Julho

2017/07/16 - Peregrinação 'Nos passos de Etty Hillesum'

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Junho

2017/06/22 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/06/19 - Westerbrok, por Carmo Sennfelt

Os retiros quaresmais, conduzidos pelo Padre Tolentino Mendonça para a comunidade da Capela do Rato, deixam sempre marcas profundas em todos os participantes. Este ano não foi excepção, pelo contrário. Ao escolher falar- nós de Etty Hillesum, uma rapariga holandesa, judia, plurilíngue , irreverente e independente, que morreu em Auschwitz aos 29 anos, colocou- nos, palpavelmente, perante o grande mistério de Deus e dos Seus, não menos misteriosos, desígnios e meios de nos abraçar.

1 – Lidos por muitos mas ainda desconhecido dum público mais vasto, o seu Diário assim como as cartas que escreveu do campo de trânsito de Westerbrok, a antecâmara holandesa de Auschwitz, são o testemunho dum longo, árduo mas perseverante caminho interior, à procura da presença de Deus, em si, e no mundo que a rodeia. No período mais negro dos anos 40, do século XX, em plena Shoah, Etty vai conseguir crescer espiritualmente até culminar a sua vocação de dom que a quer “um bálsamo para muitas feridas” (que é a derradeira frase do seu Diário). Ao dedicar- se, inteiramente, aos seus companheiros de infortúnio Etty consegue, simultaneamente, viver e saborear cada instante da vida que lhe é dado viver, ” porque a vida é bela e cheia de significado”, até ao fim. No postal que consegue atirar do comboio, que a conduz á morte, e que, miraculosamente, chegou ao seu destino, escreve: “deixámos o campo a cantar”. Já a 26 de Agosto de 1941, na sua casa de Amsterdam, escreve esta frase extraordinária: “Dentro de mim existe uma nascente muito profunda. E nessa nascente está Deus. Por vezes consigo alcançá-la, porém, quando fica coberta de pedras e de areia, Deus fica soterrado. Então tenho de O desenterrar de novo”. Tal comoTeresa d’Avila, que encontrava a presença de Deus entre as panelas e os tachos, assim Etty O reconhece nas mínimas coisas: na pequena nuvem entrevista através das grades duma janela, num jasmim florido, na terra húmida de Westerbrok onde fincava os pés, ou no tapete áspero onde se ajoelhava, para melhor se recolher, ela, “a rapariga que não se sabia ajoelhar” como se designou nalgumas páginas do seu diário. Era assim que Etty encontrava Deus no mais profundo de si própria, para O encontrar em todo o lado, e em todas as vicissitudes da vida corrente, para seu grande conforto e alegria. Era de complexão e saúde frágeis, condição que enfrentava como podia, abusando da aspirina ( conta, talvez exagerando, que tomava meio quilo de aspirina por mês e sabe-se como o ácido salícilico não é meigo para o estômago) o que lhe terá provocado uma úlcera gástrica que a manteve de cama durante semanas. Durante esse período, que foi o último que passou em Amsterdam, não deixou nunca de escrever, de meditar, de crescer espiritualmente e de, impacientemente, querer regressar a Westerbrok, de onde só tinha saído para se tratar. Westerbrok era o lugar onde se tinha sentido ser “o coração pensante da barraca” só que agora queria mais ainda, queria ser o “coração pensante de todo o campo de concentração”.

2 – O facto de me ter deparado com o Diário de Etty Hillesum, no final dos anos oitenta, deve-se a circunstâncias pessoais que me levaram cedo a ler (quase) tudo o que, nessa altura, havido sido escrito sobre a Shoah, o substantivo hebraico que significa catástrofe mas que se escreve assim, com maiúscula, por ser a catástrofe por antonomásia do povo judeu. O título que me chegou às mãos, na tradução francesa, era “Une vie bouleversée” o que indicia, a meu ver, a perplexidade do tradutor (e do editor) perante a complexidade e o inusitado conteúdo do texto. Noutras edições o titulo era “Uma vida interrompida” que deixava igualmente escapar o essencial. Também eu, não possuindo as “ferramentas” necessárias para verdadeiramente me aproximar e apropriar do texto, o que retive, então, da sua leitura foi apenas, ou pouco mais, do que uma pungente e trágica história da Catástrofe, mais uma de entre tantas, tantas, outras.

3 – O grande biblista e teólogo italiano Sérgio Quinzio escreve: “se Etty insiste em repetir que tudo é belo é porque nela age aquela profunda, hebraica, força de vontade de viver plenamente. Uma patine ideal, poética, reveste a sua sólida, irredutível, força hebraica.” Com efeito ao longo de todo o seu Diário, sobretudo durante os derradeiros meses, no meio da miséria e sofrimento, em Westerbrok, Etty vai insistentemente repetir que a vida é bela malgrado a violência e as privações quotidianas. Isto apesar de ter uma clara e realística percepção da iminência do fim já a partir do princípio de Julho de 42, muito antes da maioria dos seus correligionários. No dia 3 escreve uma das mais pungentes, belas e longas páginas do seu Diário. Cito aqui apenas um parágrafo : “É verdade que trazemos tudo, mesmo tudo, dentro de nós: Deus, o céu e o inferno, a terra e a vida, a morte e os séculos, tantos séculos. Um cenário, uma representação mutável das circunstâncias exteriores. Como possuímos tudo em nós, estas circunstâncias não podem ser assim tão determinantes dado que, circunstâncias, boas e más, existirão sempre e como tal devem ser aceites. O que não nos deve impedir de nos dedicarmos a melhorar as circunstâncias más. Sabendo, porém, por que motivos se luta e recomeçando, connosco mesmos, dia após dia. Numa belíssima afirmação, a 26 de Junho de 42, já tinha escrito: “Acho a vida bela e sinto-me livre. O céu espraia-se dentro e fora de mim. Creio em Deus e nos homens e ouso dizê-lo sem falso pudor. A vida é difícil mas não é grave”. E poucos dias antes, a 19 de Junho, escrevera, convicta: ” o misticismo deve fundar- se numa honestidade cristalina o que implica reduzir primeiro as coisas á sua realidade nua e crua”. Passados alguns dias, a 7 de Julho, numa longa e detalhada descrição de tudo o que tinha acontecido nesse dia, destaco o que escreve ao fim da tarde: “Estou pronta para tudo, em qualquer lugar para onde Deus me mandar, estou pronta, em qualquer situação e na morte, a testemunhar que a vida é bela e cheia de significado. E que a culpa não é de Deus mas nossa se as coisas estão como estão.” E será esta profunda, espantosa convicção, de que são os homens, de que é ela, que tem de ajudar Deus a manter-se vivo no mais profundo de si mesma que a irá, seguramente, acompanhar até ao seu último instante. Porque sabia, porque tinha a certeza que “é no mais profundo de mim mesma, ali onde me reencontro e que por comodidade chamo Deus “, que Essa presença jamais a abandonaria.

4 – No princípio dos anos 70, em Milão, tive o ensejo e o privilégio de conhecer a Dra. Luciana Nissim, pediatra e psicanalista que, juntamente com um grupo de amigos de Turim, foi deportada para Auschwitz a 22 de faveiro de 1944. O transporte partiu do campo de trânsito de Fossoli, próximo da cidade de Modena, ou seja, do Westerbrok italiano, com 600 pessoas a bordo das quais apenas 10 sobreviveram. Luciana Nissim e o seu amigo Primo Levi faziam parte desse restritíssimo grupo. A sobrevivência de ambos deveu-se ao facto de Nissim ser médica e Levi engenheiro químico, profissões essas que os pouparam, logo à descida do comboio, das câmaras de gás ou dos trabalhos forçados, mas também graças a todo um conjunto de circunstâncias menos desfavoráveis que os foram acompanhado, dia após dia, até á libertação. Não conheci Primo Levi pessoalmente mas sei que, tal como a sua amiga Luciana fazia com os seus vestidos, sempre usou camisas de manga curta, verão e inverno, para não esconderem o número e o triângulo, tatuado no antebraço esquerdo, numa partilha continuada da experiência comum. E ambos escreveram, um muito mais do que o outro, sobre a indizível experiência de Auschwitz que os marcou de forma ainda mais indelével do que essa tatuagem que era, simultaneamente, a primeira etapa da descida aos infernos e o seu símbolo, através do qual continuavam a ostentar, cada qual a seu modo, a tal irredutível força íntima hebraica de que fala Sérgio Quinzio. Caso tivesse sobrevivido, a Etty teria certamente feito o mesmo, escrito e testemunhado, com a rigorosa autenticidade do seu grande ânimo. Chegada à década de oitenta, sempre em Itália, tive ocasião de conhecer um estreito familiar de Primo Levi que me contou como esse, muito deprimido, tivesse deixado de conseguir escrever. O seu suicídio foi um enorme choque, a sua morte uma perda irreparável mas, de certo modo, não foi uma surpresa. Tal como escreveu um outro sobrevivente de Auschwitz / Birkenau e prémio Nobel da Paz, Elie Wiesel, “Primo Levi já tinha morrido em Auschwitz”. Perguntas sem resposta: e a Etty também se teria suicidado se tivesse deixado de conseguir escrever? Ou a sua fibra interior ter-se-ia mantido, alimentada como era pela sua “nascente profunda”, mesmo depois da indelével experiência de Auschwitz? Ou teria Etty acabado por se converter ao cristianismo, chamada como se sentia, cada vez mais intensamente, pela dádiva de si mesma, pelo dom cristico?

