteligível para nós. Não, a revelação de Deus, por vontade do próprio Deus, mas também por declaração das nossas limitações e da nossa singularidade, a revelação de Deus adequa-se. De maneira que Deus não fala uma língua estranha, uma língua que nós não sabemos, Deus não vai bater à porta onde nós não estamos e não passa no caminho que nós não frequentamos, não, Deus adequa-se, Deus vem ao nosso encontro. Deus quer falar uma linguagem que nós podemos acolher. Isso é muito importante na história que nós, mulheres e homens, vamos construindo na vida. Onde é que nós encontramos Deus? Às vezes pensamos: Deus é um mistério tão grande, Deus ultrapassa-me. Por um lado é verdade, mas por outro, Deus faz-se acessível, Deus torna-Se compreensível, Deus deixa-Se achar, deixa-se encontrar.

No livro de Isaías, que depois S. Paulo há de recuperar, há esta frase espantosa: “Deus deixa-Se encontrar até por àqueles que não O procuram”, quanto mais por aqueles que O desejam, quanto mais por aqueles que têm sede, têm fome do Seu rosto, da Sua revelação. Deus deixa-se encontrar. Por isso, tenhamos confiança, tenhamos confiança. Às vezes no fundo de nós sentimo-nos órfãos, sentimos que Deus está distante, sentimos a necessidade de uma palavra que não vem, de uma luz que não vemos. Tenhamos confiança. Deus manifesta-se de uma forma que nós podemos tocar. E, se a sua revelação parece demorada, aprendamos também a abraçar as demoras de Deus, sabendo que Deus é fiel à pessoa que nós somos. Deus é fiel. Deus manifesta-Se na nossa vida e manifesta-se de um modo que não nos emudece de medo, que não nos apavora de susto, mas manifesta-se de um modo que nós possamos colhê-Lo na Sua força, podemos dialogar com Ele.

Por isso, Deus instituiu os profetas, para falarem em Seu nome ao Povo de Deus e serem presenças de Deus, serem catequistas, transmissores da sua Palavra, da sua exortação. Isto é, Deus tem muitos meios, Deus chega à nossa vida através de muitas mediações. Por isso, a primeira palavra é uma palavra de confiança.

Depois temos esta leitura da Primeira Carta aos Coríntios, do capítulo VII, que parece um bocado estranha, aqui no nosso contexto. Quer dizer, a maior parte de nós somos casados e de repente é um elogio das virgens, das pessoas que ficam solteiras porque diz: esses podem preocupar-se apenas com o Senhor, todos os outros andam divididos. De maneira que parece uma leitura estranha para ser lida numa comunidade como a nossa, parece uma leitura que só poderia ser lida num mosteiro, num convento e não numa igreja aberta à vida e à existência como é a nossa.

O que é este capítulo VII da Primeira Carta aos Coríntios? Nós temos de ter em conta o contexto para poder entender o texto de Paulo. Que contexto é este? No mundo antigo não há espaço para o sujeito individual, um homem que nasce já tem o seu destino cumprido. E tem o seu destino cumprido porquê? Porque o Homem não se pertence a ele mesmo. A sua raça, a etnia em que nasce marca definitivamente o percurso da sua vida. E depois é o Estado, ou a Cidade-Estado, ou o Reino. A pessoa é propriedade do Estado, ou é propriedade de uma família e não há espaço para o indivíduo. O que para nós hoje é uma coisa absolutamente sagrada, consignada na Carta dos Direitos Humanos, é uma coisa muito nova e para a qual o Cristianismo deu um contributo absolutamente decisivo. Porque este texto, que nos parece um bocado alienado e patético de S. Paulo, no fundo, é um grande manifesto sobre a liberdade humana. O que Paulo está aqui a fazer é a defender a liberdade individual. O que Paulo diz é assim: não é obrigatório as pessoas casarem-se, o Estado não é dono do meu corpo, a família não manda em mim, eu posso ser livre para construir um destino alternativo, um destino diferente. O que Paulo está a fazer é a fazer o elogio, isto é, está a rasgar no mundo do seu tempo a possibilidade para a liberdade individual. Que é dizer: nós já não estamos sujeitos à lei do coletivo, nós não somos propriedade de uma raça ou de um Estado mas nós vivemos um chamamento que é individual. Então, cada pessoa tem de ter a possibilidade de viver o seu chamamento, de viver a sua vocação.