5 – Mais recentemente, em 2009, outro grande privilégio. O de participar numa peregrinação a Auschwitz / Birkenau (o verdadeiro campo de extermínio de onde velhos, doentes, crianças seguiam, directamente, do comboio para as câmaras de gás e os considerados válidos, selecionados para as mais de 10 horas diárias de trabalhos forçados). Peregrinação ecumica, essa, organizada pela Comunidade de Santo Egidio e pela Arquidiocese de Cracóvia, no espírito de Assis. Assim rezámos juntos e em várias línguas, judeus, roma, sinti, protestantes e católicos, com grande participação e emoção, numa cerimónia inesquecível, unidos na memória e na determinação do “nunca mais”. Por muito que se tenha lido e ouvido falar de Auschwitz / Birkenau esse lugar, sinónimo de infâmia e da maior desumanidade, o choque com aquela realidade física é tremendo. Do percurso de mais de mil metros, ao longo dos carris, por onde transitavam os comboios dos deportados, que do arco de entrada do campo levava á rampa que conduzia ás câmaras de gás, desse trajecto não se sai impune, não se regressa o mesmo. Não querendo deixar rastos, perante a avançada das forças soviéticas, os SS evacuaram o campo e fizeram implodir todas as construções. Nada resta, portanto, das câmaras de gás e dos 4 fornos crematórios ( o existente é uma reconstrução) e o monumento erigido em seu lugar relativamente recente. Mas a desolada extensão do campo, 2,5 km por 2, constitui, de per se, um enorme monumento ao martírio de todos aqueles que, de uma forma ou outra, ali foram assinados. Tal como Etty e a sua família: cinco pessoas entre os cinco milhões de vítimas da Shoah, que só em Auschwitz / Birkenau foram aproximadamente um milhão e cem mil pessoas. E ainda a propósito de monumentos: dois livros , “A noite”, de Elie Wiesel, e “Se isto é um homem” , de Primo Levi, que são dois verdadeiros monumentos ad memoriam. Ambos relatam as experiências, vividas em condições extremas, físicas e psicológicas, de cada um deles e dos seus companheiros, verdadeiras epopeias da capacidade de resistência humanas. Mas há outros livros que fazem parte desse mesmo grupo de grandes monumentos à memória das vítimas, anónimas ou não, recentes ou pertencentes ao passado. Refiro-me, só para dar três exemplos, aos livros de Imre Kertész, sobrevivente de Auschwitz e prémio Nobel da literatura, de Jorge Seprun, sobrevivente de Buchenwald, ou ao extraordinário romance de André Schwarz-Bart, “O último dos justos”, prémio Goncourt de 1959, cujo pai e os dois irmãos morreram em campos de concentração. Mas há muitos outros livros, de outros tantos sobreviventes, que também deram uma valiosa ajuda ao acesso a uma lenta e alargada elaboração dum “antes” , dum “durante” e de um complexo, doloroso processo de aquisição dum ” depois”.

6 – A todas estas circunstâncias, que me foram dadas viver, somam-se outras experiências, longínquas memórias da infância, mas que me são, porventura, mais próximas pelo sangue. Refiro- me á tragédia vivida pela família alargada do meu pai que viu desaparecer, sempre em Auschwitz / Birkenau, cinco dos seus membros. Tal como os Hillesum, todos deportados a partir de Westerbrok. Por isso não me é muito difícil imaginar que a minha jovem, recém-casada, prima Trudie ( Gertrud) e o marido, se possam ter cruzado com ou, eventualmente, mesmo conhecido a Etty, dado que estiveram no campo durante o mesmo período de tempo. Dos meus familiares sei que os mais velhos, o pai da Trudie e os sogros do irmão do meu pai, morreram nas câmaras de gás, mal chegaram a Birkenau . Quanto ao jovem casal, ao que se sabe, morreu das privações e de doenças tal como, muito provavelmente, aconteceu com a Etty e o irmão Mischa, também no final de 1944. Foi da mesma plataforma da ignomínia que era Westerbrok, que já a 7 de Agosto de 1942, partiram as irmãs Edith e Rosa Stein, arrancadas ao seu Carmelo de Echt, para irem morrer, nas câmaras de Birkenau, assim que lá chegaram, 2 dias depois. Tal como Etty, a Carmelita descalça também se sentia preparada para esta eventualidade e disse-o ás suas Irmãs , com palavras quase idênticas às de Etty, nas vésperas da deportação: “Aconteça o que acontecer estou preparada. Jesus está connosco”. E assim o dia 9 de Agosto, o dia da sua morte, passou a ser o dia de Santa Teresa Benetina da Cruz, co-padroeira da Europa. Quem também passou por Westerbrok foi Anne Frank, família e os restantes ocupantes do esconderijo da Achterhuis. Como punição, por se terem escondidos, estiveram presos, na barraca 47, que servia de prisão do campo de Westerbrok, barraca essa que foi reconstruída e que seguramente iremos visitar. A família Frank acabou por ser deportada com o penúltimo comboio que, a 2 de setembro de 1944, seguiu para Auschwitz. Daí Anne e a irmã Margot foram deslocadas para o campo de concentração de Bergen- Belsen, situado perto de Hannover, onde viriam a morrer de tifo, em data incerta, em fevereiro ou março de 1945 , ou seja, poucos meses antes da libertação do campo, pelas forças inglesas, em abril do mesmo ano. O pai Otto, único sobrevivente da família, tornou-se no paladino do Diário da filha, encontrado pela fiel amiga Mies Gieps, e que conseguiu publicar logo em 1947. A primeira tradução, em inglês, é de 1952. O Diário de Etty, esse teve, como sabemos, de esperar mais de 30 anos para ser publicado. Quanto ao futuro santo Maximiliano Kolbe, que era polaco, foi preso em Varsóvia devido ás suas posições anti- nazistas e dai directamente deportado para Auschwitz onde, depois da sua heróica decisão, foi barbaramente assassinado a 7 de agosto de 1941. Curiosamente, foi nesse mesmo dia, mas do ano ano sucessivo, que as irmãs Stein viriam a ser deportadas.

7 – Com o advento do regime nazi na Alemanha, em 1933, e as consequentes, crescentes e ferozes medidas anti-semíticas, de que a Kristallnacht foi um prólogo eloquente,muitos judeus alemães optaram por se refugiarem, ilegalmente, nos Países Baixos. Para esses refugiados, o governo dos Países Baixos, construiu um campo de acolhimento em Westerbrok. Porém, com a invasão da Holanda em maio de 1940, as coisas mudam, radicalmente, e Westerbrok passa a ser, primeiro, um campo de internamento e, a partir de 1942, um campo de transito para os destinos da morte. Para Auschwitz, como sabemos, mas também para Bergen-Belsen, Sobibor e Therensienstadt. Todas as terças-feiras, semana após semana. A vida quotidiana do campo era regida por este ritmo terrivelmente angustiante. E a pergunta, com que todos se confrontavam era: será esta a minha vez? A insegurança era constante, o medo permanente. Semana após semana, comboio após comboio, foram deportadas cerca de 107.000 entre homens, mulheres e crianças, muitas crianças. Aquando da libertação de Westerbrok, pelas tropas canadianas, a 12 de abril de 45, já só lá permaneciam 876 pessoas. O campo acabou por ser desmantelado no imediato pós-guerra e só posteriormente foi recuperado, na forma como hoje o iremos encontrar, como testemunho e homenagem á memória das vítimas.

8 – Interpelados e implicados no trajecto de Etty, através do sofrido e luminoso testemunho que, tão generosamente, nos quis deixar, estamos todos. Graças á sua “sólida, irredutível força hebraica“ Etty acabou por se transformar, para nós cristãos, num guia, num farol. Uma luz que precede e ilumina o longo, tortuoso, personalíssimo, caminho de cada um de nós, dentro de cada um de nós. Para, tal como ela, aprendermos a “desenterrar” Deus e aceder “à nascente profunda” que existe em nós. O “bálsamo para muitas feridas” que Etty queria ser, que ela sentia poder ser, era essa nascente profunda, revelada e derramada sobre os outros. O dom de si mesma. Quanto a nós, amparados, e estimulados, nesta viagem “por mares nunca dantes navegados” , pela mão, atenta e dedicada, do nosso Capelão regressaremos renovados e “temperados” ( o que não é sinónimo de “endurecidos”, como justamente observou Etty.) Temperados, renovados e agradecidos pelo privilégio que tivemos de ter conhecido o caminho espiritual de Etty Hillesum e de termos podido seguir alguns dos seus passos. Tudo o mais fica em aberto: dependerá do que cada um de nós fizer, ou melhor, daquilo que conseguirá fazer, dento de si, desta experiência. Tal como Etty diz, repetidamente, teremos de ser nós a ajudar Deus.

Nota – as citações de Etty foram por mim traduzidas, a partir da edição italiana do Diário, publicado pela Adelphi em 1996.

Carmo Sennfelt

2017/06/04 - A linguagem do Espírito Santo (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Há uma sabedoria muito grande nas imagens que a Bíblia utiliza. Uma das imagens iniciais tem a ver com a criação do Homem, do primeiro Adão, do primeiro terrestre. Conta-se que Deus, à maneira de um escultor, construiu um ser de barro e olhou para ele. Era um ser que tinha uma perfeição material mas que lhe faltava vida. Então, Deus insuflou as narinas daquele ser para que ele pudesse se tornar, não apenas matéria, mas vida, um ser vivente sobre este mundo, com tudo o que isso significa.