Então, Paulo não está a desclassificar as mulheres casadas que andam preocupadas com os maridos e não com Deus, ou os homens casados que querem agradar às mulheres e não a Deus, mas Paulo está aqui a transformar a sociedade do seu tempo, abrindo espaço para a vocação individual.

No fundo, este é um contributo civilizacional do Cristianismo. Hoje, muitas vezes, pensa-se que o Cristianismo coarta a liberdade individual, que o Cristianismo tem um discurso que impede os indivíduos de viverem as suas opções. Ora, isso é uma ignorância histórica porque na História do mundo, na História da nossa Civilização foi precisamente o Cristianismo que potenciou a emergência do indivíduo. S. Paulo – às vezes encontramo-lo com tão má imprensa – é de certa forma o fundador do sujeito. Um pensador a quem devemos textos fundamentais acerca do corpo, e daquilo que é a corporeidade fazendo o elogio daquilo que é próprio de cada um. Por isso, este texto é um manifesto da liberdade cristã. Reparem: S. Paulo esteve preso várias vezes por liberdade de pensamento. O Cristianismo começou por ser um delito, começou por ser crime de pensamento. Porque apareciam uns grupos, umas igrejas, umas associações a pensar completamente diferente do que a sociedade e a desmantelar a organização social daquele tempo. O Cristianismo está sempre associado à aventura de liberdade. E nós, mulheres e homens cristãos, temos de dar o testemunho de que o Cristianismo nos liberta, nos torna livres, potencia a nossa capacidade de ser. O Cristianismo abre espaço, abre espaço para a própria pessoa. Coloca no centro a pessoa e não o Estado e não o clã e não a raça. Não é por eu ter nascido judeu ou não-judeu que estou mais próximo ou mais longe de Deus, porque isso já não depende de uma eleição étnica, depende da identidade que eu vou construindo. Eu posso construir essa identidade seja eu quem for. Isto é uma revolução. É uma coisa completamente nova e que abre um espaço inacreditável para o mundo.

Por isso é que é muito importante o contexto. Porque assim percebemos que quando Paulo está a elogiar esta mulher que não se casa, no fundo, está a dizer: cada pessoa tem de ter a possibilidade de viver a sua vocação seja ela qual for. É um exercício de liberdade que Cristo nos dá e que deve continuar hoje a animar-nos. A Igreja tem de ser também uma escola de liberdade, que nos ensine liberdade, o que é o verdadeiro espírito de liberdade. Como diz Paulo na Carta aos Gálatas: “Cristo libertou-nos para sermos verdadeiramente livres.” Verdadeiramente livres.

Por isso, nós cristãos, temos de ter liberdade para pensar o mundo. Temos de ter uma criatividade, temos de ser uma vanguarda profética no mundo. Não somos apenas herdeiros de uma forma, de uma organização, de um modo de ser. Não, nós somos herdeiros de um Espírito, de um Espírito. Que muitas vezes nos faz perguntar: porque não? Porque não ir por ali? Somos herdeiros desse Espírito que nos faz olhar para o mundo com os olhos de Deus. Sem as grades, sem as margens, sem as classes, sem as estruturas que muitas vezes são caixas para arrumar e para dividir e para descartar partes da humanidade. Por isso, este manifesto da liberdade que Paulo nos dá, neste capítulo VII da Carta aos Coríntios, tem de continuar a animar as nossas vidas.

Depois temos o Evangelho, o maravilhoso Evangelho de S. Marcos. São 16 capítulos numa linguagem muito simples, mas parece que nós estamos a ler um romancista russo, parece que estamos dentro de um romance de Dostoiévski. E assim, nesta leitura que nós ouvíamos hoje, Jesus entra na sinagoga e há um endemoniado, há gritos, há um homem que se arrasta violentamente, há as entranhas que explodem, há os demónios que falam. Parece que nós estamos a viver um romance gótico e o Cristianismo também é isso. Porque é assim: o que é que é este encontro com Jesus? Até onde é que Ele vai? O que é que Jesus toca em mim?

O Evangelho de Marcos mostra-nos desde o princípio que Jesus vem tocar as profundezas do meu ser. Jesus não toca só a minha pele, Jesus não toca só o exterior ou não toca só o mental ou não toca só o religioso. Jesus toca a totalidade da pessoa humana no seu mistério, no seu enigma, na sua luz e na sua treva, na sua profundidade insondável. Jesus toca para resgatar a pessoa completamente, a pessoa na sua totalidade. Por isso, a salvação não é um exercício de manicure, um exercício de plástica, não é um melhoramento. É um encontro que resgata a pessoa na sua totalidade, na sua profundeza.