Sem cair em dicotomias fáceis, nós próprios sentimos na nossa experiência de viventes isso. Sentimos que há uma materialidade na vida, no corpo que somos, no que necessitamos para a vida. Há uma materialidade, nós somos matéria. Mas, ao mesmo tempo, não somos apenas isso, somos um não-sei-quê, um sopro vital. Somos um hálito, somos um mistério, somos um enigma que para lá da matéria é espiritual, é puramente espiritual, é puramente vida. E é esse sopro associado à matéria que faz o milagre espantoso, essa coisa espantosa que é o mistério da vida, que é o ser humano que não deixa nunca de espantar. Como se diz naquele início da Antígona de Sófocles: “Há muitas coisas espantosas no mundo mas nada há mais espantoso do que o ser humano.”

E, de facto, este espanto por descobrirmos em nós, não apenas uma matéria que tem a ver com este mundo, que é terrena, que é terrestre, que é material mas redescobrirmos em nós um sopro espiritual. E a mesma coisa em relação à Igreja. A Igreja o que é? Nós podemos descrevê-la de fora, sociologicamente, e dizer: a Igreja é uma sociedade. Nós aqui somos parte de uma pequena sociedade, de pessoas que se reconhecem, que têm vínculos entre si, que mantêm entre si umas ritualidades, em que há uma hierarquia que acaba por dar uma unidade, uma orientação e uma doutrina a esta própria sociedade. Vista de fora, muitas vezes a Igreja é analisada sobretudo assim, a nível institucional e como uma estrutura de poder na sociedade com uma influência capaz de organizar a moral, as convicções de um determinado grupo humano.

Mas dizer isso da Igreja é dizer que ela é só matéria, que ela é só a terra, que ela é só o barro. Porque a Igreja tem uma dimensão institucional, claramente, porque é feita de mulheres e de homens, mas a Igreja tem prioritariamente uma natureza carismática. Quer dizer, a Igreja não é só esta associação e a visibilidade sociológica que somos capazes de descrever, mas a Igreja é este mistério de relação, de revelação, de caminho, de peregrinação que cada um de nós está a fazer assistido pelo Espírito Santo. E o que é a Igreja ninguém sabe, ninguém sabe. Porque é preciso ouvir o que o Espírito Santo diz, a partir de cada um. A Igreja tem de ser um grande ouvido, uma grande antena daquilo que o Espírito Santo, mesmo a partir do seu próprio seio, está neste momento a dizer. Porquê? Porque em cada um de nós o Espírito Santo suscita, com uma fantasia, com uma imaginação divina, com uma criatividade de amor suscita um impulso, um desejo, um desassossego, uma intranquilidade, uma vontade de fazer coisas, uma vontade de criticar, de transformar, uma vontade de arriscar, de ir mais longe. Isso é o Espírito a impelir-nos, a falar dentro de nós. E em cada um de nós o Espírito fala, o Espírito fala.

Por isso, as imagens eclesiológicas que Paulo utiliza vão todas nessa linha. Ele diz: “A Igreja é um corpo e o corpo tem muitos membros, e todos os membros são necessários. E a mão não pode dizer ao pé: «Não preciso de ti.»” Não, precisamos de todos. E precisamos de todos porquê? Porque somos uma realidade pneumática, somos uma realidade carismática, somos uma realidade que é uma associação de dons. Nós estamos aqui, é uma associação de dons, de carismas em que recebemos uns dos outros, fortalecemo-nos uns aos outros neste caminho que é um caminho que é movido pelo Espírito Santo. Nós precisamos ouvir o Espírito Santo, precisamos de dizer ao Espírito: Vem, vem. Precisamos contar com a Sua ajuda. S. Paulo diz, por exemplo: “Nós não sabemos rezar, é o Espírito Santo que vem em socorro da nossa fragilidade, e Ele grita dentro de nós, com suspiros inefáveis, Ele grita: «Abbáa, ó Pai!» ” Então, quando eu rezo, não sou eu que rezo sozinho, é o Espírito Santo que em mim se une à minha fragilidade para com gemidos inefáveis, chamar Deus “Pai”. E nas outras dimensões da nossa vida nós somos uma consequência do Espírito Santo. Um cristão é uma criação do Espírito Santo.

Por isso, nós não podemos ser como aqueles cristãos de Samaria. Quando Pedro chegou lá perguntou-lhes. “Que batismo recebestes? O batismo só de água ou o do Espírito Santo?” E eles responderam: “Mas nós nem sabemos que havia um Espírito Santo, que há um Espírito Santo.” E a verdade é que muitas vezes nós nem sabemos que há um Espírito Santo. Há um Espírito Santo, e o Espírito Santo é a vida espiritual, é a vida de Cristo, é o Espírito de Cristo em cada um de nós que nos faz ser, que nos faz ser cristãos. Ser cristãos não é uma coisa de assinarmos o nome ou partilharmos apenas um conjunto de convicções externamente, ser cristão é sentir o coração a arder, é sentir dentro de si o templo do Espírito Santo, o lugar do Espírito Santo. É sentir que esse Espírito uno e múltiplo, esse Espírito que converge e nos projeta, esse Espírito que está dentro da Igreja mas que é maior do que a Igreja, esse Espírito que é derramado sobre cada um, não apenas sobre alguns, é derramado sobre cada um. E por isso, cada um de nós é uma expressão do Espírito Santo. Só há Igreja porque há esta descida sobre cada um de nós que nos faz ser, que nos faz ser.

Queridos irmãs e irmãos, ativemos o Espírito Santo em nós. Ele às vezes está presente na nossa vida mas desativado, como se não fosse, como se não estivesse, como se não nos movesse. É importante cada um de nós ouvir o que é que o Espírito Santo lhe diz, porque a cada um de nós Ele diz uma coisa diferente, mas a cada um de nós Ele fala e a cada um de nós Ele reforça, a cada um de nós Ele conforta, a cada um de nós Ele exorta, a cada um de nós Ele pacifica, a cada um de nós Ele reconcilia, porque Ele é o Espírito do amor, é o Espírito do amor de Deus derramado em nossos corações. Sintamos este amor dentro de nós e aqui em comunidade.

É muito belo o primeiro Pentecostes, quando os discípulos estavam reunidos, todos com medo, sem saber. E agora? Jesus morreu, ressuscitou, mas agora é a nossa vez. Como é que vai ser? Nós temos os pés atados pelo medo, nós não sabemos nada, nós não podemos nada, nós temos mais inquietação do que certeza, temos mais dúvida que fé. O que é que vai ser agora? O agora só é possível porque o Espírito Santo desce. E, quando o Espírito Santo desceu sobre cada um deles, eles começaram a falar línguas, línguas. E aqueles que os ouviam que eram de nacionalidades diferentes, de línguas diferentes, ouviam-nos todos falar na sua própria língua. O Espírito Santo faz-nos falar línguas. Nós podemos interpretar assim: o Espírito Santo faz-me falar uma linguagem nova. Não apenas uma língua nova mas uma linguagem nova. E que linguagem é a do Espírito Santo?

É a linguagem dos Seus dons, é a linguagem do amor que é a uma linguagem universal, é a linguagem da alegria que é uma linguagem universal; é a linguagem da fortaleza que é uma linguagem universal; é uma linguagem da ajuda, da compaixão, que é uma linguagem universal; é a linguagem da visita, da dádiva, que é uma linguagem universal; é a linguagem do bom conselho, da exortação, do amparo, do abraço que é uma linguagem universal. A linguagem do Espírito Santo não é como o português ou o francês ou o chinês, não, é uma linguagem universal que todos entendem, e nós temos a capacidade de falar essa língua. Às vezes falamo-la pouco mas temos a capacidade de falar essa língua, que todos entendem porque é a língua do amor, é a língua da dádiva, é a língua de um coração desarmado, é a língua do dom, a língua do dom.

Queridos irmãs e irmãos, que o Espírito Santo venha sobre nós. Vamos pedir do fundo do nosso coração: Vem, vem! Vem à terra árida da minha vida, vem à minha solidão, vem à minha dúvida, vem ao meu silêncio, vem à minha fragilidade, vem. Vem e faz-me Teu instrumento, faz-me Teu canal, faz-me o Teu artesão, o Teu anunciador. Vamos agora estar uns minutos em silêncio e vamos rezar: Vem, vem!

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Pentecostes

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2017/06/01 - Percurso de Preparação para o Crisma

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Maio

2017/05/22 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética dos Evangelhos - Pe. José Tolentino Mendonça

Está disponível para ouvir a sessão do Pe. José Tolentino Mendonça sobre Ética dos Evangelhos, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/05/21 - Somos uma invenção do Espírito (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

O drama da primeira geração de cristãos, que é no fundo o drama de todos os cristãos, é perceber se a cruz põe um ponto final, interrompe uma relação de conhecimento, de amor, de vida, de revelação, de esperança. Nós ouvíamos um dos discípulos de Emaús dizer ao misterioso companheiro: “Nós esperávamos que fosse Ele a conquistar a soberania de Israel, nós colocámos Nele tantas expectativas.” A questão é saber se a cruz interrompe essa relação ou se o mistério pascal na sua inteireza de morte e ressurreição, se aquele sepulcro que as mulheres acharam vazio, que João e Pedro confirmaram vazio, na manhã daquela primeira Páscoa, é o sinal de que esta história continua, de que não há propriamente uma interrupção mas há uma continuidade. Há uma transformação na relação, mas ela, na sua verdade, na sua autenticidade persiste e até se torna mais forte, torna-se mais radical.