Deixemo-nos tocar por Jesus, deixemo-nos tocar. Se calhar há zonas de nós que nós nunca permitimos que Deus entrasse, que Deus descesse até elas. Deixemo-nos tocar na profundidade do nosso ser, naquilo que é mais denso em nós, deixemo-nos tocar. Que a Boa Nova do Evangelho chegue às profundidades do meu ser, do meu consciente, do meu inconsciente, do meu desejo, do meu sonho e que nos deixemos de facto evangelizar. Que a luz de Cristo chegue a todos os pontos da nossa vida. Porque Ele vem para isso. Salvar é resgatar por inteiro a pessoa que nós somos. Nas alegrias, nos nossos medos, nas nossas coisas altas ou no nosso rés da terra. É salvar tudo aquilo que nós somos.

Deixemo-nos ao longo deste ano chamar, tocar. Sabendo que Jesus não se escandaliza connosco. Jesus abraça-nos por inteiro, Jesus ama-nos. Jesus vem-nos trazer a misericórdia de Deus. Por isso, a Palavra que o Evangelho nos lança, descrevendo-nos estes encontros com Jesus, é de uma profunda confiança.

Vamos pedir por nós, por esta semana que começa, por este ano comum que estamos a viver para que seja uma grande oportunidade para a vida de cada um de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo IV do Tempo Comum

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2018/01/25 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2018/01/22 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Pedro Mesquita

Está disponível para ouvir a sessão de Pedro Mesquita sobre “Fédon – Platão”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Clique aqui para consultar a obra Fédon de Platão, na tradução de Jorge Paleikat.

Clique aqui para consultar a obra Diálogos de Platão (O Banquete, Fédon, Sofista e Político), da Coleção Os Pensadores.

Mais informações sobre o curso aqui.

2018/01/21 - Ele vem a cada instante (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nós estamos a começar o Tempo Comum, hoje estamos no terceiro domingo. O Tempo Comum é aquele eixo fundamental que atravessa o nosso ano litúrgico. Temos o Advento e o Natal que celebram o mistério da encarnação de Jesus, temos a Quaresma e a Páscoa que nos centram no mistério da nossa Salvação. Mas, o Tempo Comum acaba por ser o grande leito por onde a nossa vida flui, onde as águas do nosso coração correm.

A começar, com o sabor de começo, há esta reflexão que a Palavra de Deus nos propõe sobre como é que havemos de viver, como é que há de ser o tempo da nossa vida e que coisa é o tempo do ponto de vista cristão. Porque, o Cristianismo não é apenas uma proposta para ser vivida no espaço individual das nossas vidas, tem também uma visão global da própria história. Não serve apenas para pessoas, tomadas singularmente, mas é uma visão do destino humano, uma visão da própria criação, da própria realidade que o Cristianismo apresenta. Nesse sentido, é muito importante este passo da Primeira Carta aos Coríntios que hoje nós lemos e que pode soar até um pouco estranho aquilo que Paulo diz. Iremos a isso e faremos desse texto a base da nossa meditação.

Mas ainda queria, em jeito de introdução, dizer que no século XIX, no século XX revisitou-se muito a origem do Cristianismo e leu-se muito o Cristianismo na chave apocalíptica. Olhava-se para os primeiros cristãos, para Pedro, João, Paulo, para os seus escritos e aquilo que se entendia era isto: os primeiros cristãos viviam numa expectativa do regresso de Jesus, mas um regresso iminente. Paulo estaria convencido que ele próprio ainda assistiria à última manifestação de Jesus. E depois, como Jesus se foi demorando, como a escatologia não se realizava, os cristãos e o Cristianismo adotaram uma espécie de real politique, uma espécie de pragmatismo histórico a dizer assim: nós não podemos ser apocalípticos toda a vida porque já vimos que isto vai demorar um bocado, não sabemos nem o tempo nem a hora, então, vamo-nos adaptar pelo menos neste mundo vivendo na lembrança e na expectativa sempre do que virá, do que será, do que se revelará.

Hoje nós percebemos os limites desta interpretação do Cristianismo, considerando-o como uma forma apocalíptica de religião. Porque, de facto, o Cristianismo não é apocalíptico, o Cristianismo é messiânico, e nós somos um Povo messiânico. E o messianismo olha para o tempo de uma outra forma, de uma outra maneira. S. Paulo ajuda-nos muito a perceber qual é a essência do tempo cristão. Ele começa, nesta leitura que nós lemos do capítulo VII da Primeira Carta aos Coríntios, com uma imagem muito forte, ele diz: “Irmãos, o tempo foi abreviado.”

O que é que ele quer dizer com isso? A palavra em grego é usada para duas coisas. É usada, por exemplo, quando um animal está para dar um salto e encolhe-se todo para depois se esticar no ar. Isso é o verbo que Paulo usa para dizer que o tempo foi abreviado. Ou então, quando nós baixamos uma vela para depois a voltar a erguer. Então, o tempo é breve não quer dizer que temos um tempo breve, o tempo é o que é. Mas o tempo foi abreviado no sentido em que o tempo foi transformado. A experiência que nós agora fazemos do tempo não é a mesma. Do tempo cronológico, hoje ser domingo, amanhã ser segunda, hoje ser quase meio-dia, depois haver a tarde e a noite. A maneira de vivermos o tempo é transformada, é outra. E é transformada como? Como é que nós vemos isso? É transformada porque agora o tempo é messiânico, porque agora nós contamos com a experiência de Jesus. Jesus já veio, Jesus já Se revelou como o Messias, o Messias de Israel e o Messias universal. E isso dá-nos um entendimento outro da vida. Jesus não está atrasado. Na visão apocalíptica podemos dizer: os cristãos tinham expectativas que não se cumpriam e depois adaptaram-se pragmaticamente à realidade. Não, Jesus não está atrasado, no sentido em que nós podemos dizer que um comboio está atrasado. Não, Ele vem a cada instante, Ele vem a cada minuto.

O filosofo Walter Benjamin dizia: “Cada instante é a pequena porta por onde entra o Messias.“ Então, cada segundo da nossa vida, cada momento é o lugar onde Ele vem, onde Ele Se manifesta, onde Ele chega. É interessante que Paulo, e encontramos isso também nos Evangelhos sinópticos, fala de Jesus como oerkomenos, que é um particípio presente em grego do verbo vir, que quer dizer vir. Jesus é aquele que vem, é aquele que chega, não é aquele que chegou é aquele que está a chegar, que está chegando a cada instante da nossa vida. E isso, claro, tem consequências, tem de ter consequências na maneira como nós entendemos e vivemos a vida. E a consequência é uma espécie de revogação do modo habitual de viver. A forma da nossa existência que foi revogada. Por isso é que Paulo diz:” Os que têm esposas procedam como se não as tivessem, os que choram como se não chorassem, os que andam alegres como se não andassem, os que compram como se não possuíssem.” É uma revogação que acontece, mas uma revogação que diz: encontra na tua existência uma nova compreensão do teu lugar, encontra um novo uso para aquilo que és e vive a tua vida, vive o modo da tua existência oferecendo-lhe um outro significado.

É interessante que mesmo antes deste parágrafo que nós lemos do capítulo sétimo da primeira a Coríntios, S. Paulo está a dizer: “Se és escravo não desesperes com a tua situação mas percebe que como escravo também serás salvo, não desesperes porque também assim serás salvo.” Trata-se de percebermos que tudo aquilo que somos está como que marcado, assinalado por um significado outro. Se eu sou casado eu vivo o casamento com um significado outro, se sou celibatário vivo a minha condição com um significado outro, se as coisas me correm bem vivo o meu sucesso com um significado outro, se estou na tristeza, em momentos crucificantes vivo esses momentos de uma outra maneira dando um outro uso à minha vida. Quer dizer, não absolutizo as formas mas percebo que elas são apenas formas e que nelas eu tenho de encontrar as mediações de um uso novo. O Cristianismo não é o outro tempo, não é para nos preparar para o mundo que há de vir, mas é ajudar-nos a ver que Jesus é aquele que vem em cada instante, em cada momento. Por isso, nós não estamos à espera do fim dos tempos. Nós, no nosso presente histórico, já estamos a viver o tempo do fim.