Os discípulos aproximaram-se deste mistério como nós nos aproximamos, isto é, a tatear, sem ver claro, sem perceber muito bem. Mas como é que é verdadeiramente? Como é que acontece? Como é que vai ser agora? Como é que isto se torna uma verdade em mim? É a tatear, é entre dúvidas – nós estamos da mesma maneira que os discípulos, pois assim nos é narrado pelos primeiros relatos cristãos.

Contudo, do ponto de vista de Jesus, Ele explica como é este mistério que acontece em nós. Ele explica assim, nas palavras do Evangelho de S. João que dedica muito do seu evangelho precisamente a este ponto: Como é que nós vivemos a fé pascal? Como é que nós vivemos a nossa relação com Jesus, hoje, depois da Sua cruz? Não como uma relação interrompida e fracassada mas como uma relação que nos renova, que nos potencia, que nos dá vida, que nos vivifica por dentro. E no Evangelho de S. João, Jesus diz-nos: “Permanecei no meu amor, continuai a amar, continuai a amar. Porque eu não vos deixarei órfãos, não haverá um vazio. Continuai a amar-Me e eu enviarei o Espírito. Esse Espírito é o defensor, esse Espírito é o Espírito da Verdade, esse Espírito é o Consolador, esse Espírito é o Recriador, esse Espírito é Aquele que dentro de vós defenderá a fé. Porque às vezes o dilema da fé e da descrença, da noite e do dia, da esperança e do desalento é sobretudo vivido no palco do nosso coração, no interior da nossa alma. Ora, Eu vou mandar o Espírito e Ele há de ser o defensor da fé, da esperança e do amor dentro de cada um de vós.”

Tendo o Espírito nós permanecemos numa relação firme, amamos e sentimo-nos amados, sentimos que Jesus está presente, sentimos o mundo não como o lugar que é o vazio de Deus mas como um lugar onde esse encontro se celebra de tantas maneiras, numa multiplicidade de sinais. Porque amando nós sentimos Jesus presente e o Espírito ativa em nós essa capacidade de querer, essa capacidade de esperar, essa capacidade de continuar fiel ao próprio Amor. Este é o tempo em que nós dizemos “Maranathá”, dizemos “Senhor, vem. Vem no Teu Espírito.” Cada cristão é uma consequência do Espírito Santo. Nós acreditamos, nós dizemos o Credo (vamos dizer daqui a pouco de novo), o símbolo da nossa fé, porque o Espírito Santo está em nós. Nós dizemos o nome de Jesus, e esse Nome faz diferença na nossa vida, porque o Espírito nos move nesse sentido. Nós rezamos o Pai-nosso porque é o Espírito que grita “Abbá, ó Pai!” dentro de nós e Se junta à nossa fragilidade, dando força para que essas palavras nos arquitetem, essas palavras nos estruturem. O Espírito é a presença do Ressuscitado em nós. O Espírito é a continuação desta história, e uma continuação que é eloquente, uma continuação que não é repetida, não é a mesma; uma continuação que é a fantasia do Espírito, a criatividade do Espírito que faz derramar em nós dons diferentes, carismas diferentes, competências diferentes para construirmos o Reino de Deus, para fazermos essa experiência do Reino de Deus onde quer que estejamos, onde quer que seja o nosso campo de atuação. É o Espírito que nos move, por isso, o Espírito Santo é o grande protagonista.

É interessante nós olharmos para o livro dos Atos dos Apóstolos que estamos a ler nestes domingos de Páscoa. Aparecem-nos atores principais da história do Cristianismo, apareceu-nos Pedro, hoje aparece-nos Filipe que vai converter a Samaria, daqui a pouco vai-nos aparecer Paulo. Mas serão eles os verdadeiros protagonistas do crescimento do Cristianismo? Não, o verdadeiro protagonista dos Atos dos Apóstolos e da Igreja, o verdadeiro protagonista das nossas vidas é o Espírito Santo. Às vezes achamos que somos nós que fazemos, não, é o Espírito Santo que está em nós, é o Espírito Santo que atua através de nós, é o Espírito Santo que nos empurra, é o Espírito Santo que nos move, Ele é a força motriz da vida da Igreja e da vida de cada cristão. Por isso, nós precisamos tanto do Espírito Santo e precisamos redescobrir a fé no Espírito Santo.

O século XX, em termos da teologia e da eclesiologia, é um marco muito importante quando ele descobre a pneumatologia. Isto é, o Espírito Santo tem sido o grande esquecido da história do Cristianismo. Porque nós pensamos em Deus, e somos uma religião monoteísta, e falamos de Deus do Deus único. Nós somos cristãos porque acreditamos no Deus que nos é revelado por Cristo, na vida de Cristo, na Sua palavra e no acontecimento da Sua existência. E o Espírito Santo onde é que fica? O Espírito Santo muitas vezes fica completamente esquecido. E pode acontecer que nós, cristãos, até rezemos a Deus, rezemos a Jesus mas nunca tenhamos rezado ao Espírito Santo. Até pode acontecer que nós, cristãos e cristãs, não sintamos de uma forma consciente como o Espírito Santo está em nós, como nós somos um fruto do Espírito Santo, como precisamos entregar a nossa vida ao Espírito Santo, declararmo-nos seus instrumentos, pedirmos a sua ajuda, a sua iluminação, a sua força para poder ser, para poder ser mais, para poder ser melhor.

Por isso, precisamos redescobrir o Espírito Santo. Porque sem o Espírito a Igreja é só memória, o que nós estamos aqui a fazer é só uma lembrança daquilo que foi. O Espírito Santo é que diz: o Cristianismo não é só memória, é presente e é futuro. Porque, não é só lembrar o passado, nós não estamos aqui a ler palavras com dois mil anos, ou dez mil anos, nós estamos aqui a repetir um gesto que aconteceu há dois mil anos, estamos a fazer uma memória de Jesus, mas o Espírito está hoje em nós. Hoje é o primeiro dia, hoje é o dia da Ressurreição, hoje é o dia em que Jesus nos levanta, hoje somos nós os discípulos que andam a anunciar. Hoje somos nós aqueles, como diz a Carta de Pedro, que estão sempre prontos para declarar as razões da sua esperança. Hoje nós somos aqueles que são chamados a viver com alegria, com alegria mesmo o sofrimento, a perseguição, a doença, o luto, a morte. Somos chamados a viver com esperança todas as situações da vida. E porquê? Porque o Espírito Santo, a energia, a força, o vento, o sopro, o hálito, o alento do Espírito Santo está em nós. Por isso, nós precisamos redescobrir o Espírito Santo e o tempo pascal é um tempo de uma grande catequese pneumatológica. Nós temos o pneuma, o Espírito, o animus em nós.

Até em português, é interessante, temos a palavra “desanimado”. O que é um desanimado? É alguém que não tem o animus, perdeu o animus. E às vezes nós somos uma Igreja, somos uma comunidade, somos cristãos desanimados porque nos falta a vivacidade do Espírito, a juventude do Espírito, a alegria deste Espírito que é sempre uma sementeira. O Espírito que está em nós não nos deixa, Ele é o defensor do Evangelho na nossa vida e, através de nós, Ele explicita de uma maneira pacífica a própria Verdade.

Queridos irmãs e irmãos, que cada um de nós se comprometa, neste tempo pascal, a descobrir melhor o Espírito Santo. A descobrir melhor a ler, a pensar, a conversar sobre o Espírito Santo. Porque pode acontecer connosco o que aconteceu com os samaritanos. Eles primeiro receberam só o batismo, mas quando lhes perguntaram “Que batismo é que vocês receberam? Foi o do Espírito Santo?”, eles responderam “ Mas nós nem sabíamos que existe um Espírito Santo.” Ora, pode ser que nos aconteça isto, nós não sabíamos que existe um Espírito Santo. O Espírito Santo é que faz do barro um ser vivo. O Espírito Santo é que faz de uma fé que não é quente nem é fria, é que faz do nosso estado morno, é que faz do nosso tradicionalismo, é que faz da nossa fé que anda ali ‘quer, não quer’, da nossa fé a 50%, a 40%, uma fé viva. O Espírito Santo é que nos dá o sentido da plenitude, o sentido da missão, é que nos torna discípulos e discípulas de Jesus.

Por isso, descubramos o Espírito Santo e cada um de nós reze ao Espírito Santo. Maranathá! Vem Espírito Santo, enche o meu coração, conduz a minha vida! Vem Espírito Santo, ensina-me! Vem Espírito Santo, guia-me! Vem Espírito Santo e faz-me ser! Entrego-me a Ti, Espírito Santo! E veremos que a nossa vida ganhará outra liberdade, ganhará outra força, porque o Cristianismo não é uma invenção nossa.

O Cristianismo é vivido por nós, não por sermos melhores do que os outros, ou mais fortes do que os outros, ou menos cobardes do que os outros, ou menos impuros que os outros. Não, às vezes nós somos os piores do grupo – os piores, os mais fracos, aqueles que jamais seriam escolhidos para entrar num guião da virtude. E, contudo, não é isso que conta, o que conta é que numa massa frágil, vulnerável como a nossa Deus insufla o Seu Espírito. E então, nós somos uma invenção do Espírito e se nos transcendemos é na força do Espírito, e se nos renovamos é na força transformadora do Espírito, e se a nossa fé débil se fortalece é porque o Espírito acende a Sua luz dentro de nós. E se somos capazes de dizer um “sim” com uma força que nós não sabíamos existir dentro de nós é porque é o Espírito Santo que está a dizer esse “sim”, nesta hora precisa das nossas vidas. É o Espírito em nós. Por isso, precisamos abrir o nosso coração ao Espírito, pedir mais a ajuda do Espírito Santo, conhecê-Lo melhor, amá-Lo melhor. Porque é este Espírito que não nos deixa órfãos, que não nos deixa sós. E é este Espírito que é o vento de Deus, o sopro de Deus que empurra a nossa vida e a cada momento nos torna novos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo VI da Páscoa

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2017/05/18 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/05/15 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas Feministas - Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira sobre Éticas Feministas, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/05/14 - "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

É impossível para nós celebrarmos hoje a fé, lermos e meditarmos sobre a Palavra de Deus sem nos sentirmos tocados e iluminados pela passagem do Papa Francisco entre nós, pelo seu discurso, pelo seu testemunho, pelo seu silêncio de oração, pelo seu exemplo de peregrino que nas últimas horas nós pudemos acompanhar e que foi sem dúvida uma confirmação e um fortalecimento da nossa fé – o Papa que entre nós quis ser peregrino, que desceu do carro e quis ele próprio fazer o caminho até ao Santuário, recolher-se ali em oração e falar-nos como um pai fala com os seus filhos, como um pai na fé abraça e acompanha, estimula, exorta, entende os seus filhos. São para nós momentos de alegria muito grande, de alegria espiritual também, que sem dúvida não esqueceremos e que queremos hoje muito vivamente agradecer ao Senhor. Agradecer ao Senhor as imagens que nos encheram os olhos e o coração, que nos disseram tanto, agradecer ao Senhor o sorriso e as lágrimas das experiências que fizemos, agradecer a ternura deste Papa e a revolução da ternura de que ele fala, o ensinamento que ele nos traz, a tradução que ele traz do Evangelho na sua linguagem, uma linguagem para as mulheres e para os homens de hoje.

É muito importante que o Santo Padre tenha recuperado de uma forma tão viva a ideia da peregrinação: ser peregrino da esperança e da paz. Porque na experiência da peregrinação nós reaprendemos, de uma forma muito prática, esta Palavra de Jesus que hoje o Evangelho de S. João nos oferece como proposta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.”

Às vezes nós vivemos situações da nossa vida completamente bloqueados, em que perdemos a esperança, em que achamos que já não há remédio, não há solução, que já não vamos ou já não estamos a tempo. E a experiência do caminho é a experiência de um desbloqueador interno. É a grande surpresa que o peregrino faz na sua viagem –  é, a dada altura, ele compreender que há um caminho, que há um caminho. E esta palavra, só por si, é uma boa-nova, é uma palavra transformadora. É preciso dizer aos sem esperança que há um caminho, é preciso dizer àqueles que acham que chegaram ao fim, que não há nada a fazer se não o desalento das mãos caídas que há um caminho. E a experiência da peregrinação, faça-se ela onde fizer, nos caminhos de Fátima, nos caminhos de Santiago mas sobretudo nos caminhos quotidianos da nossa vida é esta certeza de que há um caminho e de que esse caminho nos fala. Esse caminho diz coisas ao nosso coração na medida em que damos tempo, na medida em que nos entregamos, na medida em que nos expomos radicalmente, em que nos entregamos. Porque a experiência do peregrino é entregar, é confiar. Ele não pode ficar parado num ponto da estrada, não, ele tem de confiar, tem de se atirar mais para longe e nas coisas da nossa vida também é assim. Não podemos ficar parados num tempo a marcar passo, ou numa situação, temos de caminhar, temos de caminhar. E é na medida em que fazemos esse caminho que descobrimos que o caminho se torna significativo, que o caminho fala e percebemos isto que Jesus diz: “Eu sou o caminho, Eu sou o caminho.”

A experiência do peregrino não é só chegar a um ponto, porque um peregrino não chega a um ponto visível, chega sempre a um ponto invisível, chega sempre a um centro espiritual, a um centro interior. E ele percebe que a experiência do próprio caminho é a experiência da revelação do próprio Jesus. Uma das coisas mais extraordinárias da homilia de ontem do Papa Francisco foi quando ele se dirigiu aos doentes, que no fundo somos todos nós – podemos não ser doentes físicos, mas dentro de nós estamos cheios de amolgadelas e disto e daquilo e coisas por curar e tratar. E ele disse: “Pensem nisto: quando subirem a uma cruz, Eu já lá estive primeiro. Quando passarem por um sofrimento pensem: Eu já estive aí. Quando passarem por um inferno, lembrem-se que Eu primeiro desci a ele e desci bem fundo para ser solidário convosco, para antecipar a vossa solidão, a vossa vinda a estes lugares.” Por isso, cada um de nós tem de se sentir acompanhado, na experiência de um Jesus completamente companheiro da nossa vida. E fazer do sofrimento, sofrimento físico e do sofrimento espiritual, um património, fazer desse sofrimento não apenas aquela fragilidade, aquele grito de socorro que precisa de ser ajudado (e que precisa mesmo) mas, ao mesmo tempo, perceber que esse é um património humano, que esse é um lugar, que esse é uma possibilidade ainda de oferecer, de encontrar outro sentido, de encontrar Jesus crucificado.

As palavras do Santo Padre centraram-nos muito na pessoa de Jesus. Maria não é superior a Jesus, disse-nos o Papa. Maria não é aquela porta mais fácil para chegar a Deus, porque o próprio Deus quer ser a porta. Jesus disse: “Eu sou a porta.” Deus é um Deus de misericórdia, Deus não quer o sacrifício, Deus quer a vida, Deus quer a plenitude e Maria é a primeira que entende isso. Mas Maria não vem para substituir um Deus julgador, pelo contrário, Maria é cúmplice de Deus, Maria é parteira de Deus nas nossas almas, nos nossos corações, faz acordar em nós a imagem e a certeza de um Deus que é misericórdia. E isto para nós é extraordinário porque é mobilizador, ouvindo isto nós de facto sentimos que há uma esperança, sentimos que há um caminho, sentimos que há uma verdade que acende a nossa vida e sentimos que há uma vida que não nos larga, há uma vida que não desiste de nós, que é a vida do próprio Deus, que é a vida incessante, incessante do Espírito em nós.

Por isso, nós compreendemos tão bem aquilo que diz esta Epístola do apóstolo Pedro. É uma carta interessante do final do primeiro século, é atribuída ao apóstolo S. Pedro mas, porventura, não terá sido ele mas um autor que se reportou à autoridade de Pedro. Mas, o que importa é isto: esta carta é dirigida aos cristãos que estão na diáspora. Reparem, nós estamos a falar de meia dúzia de mulheres e de homens ali na Ásia Menor, que não têm importância nenhuma e começam a ser perseguidos pela sua fé. O autor cristão escreve esta carta que é uma carta de conforto, mas também é uma carta para que os cristãos compreendam. E não é por acaso que nós lemos no tempo pascal esta Primeira Carta de Pedro. Porquê? Porque o tempo pascal é um tempo de autocompreensão para a Igreja, a partir daqui nós temos de nos compreender. Primeiro queremos compreender quem é este Jesus, morto e ressuscitado, quem é Ele. Mas depois também temos de compreender quem é que somos nós, quem somos nós este povo de batizados. Quem sou eu, homem que acredito em Jesus? Qual é o meu lugar? O que é que eu tenho a fazer? São as perguntas da Igreja neste tempo pascal. E é interessante a resposta que dá o autor da Primeira de Pedro, ele diz: “Substituí os sacrifícios materiais, pelos sacrifícios éticos, espirituais.”

O Cristianismo vem declarar o fim dos sacrifícios. Nós não somos uma religião ritualista, para nós o importante não é o rito, não é fazer isto, não é fazer aquilo. Não é matar um carneiro, não é ter de acender mesmo uma luz. Porque o Cristianismo vem declarar o fim do Templo, o fim do sacrifício, e vem falar da transformação dessa lógica tipicamente religiosa, a exterioridade, a ritualidade como fundamento. O Cristianismo critica e afasta-se disso para dizer o quê? Que agora o sacrifício é espiritual, o Templo é existencial e cada um de nós é uma pedra viva a construir um Templo.

Ora, isto parece que diminui a religião e ao mesmo tempo é o contrário, isto amplia a dimensão religiosa. Porque a dimensão religiosa agora hipoteca a minha vida. Eu sou, como cristão, uma mulher e um homem hipotecado ao Evangelho. Já não me pertenço a mim mesmo. S. Paulo há de repetir isto várias vezes: “Cristo comprou-te, tu és comprado, tu és pertença de Cristo.” E Paulo diversas vezes nas suas cartas se apresentava como escravo de Cristo. Porquê? Porque a sua liberdade e  a sua vida ele entendia como liberdade e vida hipotecadas ao projeto de Cristo. Por isso, cada um de nós também se sinta uma pedra viva deste Templo em construção. Palavras tão extraordinárias aquelas! Imaginem este grupo de perseguidos, de descamisados, de gente que sofria nas cidades da Ásia Menor e a Carta de Pedro vem em sua consolação e diz estas palavras tão extraordinárias: “Vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para anunciar os seus louvores.” E é isso que nos é dito hoje, nós que andamos às vezes tão frágeis, tão limitados, tão coartados, tão suspensos, tão indecisos, tão dilemáticos. “Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido por Deus para anunciar os seus louvores.”