Isto é, já ligamos cada instante, cada manifestação da nossa existência atual àquilo que é em plenitude o próprio Messias. Por isso, não estamos à espera daquele momento em que tudo vai acabar. Não, nós já vivemos o tempo do fim, já relacionamos cada parte da nossa existência a essa manifestação do próprio Senhor. Encontramos assim uma nova qualidade para o tempo da nossa vida e percebemos que não somos um povo desmobilizado. Pelo contrário, um povo messiânico é um povo mobilizado. Por isso, Jesus começa o seu anúncio, a sua vida pública também com uma palavra sobre o tempo. Jesus diz: “Cumpriu-se o tempo, o tempo encontrou a sua plenitude.” O tempo é o kairós, chronos é o kairós, o tempo é kairológico, o tempo é um momento oportuno. O tempo não é só tempo, não é este instante cego atrás de outro instante cego, este Chronos que devora os próprios filhos como é a experiência psicológica que tantas vezes nós fazemos do tempo, que não temos tempo e sentimo-nos devorados pela própria ideia de tempo. Não é isso, o tempo é um tempo kairológico, no sentido de que nos faz ver que este instante da nossa vida é o momento oportuno, é a oportunidade. Os cristãos olham para o tempo como uma oportunidade. Este momento das nossas vidas que estamos a viver é a oportunidade que Deus nos está a dar para vivermos plenamente o seu mistério, a sua relação com Ele, para acolhermos em plenitude, para o nosso coração ser a tal pequena porta por onde Ele entra.Faz-nos olhar para o tempo como um lugar onde o chamamento acontece. Por isso, queridos irmãs e irmãos, a nossa existência é vocacional. Nós somos mulheres e homens chamados, como Jesus passou à beira do lago e disse a Simão e André: “Vem comigo.” E disse a Tiago e a João: “Vem comigo.” Ele passa hoje na nossa vida e diz: “Vem comigo, vem comigo.” E é esse estar com Ele, esse fazer coincidir o nosso coração com o coração Dele que dá um outro sentido ao tempo da nossa vida.

Por isso, queridos irmãos, o Cristianismo não nos atira para lá da história. Não está interessado apenas nas razões últimas. O Cristianismo é muito interessado nas razões penúltimas, está muito interessado no aqui e no agora da nossa vida. Porque o tempo é um templo. O presente é já o futuro de Deus, é já o lugar teofânico, é já o lugar da irrupção desse grande encontro com o Senhor. Que esta compreensão do tempo nos mobilize, que este tempo comum não seja o anticlímax da nossa vida, dizendo: o tempo comum não é um tempo forte, é o mês de janeiro, é aquele mês para tentar recuperar forças e cabeças depois das loucuras todas de dezembro, depois fevereiro é para entrar um bocado na linha depois do Carnaval. Vivemos a vida um bocadinho como um anticlímax à espera dos momentos extraordinários. Não, a visão cristã do tempo não é essa. Cada momento do nosso presente é já a plenitude de Deus. Por isso, confiança, confiança, confiança. Por isso, vigilância naquilo que vivemos, por isso, compromisso com o Senhor que passa no aqui e no agora trémulo, inacabado, imperfeito, mas no agora Ele passa e dá um significado àquilo que vamos vivendo.

“O que tenho a dizer-vos, irmãos, é que o tempo abreviou-se.” O tempo abreviou-se, o tempo concentrou-se para poder dar o salto. Sintamos esta concentração, concentração do nosso coração, da nossa carne, dos nossos projetos, sintamos isso como desafio àquilo que somos, aos cristãos que somos. Porque Cristianismo vive no mundo com uma certa pretensão. Há coisas que nos fazem um bocadinho rir, não sabemos a origem das coisas. Por exemplo, a palavra “paróquia”. Nós dizemos: isso é paroquial. Olhamos para a paróquia como um velho uso que veio de séculos passados, que a gente não sabe o que é. Há dois verbos em grego para dizer os habitantes. Como hoje, há os cidadãos de pleno direito, que pagam os seus impostos ou nasceram aqui, ou de cidadania e, pronto, estão aqui, estáveis na cidade. E há aqueles que estão de passagem. Ou porque são turistas, têm um visto que vai expirar na data certa, ou porque são clandestinos. Esses são os de passagem e há os estáveis. A palavra “paróquia”, paroikos, quer dizer: “os de passagem”. Então, uma paróquia quer dizer a circunscrição daqueles que estão de passagem, daqueles que não são daqui, não estão aqui estavelmente. E de facto, nós somos esse povo. Esta pequena comunidade são pessoas que assumem a compreensão que estão de passagem, que não pertencemos aqui. Temos de viver qualificando o tempo de outra forma, à maneira de Jesus, seguindo-o à maneira destes que deixaram tudo e foram viver com Ele.

Sigamos Jesus. Ouçamos a Sua Palavra e façamos da Sua vida a oportunidade para a nossa própria vida.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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2018/01/15 - Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam” - Fernanda Henriques

Está disponível para ouvir a sessão de Fernanda Henriques sobre “A relação entre filosofia e literatura: as perspectivas de Martha Nussbaum e Paul Ricoeur”, no Curso “Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2018/01/11 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2018/01/01 - Um olhar de bênção (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Este detalhe da narrativa de S. Lucas sobre a forma como Maria acompanhava Jesus é precioso para nós. Porque é uma espécie de programa espiritual.

“Maria conservava todas estas coisas no seu coração, meditando nelas.” É isto que nós somos chamados a fazer. Nós acompanhamos Maria em três etapas.

Nós acompanhamo-la primeiro no Advento, no mistério da sua Anunciação. Quando, na sua liberdade, Maria é colocada perante a vontade de Deus que lhe diz através do anjo que ela ia ser mãe, ia ser parceira desta grande aventura que é o mistério da Encarnação e Maria diz: “Sim”, “Fiat”, “faça-se.”

Depois, vemos Maria a colocar o Menino Jesus na Terra, na vida, colocando-o de forma simbólica sobre aquela manjedoura. É a segunda etapa.

E a terceira etapa da maternidade de Maria é esta em que Maria acompanha Jesus, a partir do seu coração. Conservando, guardando o que a Ele diz respeito e meditando, maturando, ruminando o mistério da vida de Jesus.

Maria é exemplo para nós porque, a aproximar-se o fim do ciclo do Natal, o que nós somos chamados é a permanecer. E a forma de permanecer é guardar no coração. Não vamos guardar o presépio apenas numa caixa, não vamos guardar os símbolos num saco à espera do ano novo. Vamos guardar no nosso coração aquilo que vivemos. Vamos ruminar, vamos meditar, vamos estender no tempo o sabor daquilo que, de uma forma tão intensa, nós meditamos no Mistério do Presépio.

E o que é que nós vimos acontecer? Vimos acontecer o Deus connosco, o Deus que toma a nossa carne, que toma a nossa humanidade. Essa é a forma mais extraordinária de bênção que Deus dá a cada um de nós. É colocar Cristo na nossa vida como companheiro daquilo que somos. No fundo mais fundo do nosso coração, de todos nós, mulheres e homens, crianças, adultos há o desejo de uma bênção. Cada um de nós precisa de uma bênção, como a terra seca precisa da água. Uma bênção é aquilo que a própria palavra quer dizer: dizer bem, dizer o bem que nos habita. Nós precisamos sintonizar a nossa vida com a luz de uma bênção que em cada momento nos recoloque na esperança, que em cada momento diga a beleza que nós somos. Mesmo no provisório, no vulnerável, mesmo no meio da imperfeição, que diga não o mal que é sempre óbvio, não o tosco que se vê logo, mas veja a beleza daquilo que nos habita. Nós precisamos desse olhar. Aquilo, por exemplo, que o escultor Miguel Ângelo dizia: “Quando eu olho para uma pedra, para um mármore, eu não vejo um mármore tosco, primitivo, em bruto. Quando eu olho vejo já a escultura, vejo já a obra-prima. E o que eu faço é libertar a forma daquele mármore bruto.”

Quando Deus nos olha não vê o nosso pecado, não vê a nossa miséria, não vê a nossa imperfeição, não vê que nós somos fracos, não é isso que Ele vê. O que Ele vê em nós a cada momento é a obra-prima, e este olhar é um olhar de bênção. Nós precisamos de ser olhados assim, de ser amados assim. Porque, só isso é que nos dá a força e a capacidade de não sucumbir sob o peso da nossa imperfeição e da imperfeição do mundo. Só isso nos dá a força de não nos apagarmos completamente no deserto da nossa própria sede. É este olhar de bênção que Deus nos dá. Dentro de nós há essa sede profunda. Mas não só dentro de nós, dentro de cada homem, dentro de cada mulher há essa sede profunda.