Queridos irmãs e irmãos, o Vitorino Nemésio dizia isso sobre Fátima, que em Fátima a nossa humanidade passou a valer mais. Mas não é só com Fátima. Fátima é uma expressão daquilo que é o Evangelho em nós, o efeito da revelação de Deus em nós. Nós passamos a valer mais! Cada um de nós se sinta verdadeiramente precioso, cada um de nós sinta que Deus não nos descarta nem nos descartará nunca. Cada um de nós se sinta abraçado e amado pelo próprio Deus, por este Deus que é paternal e maternal, por este Deus que nos dá Jesus que visitou cada lugar, cada situação antes de nós para poder dizer ao nosso coração: “Tem força, acredita porque Eu já estive aí, Eu já passei por aí.”

Vamos nesta Eucaristia dar graças ao Senhor pela pessoa do Papa Francisco, por esta peregrinação que ele fez entre nós. Pedir ao Senhor que o seu exemplo nos toque, que nós percebamos o que é o importante, o que é o essencial, que nós sejamos capazes de relativizar aquilo que não é importante, de sacudir a nossa instalação, a nossa zona de conforto e nos tornarmos, agora que a peregrinação de Fátima acabou, peregrinos na vida de todos os dias.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo V da Páscoa

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2017/05/08 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas da Justiça e do Cuidado - Fernanda Henriques

Está disponível para ouvir a sessão de Fernanda Henriques sobre Éticas da Justiça e do Cuidado, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/05/04 - Percurso de Preparação para o Crisma

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Abril

2017/04/30 - Ver Jesus (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Ao celebrar o mistério da Páscoa de Jesus, que nestes 50 dias de uma forma muito especial nós estamos a celebrar, a viver, a refletir, podemos pensar que a grande questão é: presença/ausência. Perceber se Jesus está ou não presente, se nós O vemos presente na vida, O entendemos assim ou se somos devorados, destabilizados pelo terrível peso de uma ausência a que nós não conseguimos dar significado, a que não conseguimos dar sentido.

Presença/ausência: Onde é que está Jesus? Onde é que O encontraremos? Onde é que O veremos? No fundo, qual é que é o núcleo da fé pascal?

Este texto memorável do Evangelho de S. Lucas funciona como uma espécie de pequeno Evangelho, de resumo, de síntese do próprio Evangelho de Lucas. Diz-nos que o importante para nós não é ficarmos capturados pelo debate entre a presença e a ausência de Jesus, que presença ou que sentido dar à ausência. A grande questão do modo como nós, discípulos e discípulas do Senhor, somos chamados a viver a Páscoa e esta Páscoa é a questão de quando é que os nossos olhos se vão abrir? Quando é que vamos ver verdadeiramente? E uma das coisas que faz este texto, uma das operações mais importantes, é desligar a presença e ausência do ver ou do não ver. Porque, Jesus estava com os discípulos e eles não O viam.

Então, o importante não é saber se Ele está mesmo ou não está, se é a presença, se é o vazio, mas é o drama do ver, a dramática do ver. O ver tem a ver com a forma como nós compreendemos a Páscoa. Porque, depois, no final do Evangelho, quando ao partir do pão Jesus Se ausenta, a ausência de Jesus deixa de ser um problema. Então, o problema para nós não é se Jesus está presente ou se o sepulcro está vazio, o problema não é esse. O problema é: onde é que nós vemos Jesus? Onde é que nós O vemos? Onde é que nós O encontramos? Como é que nós compreendemos? Que visão nós temos da Páscoa do Senhor?

O Evangelho de Lucas apresenta-nos três lugares que são, ao mesmo tempo, três lugares existenciais e teológicos, são lugares da nossa vida: apresenta-nos o caminho, apresenta-nos a Palavra e apresenta-nos a mesa. O caminho, a Palavra, e a mesa. Todos nós fazemos caminho, somos caminhantes, o nosso dia a dia é um somatório de passos para lá e para cá que nós damos e nesses passos está Jesus, está a conversa sobre Jesus. Os dois discípulos iam numa fuga envergonhada, iam numa fuga desiludida, deixavam Jerusalém e iam para a periferia a 60 estádios para esta povoação chamada Emaús. E neste caminho, que é o caminho da sua desilusão, da sua ferida, do absurdo a que eles não conseguiam dar resposta, de uma coisa mais pesada do que eles podiam carregar e eles dizem: “Desistimos, vamos embora.” Neste caminho Jesus vem ao encontro deles.

Então, é importante nós descobrirmos que o caminho da nossa vida é um caminho teológico, que o caminho que nós estamos a fazer é um caminho onde Jesus vem ao nosso encontro. O caminho torna-se uma espécie de sacramento ou uma espécie de sacramental. Porque, qualquer que seja o nosso caminho (mais solitário, mais acompanhado, mais esperançoso, mais desiludido, mais luminoso, mais ferido, mais com fé, mais cravado de dúvidas), esse caminho é precioso. O nosso caminho é precioso porque é no caminho que Ele se vem colocar ao nosso lado, mesmo que os nossos olhos estejam impedidos de O ver. E tantas vezes nós sabemos que é assim. Parece que estamos a caminhar sozinhos com o nosso peso e com a nossa dificuldade, depois, mais tarde, nós vamos perceber que não estivemos sozinhos e que o caminho foi, de uma forma misteriosa, um lugar de encontro, um lugar de audição. Muitas vezes estes momentos de crise, estes caminhos palmilhados nas horas de crise são momentos de auscultação profunda, necessária na nossa própria vida. Os apóstolos tinham de chorar a morte de Jesus, tinham de chorar não compreender aquilo, tinham de chorar as esperanças quebradas a meio. “Nós esperávamos isto, nós esperávamos aquilo e nada disso aconteceu.” Eles tinham de explicitar a sua desilusão, e é muito importante dizer isso, e o caminho é o espaço para isso. De maneira que aprendamos também a dar valor ao nosso caminho, mesmo que ele pareça uma coisa sem sentido, mesmo que ele pareça só uma fuga, um fracasso. Aprendamos a valorizar o nosso caminho como lugar de construção da fé, e da fé pascal, porque o caminho é esse lugar, é esse lugar onde o Ressuscitado vem caminhar connosco.

Depois, nós temos a Palavra. E a Palavra é um lugar fundamental. Jesus começou por Moisés e pelos profetas a explicar em todas as Escrituras o que lhes dizia respeito. Nós precisamos iluminar o nosso sentimento, a nossa vida, a nossa experiência existencial pela luz de uma Palavra e isso liga-se àquilo que nós vemos nos Atos dos Apóstolos, Pedro e a comunidade primitiva, fazerem. O que é que os cristãos começam a fazer à luz da Páscoa? Começam a fazer uma releitura das Escrituras à luz do acontecimento pascal. No caso, S. Pedro pega num salmo do rei David, escrito tantos séculos antes e diz: Este salmo ilumina o que nós vemos acontecer com Jesus, o que nós acreditamos que está a acontecer com Jesus.

Então, a Palavra é muito importante. Às vezes o que nos dói é o silêncio. Porque, aquilo que nos desorganiza é a falta de uma Palavra. No fundo, o tempo pascal é também o tempo que nos dá uma Palavra que serve como de fio de Ariadne no meio do labirinto e organiza as nossas dúvidas, as nossas perplexidades, o absurdo daquela morte, do sofrimento, as nossas lágrimas. Tudo tem a possibilidade de se organizar pela Palavra. E é interessante que Jesus dá uma longa aula de Bíblia, de Escritura aos Seus discípulos. Nós também precisamos de Palavra. Não há fé pascal que não esteja sustentada numa Palavra, numa revelação e numa releitura. O Cristianismo, em grande medida, é uma releitura do Antigo Testamento, é uma releitura do Judaísmo e não só, é uma releitura da história da Humanidade, como depois S. Paulo fará. E nós precisamos reler, precisamos meditar.

Este é o tempo da Palavra, este é o tempo da Palavra. Porque a Palavra é aquilo que pode curar o nosso coração, pode colocar uma luz no nosso coração, e se estamos às escuras e se não descobrimos o sentido a Palavra é luz para os nossos passos. Por isso, nós precisamos ouvir, este é o tempo para escutar a Palavra, para reler, para reinterpretar a Palavra à luz de Jesus e aí encontrar um sentido.

Temos o caminho e temos a Palavra, e temos o terceiro momento. No meio daquela viagem, a viagem daquele dia, começa a escurecer, o dia cai. E os discípulos dizem a Jesus: “Senhor, fica connosco porque o dia vai cair.” E Jesus entra e senta-Se à mesa com eles.

Os primeiros cristãos (por exemplo estes dois homens: Cléofas e o outro anónimo de que nem sabemos o nome, não sabiam nada do que ia ser o futuro, mas eles tinham aprendido uma coisa com Jesus. O que é que eles aprenderam com Jesus? Aprenderam a hospitalidade, aprenderam que a fé é hospitalidade, a fé é responsabilização pelo outro, a fé é a capacidade de acolher o outro na nossa vida, na nossa casa e na nossa mesa. Porque Jesus, neste momento, para eles era um perfeito desconhecido, era apenas um outro viajante que caminhava com eles no caminho, sem identidade. Quando eles fazem este gesto de hospitalidade, de acolhimento, finalmente aquilo que eles eram incapazes de ver agora compreendem. Compreendem que é o próprio Jesus que parte o pão, isto é, o próprio Jesus que garante a hospitalidade, que faz a condivisão. E quando Jesus desaparece dos olhos deles, tudo deixa de ser um problema porque eles perceberam que aquele momento de encontro é um momento de descoberta de que Jesus está vivo, mas não só: é o momento de descoberta da grande transmissão de vida, do grande ensinamento que Jesus nos faz.