Às vezes nós olhamos para uma pessoa e julgamo-la rapidamente. Olhamos muitas vezes para uma criança: que mal comportada, que isto, que aquilo! E às vezes não pensamos que uma criança de quatro anos já sofreu mais que muitos adultos. Não pensamos nisso, na carga de sofrimento que há naquela pessoa. E às vezes vemos cenas ou vemos gestos que não compreendemos, sem pensar que por detrás daquilo existe uma dor. Nós só conseguimos perdoar quando conseguimos perceber que a dor que o outro provocou em nós é mais pequena que a dor que ele transporta, que o faz ferir os outros daquela maneira. A dor que ele nos provoca é mais pequena do que a dor que o habita. Quando percebemos isso nós somos capazes de perdoar.

Nós vivemos este 2018 num mundo em transformação, num mundo com tantas imperfeições, tantas coisas novas, num mundo que é uma espécie de vulcão de acontecimentos. E que atitude nós devemos ter? Nós, cristãos, face aos grandes acontecimentos, face aos pequenos, aos quotidianos, aos da nossa escala que atitude devemos ter? Nós devemos abençoar, nós devemos sintonizar com a fome de bênção e tentar saciá-la, nós devemos dizer o bem que há no outro. E isso passa por mantermos uma relação de esperança, de confiança, de hospitalidade com a própria vida. Porque recusar a vida, fechar-lhe as portas, condicionar apenas a vida ao que já vivemos, às nossas convicções e convenções é muito estreito.

Nós temos de viver na abertura, temos de ser bons condutores desta bênção de Deus que se fez homem, que não nos quer como escravos, mas nos quer como filhos e como herdeiros. Sintamo-nos como herdeiros, e como herdeiros com capacidade de condividir, de partilhar.

Hoje, neste Dia Mundial da Paz, o Santo Padre escreveu uma mensagem baseada nos emigrantes, refugiados e migrantes, homens e mulheres à procura da paz. E, nessa mensagem, o Santo Padre desafia-nos a olhar para os migrantes e para os refugiados não apenas como pessoas que precisam, como pessoas que estão carentes e vêm buscar o pão, vêm buscar o emprego, vêm buscar o nível de vida, vêm buscar isto, vêm buscar aquilo. Ele diz: “Olhemos antes de tudo para os outros como pessoas que vêm buscar de mãos cheias.” O Papa Francisco diz: “Os migrantes e os refugiados chegam a nós de mãos cheias, porque trazem tanta coisa para nos dar, trazem uma vontade incrível de sobreviver, trazem-nos uma coragem perante as dificuldades que nos falta a nós, trazem uma capacidade de se vencer a eles próprios, trazem um desejo muito grande de vida, vida plena. Querem reunir as suas famílias, têm um desejo profundo de paz no seu coração. Não querem maldição, querem bênção. Trazem as suas culturas”

Então nós temos de os olhar não como alguém que vem buscar o que temos mas alguém que vem nos dar o que nós não temos. Por isso, a hospitalidade é sempre uma troca. Quando eu recebo alguém em minha casa, quando eu acolho, quando eu partilho dos meus bens, eu não estou apenas a dar. Muitas vezes o que nós damos na hospitalidade é tão pouco perante a dimensão daquilo que recebemos. Por isso, o Santo Padre diz: “Para este ano eu deixo-vos quatro palavras que são como pedras miliares para o tempo que começa. E essas quatro palavras são: acolher, proteger, promover e integrar.”

Acolher, proteger, promover e integrar. Se nós formos capazes de traduzir estas palavras na nossa vida o nosso ano será um ano de bênção. Será um ano em que nós estamos sintonizados com as coisas fundamentais, em que a meditação do Presépio continua a acontecer na nossa vida.

Queridos irmãs e irmãos, estamos a começar. E Deus ajuda quem começa. Nós estamos a começar o ano, nós somos sempre novos, nós somos sempre inéditos. Não somos apenas a continuação, nós damos saltos, nós avançamos. Não podemos dizer: eu agora estou escravo disto. Não, não. Podes estar e podes não estar, podes dar saltos. A vida avança por saltos. Não conta o que nós fomos, conta o que nós somos, conta o que nós queremos ser. Não conta o peso do passado, conta a alegria do hoje, conta o chamamento do futuro. Por isso, sintamo-nos inéditos, sintamo-nos a começar um tempo novo. O ano que começa não é apenas o calendário, é a oportunidade da vida, é o “kairós”, é o momento da Salvação que pode acontecer. Por isso, cada um de nós invista no tempo a confiança, cada um de nós invista no tempo a bênção. Porque, se eu estou sedento de bênção, o outro também está sedento de bênção. Então, caminhemos para o Senhor de todas as bênçãos em cada dia.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

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