Queridos irmãos, no centro desta casa que é nossa está uma mesa, está uma mesa e estão as portas abertas e esta mesa está aberta para todos. Onde é que nós vamos reconhecer Jesus? Onde é que nós O vamos encontrar? Ele vai estar nos nossos caminhos mesmo que nós não O vejamos, ele vai estar na Palavra mesmo que nós ainda não consigamos ver que é Ele que nos fala nas palavras. Mas, quando nos responsabilizarmos pelo outro e dissermos “Não, tu não vais andar para aí sozinho no escuro. Não, fica connosco.”, quando nós sentirmos a responsabilidade do irmão e fizermos da hospitalidade também o sentido natural das nossas vidas, dos nossos trabalhos (E o amor o que é se não uma radical hospitalidade?), quando amarmos verdadeiramente e dissermos “Não, fica connosco” e convidarmos o outro a sentar à nossa mesa, então vamos descobrir que aquele misterioso companheiro, aquele silencioso, aquele que nos explicou, aquele que nos fez arder o coração é o próprio Jesus. Então, os discípulos saem a correr de Emaús e regressam a Jerusalém e regressam à comunidade.

Queridos irmãos, este evangelho de Emaús é uma catequese, é uma catequese sobre o que é a fé, sobre o que é a fé. A fé é o caminho, e o caminho em grande medida é a nossa biografia, é a nossa história, é a nossa trajetória, são os nossos encontros e desencontros. A fé é a Palavra, é o encontro com a Palavra, é o encontro com uma Palavra que organiza, que cura, que dá sentido, que relê, que ajuda a reler a própria história. Mas a fé, a fé cristã, fica sem possibilidade de ver Jesus se ela não é hospitalidade, se ela não é franquear de portas, se ela não é abertura de uma mesa universal, se ela não é convite para dizer “fica connosco porque o dia vem cair” – é aí que o Ressuscitado Se revela. Então, os discípulos já não estão tão sós mas sentem a força e a beleza da comunidade quando chegam a Jerusalém.

Queridos irmãs e irmãos, Páscoa de 2017. Nós temos de encontrar sentido para isto. O que é que nós estamos a viver? Que itinerário, que trajetória? Não é apenas a Páscoa do ano passado ou de há 50 anos, é a mesma e é outra. Porque eu sou outro, porque eu sou diferente. O que é que é para mim a Páscoa? É a ausência? É a presença? Ou é transformar a minha visão, a minha compreensão das coisas? No centro da minha nova compreensão das coisas, sei que há um elemento fundamental. Onde é que Jesus se encontra? No caminho, na Palavra, mas Jesus encontra-Se na hospitalidade e no encontro.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III da Páscoa

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2017/04/23 - Acreditar na ressurreição (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Hoje, neste relato do Evangelho de S. João, Jesus faz um gesto de criação, de recriação em relação aos Seus discípulos: Jesus sopra sobre eles. A ouvirmos este relato nós lembramo-nos da criação do Adão e da Eva, quando Deus soprou pelas narinas do primeiro adâmico terreno para que ele ganhasse o espírito, para que ele ganhasse, em hebraico diz-se a néfes, o sopro vital, o alento que dá a vida e que depois em grego se vai falar como uma alma.

Este sopro é o sopro da criação, sem este sopro nós estamos desanimados, nós estamos desalentados, nós estamos como que prostrados, nós somos apenas terra, nós somos apenas uma coisa que se desagrega. Não somos vida, não estamos de pé. Precisamos do alento vital, precisamos do sopro, do animus para viver animados, para vivermos com a confiança necessária para tomar a vida como ela é. E Jesus faz isso aos Seus discípulos. Por isso, a tradição cristã, desde os primeiros teólogos, os Padres da Igreja, falava da Páscoa como de um nascimento. Para nós, cristãos, é o verdadeiro nascimento, é um tempo de renascimento, em que nos sentimos a nascer de novo, sentimos que acontece uma metanoia, uma transformação do nosso entendimento, uma mudança, uma alteração da nossa maneira de ver as coisas. Passamos a ser mulheres e homens novos porque o sopro do Ressuscitado foi lançado sobre nós.

Na mesma linha, na Primeira Carta de Pedro que hoje lemos, o autor sagrado diz: “Felizes de vós porque nascestes em Cristo para uma nova esperança.” Cristo é o lugar onde a gente nasce, Cristo é o ponto do nosso renascimento. Isto é, o encontro com Cristo não é apenas o esbarrar na vida de um grande homem, uma figura histórica, d. uma figura referencial para a religião. Mas, mais do que um esbarrar é um verdadeiro encontro e um verdadeiro encontro do qual nós nascemos, do qual nós renascemos. Os nossos olhos como que se abrem e nós olhamos tudo de novo pela primeira vez e olhamos tudo de novo de outra forma, à Sua ótica, ao Seu olhar, ao Seu estilo, à Sua gramática, à Sua maneira de ver. E assim nós renascemos.

Mas, este renascer não é automático, é preciso fazer um caminho. Nós percebemos que mesmo os discípulos precisaram de fazer um caminho. Porque, até ao fim, quando lemos por exemplo os Evangelhos sinóticos, mesmo no último momento quando Jesus está a partir na Ascensão há alguns que não acreditam. Isto é, a erva da descrença, o obstáculo da incredulidade está no nosso coração e temos de contar com ele. Nós precisamos de fazer um caminho para acreditar na ressurreição. E o que é acreditar na ressurreição?

Hoje nós temos duas imagens. Se calhar as imagens são mais importantes do que as palavras, porque são mais sugestivas, tocam não apenas o racional, mas tocam também o nosso coração, mobilizam os nossos sentimentos, abrem-nos caminhos mais audaciosos. Uma imagem é do Evangelho de S. João, a outra é dos Atos dos Apóstolos que hoje nós lemos. A primeira imagem é esta de Tomé que ficou preso nas feridas e nós sabemos que não é difícil ficar preso nas feridas, não é difícil. Eu diria que até é o mais normal. O mais normal é nós acharmos que esta ferida é o fim, que esta ferida não se apaga, que depois desta ferida já não há caminho, que não se pode ir mais além, que esta ferida é o ponto final. E este, se calhar, é o modus de entendimento que nós temos. Vemos um corpo rasgado e dizemos: é o fim, é o fim.

A fé na ressurreição obriga-nos a mudar o lugar onde nós colocamos o ponto final. Porque, onde é que nós na vida colocamos os pontos finais? Se calhar, colocamos o ponto final demasiado cedo, porque contamos só connosco e com a nossa força. Se calhar colocamos o ponto final com desilusão demasiado prematuramente, porque não contamos com a força de Deus, com o impacto de Deus, com aquilo que Ele pode fazer em nós. E por isso, em vez de pontos finais, nós deviamos pôr vírgulas. Vírgulas que são esses tempos de espera, esses tempos de suspensão. Na nossa vida, em vez de preenchermos com grandes decisões para todos os tempos devíamos criar tempos de espera, tempos de pausa, à espera de Deus, à espera de Deus.

O que é que os discípulos foram obrigados a fazer? A retirar os pontos finais. Jesus morreu, vírgula, e ressuscitou. Aquela ferida era uma ferida que Tomé acreditava que era mortal, e ele tinha posto um ponto final. Depois daquela ferida não pode haver mais nada. Mas Jesus vem dizer: Não, depois da ferida põe uma vírgula, porque a história continua, a história continua. E, no fundo, a fé na ressurreição é uma fé que só quem ama entende. Quem ama não se conforma, quem ama está sempre à espera, quem ama está num tempo de suspensão. Para quem ama não há um fatalismo, não há dizer: isto não tem mais remédio. Porque amar é dizer ao outro: “Tu não morrerás.” E dizer isso obriga-nos a recusar os pontos finais e a acreditar que o tempo da ferida, o tempo da dor, o tempo do sofrimento, o tempo da morte que nós experimentamos é apenas uma etapa de um caminho, de um caminho que vai mais longe.

Como será nós não sabemos. O modo de intervenção de Deus nós não controlamos. O que vimos foi um sepulcro vazio, o que vimos foi um vivente que nos apresenta as Suas feridas. Mas apresenta-nos as Suas feridas dentro da Sua vida, dentro de uma vida nova, dentro de uma vida restaurada.

Então, aprendamos a não colocar demasiado cedo os pontos finais. A fé na ressurreição é isso, é acreditar que há uma resolução para a vida que nós podemos não estar a ver mas temos de acreditar nela. Temos de contar com ela e temos de acreditar que a ferida pode ser o lugar de uma fecundidade, que a ferida não é necessariamente estéril e que o rasgão daquele lado pode ser a fenda da esperança, a fenda de onde sopra o espírito novo e isto é acreditar na ressurreição. Mas acreditar na ressurreição não como uma magia, não como uma fantasia. Acreditar na ressurreição como um modo de viver, como um modo de tocar a vida, de a abraçar, de a encarar e a ler, sabendo que na vida temos de contar- precisamos contar e podemos contar- com essa força de Deus que faz tudo nascer e renascer a cada momento.

Por isso, é também extraordinariamente importante aquela imagem do livro dos Atos dos Apóstolos. Porque a fé na ressurreição não é apenas uma fé intimista, não é uma fé solipsista, não é uma fé para eu acreditar e mudar um bocadinho os meus pontos finais e as minhas vírgulas. A fé na ressurreição tem uma dimensão política, tem uma dimensão económica, tem uma dimensão existencial, tem uma dimensão na maneira de viver, na maneira de organizar a minha própria vida. Por isso, essa imagem extraordinária do livro dos Atos dos Apóstolos: aqueles irmãos que estavam reunidos, na bela expressão de S. Lucas, era como se tivessem uma única alma. Porque viviam numa solidariedade, numa capacidade de condivisão, num espírito de serviço e de partilha, num assumir as dificuldades porque passam os outros, num fazer seus os dramas que os outros vivem, numa capacidade de atenção, de entrega, de verdadeira fraternidade que era como se o mundo ressuscitasse, se Jerusalém ressuscitasse, se a comunidade ressuscitasse. E aqui também há tanto trabalho nosso. A ressurreição, o tempo pascal é um tempo para arregaçarmos as mangas e metermos as mãos na realidade transformando-a, fazendo-a renascer na linha daquilo que os Atos dos Apóstolos nos apontam, que é a capacidade de construir uma comunidade qualificando a nossa relação de uma forma nova, de uma forma nova que já não é o meu nem é o teu, que já não é isto nem é aquilo mas é uma capacidade de ser novo.

Isto é um desafio para nós, um desafio imenso, imenso para nós. Vamos pedir ao Senhor que este tempo pascal seja um tempo de desassossego para nós. Porque, a fé na ressurreição não é apenas o happy end desta história dramática, a fé na ressurreição é muito mais do que isso. A fé na ressurreição é dizer: Vá! Agora és tu! Agora faz. O que é que vais fazer com isto? Para que é que isto serve? Porque é que nós acreditamos que Aquele que está crucificado está vivo? Para que é que esta fé serve?

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Páscoa

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2017/04/20 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2017/04/17 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética Empresarial - Jorge Rodrigues

Está disponível para ouvir a sessão de Jorge Rodrigues sobre Ética Empresarial, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/04/16 - Aprender a acreditar (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Aleluia! Esta palavra hebraica que significa “adorai, louvai, enchei de glória, enchei de louvor” é aquela palavra que habita hoje o nosso coração. Hoje é mais verdade que cada um de nós foi criado para adorar, foi criado para louvar, foi criado para dançar. Tudo o que existe bate palmas, tudo o que respira louva. Porque a vida que nós vimos tão ameaçada, tão retida pelos laços da morte, essa vida soltou-se.

A ressurreição é a reviravolta de Deus. A história escreve-se de outra maneira, não há uma fatalidade. Na Sexta-feira Santa nós sentimos o peso da fatalidade, que tantas vezes é a palavra que nós temos de mastigar devagar ao longo do tempo. Tem de ser, temos de nos conformar, temos de aceitar, temos de viver o vazio, temos de viver essa redução a cinzas, a nada, temos de ver o fogo apagar-se e compreender que é assim, que não há mais nada a fazer. E, quando os discípulos rolaram a pedra sobre o sepulcro, era como se um ponto final tivesse de ser colocado naquela história.

A espiritualidade de Sexta-feira Santa é a espiritualidade de uma vida adulta como a nossa. De uma vida inacabada, de uma vida dilacerada, presa nos seus conflitos, nas coisas irresolúveis da nossa história, sentindo que aquilo que temos de fazer ou que teríamos de fazer é tão superior às nossas possibilidades. Então, o que nós sentimos é as mãos vazias, o que nós sentimos é a conformação de abanar os ombros e dizer “é assim”, de encolher a vida e de aceitar que no fundo a morte ganha sempre. A morte e o que ela significa, porque a morte significa muitas coisas, não é apenas o fim desta vida terrena, é também a pequena morte que nos insinua a morte que é o egoísmo, a morte que é a maldade, a morte que é a violência, a morte que é a indiferença. No fundo, olhamos para o mundo, olhamos para nós próprios e dizemos: tarde ou cedo a morte ganha sempre. E a nossa vida torna-se uma vida ferida, uma vida marcada cada vez mais por uma nudez, vamos ficando cada vez mais vazios, cada vez mais ocos, se calhar cada vez mais conformados com a nudez de Cristo que está pregada naquela cruz.

E há a manhã de Páscoa, três dias depois, quando as coisas são levadas ao limite, quando já não há mais esperança alguma, quando tudo começa a entrar num processo de decomposição e de fim, aquela Madalena vai ao sepulcro e descobre que ele está vazio. Vem a correr doida de alegria, intrigada, dizer aos discípulos e eles põem-se a correr ao sepulcro. Hoje é o dia em que os cristãos correm, correm. Porquê? Porque o sepulcro vazio é inacreditável, é inacreditável! O que nós celebramos na Páscoa é inacreditável, é a verdade mais inacreditável. E ao mesmo tempo é a reviravolta, é o levantamento, é a insurreição, é a história como nós não a tínhamos pensado. E isto para cada um de nós, e isto para o destino do mundo.

Por isso, hoje é o dia de celebrar aleluia, de levantar a cabeça. Hoje é o dia de sentir a leveza, sentir a esperança como um sopro que nos refaz, que nos anima, que coloca um sorriso no fundo da nossa alma porque Ele ressuscitou. Aquele que desceu mais fundo do que se pode descer, Aquele que foi até à aniquilação para abraçar toda a minha ferida, toda a minha fragilidade, toda a minha miséria, levantou-Se. E, quando Ele Se levanta, ele leva-nos aos Seus ombros de bom-pastor; quando Ele Se levanta, Ele leva-nos, segura-nos nas suas mãos de misericórdia; quando Ele se levanta também coloca a minha vida de pé.

O verbo “ressuscitar” quer dizer: ficar de pé, levantar-se. Levantemo-nos! Este é o levantamento mais fácil, mas há um profundo dentro de nós, esse é o verbo “ressuscitar”. Podemo-nos sentar. Para compreender a ressurreição é preciso fazer um caminho. Nós perguntamos: quem foram as primeiras testemunhas da ressurreição? E a quem custou mais não acreditar na ressurreição?

As primeiras testemunhas da ressurreição foram as mulheres. Foram as mulheres porque elas não largavam o sepulcro, porque elas choravam, elas precisavam chorar, porque elas levavam perfumes, porque elas cuidavam, elas queriam cuidar na morte e para lá da própria morte, porque elas queriam ficar ali, porque não tinham nada a perder. Não tinham medo que lhes dissessem: “Tu és Dele, tu és Daquele.” Elas não tinham nada a perder. E, ao mesmo tempo, o testemunho das mulheres também não era válido num tribunal judaico. Então, reparem, aquelas que amam, aquelas que não têm medo de correr o risco de amar, aqueles e aquelas que cuidam, aqueles que permanecem são os primeiros a testemunhar o mistério da ressurreição.

Como é que nós vamos tatear a verdade da ressurreição? Se nos colocarmos na fronteira do amor, na fronteira do cuidado, na fronteira do serviço, se permanecermos fiéis à memória do amor e habitarmos esse lugar continuamente, se perdermos o medo de amar então nós vamos ser os primeiros testemunhas da ressurreição. E são elas, como diz o Papa Francisco, Madalena, seguindo a tradição dos Padres da Igreja, “Madalena, a apóstola dos apóstolos”, vai chamar Pedro e João e eles vêm a correr. E eles também têm de fazer o caminho para compreender. Então, há dois verbos. Há o verbo “ver”, e o que é que eles vêm? Veem o sepulcro vazio, vêm as ligaduras caídas, vêm o sudário dobrado. Este é o primeiro verbo, o verbo “ver”.

Os nossos olhos também veem e veem o vazio, veem o silêncio, veem esse lugar refulgente da ausência, veem o invisível, mas esta visão é para podermos acreditar. E o grande trabalho da ressurreição é acreditar, acreditar. Quem ama, quem cuida, quem permanece fiel, quem perfuma a vida dos outros, quem não abandona, quem habita o lugar da vizinhança, o lugar da proximidade acredita, acredita, aprende a acreditar. E é isso, queridos irmãos, que a Páscoa pede de cada um de nós: que aprendamos a acreditar. A acreditar que a vida é maior do que a morte, a acreditar que Deus repara as feridas, que Deus é capaz de salvar o insalvável, que para Deus não há o irrecuperável, que Ele é capaz de fazer e recriar e reconstruir, porque Ele é o Deus da vida. A ressurreição, o sepulcro vazio, é essa irrupção de vida – torna-se fonte, manancial, surto. É dessa fonte que nós temos de nos alimentar para encher a nossa vida de gestos, de olhares, de caminhos, de viagens, de projetos, de pactos. Porque a ressurreição tem de ser vida que nos atravessa.

S. Paulo na Carta aos Colossenses tem uma das mais belas formulações da Igreja antiga, ele diz: “Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus para que ela, com Cristo, se possa manifestar.”

Queridos irmãos, nós celebrámos o Tríduo Pascal e o que é que fizemos? Morremos com Cristo. E nesta Eucaristia nós morremos com Cristo, o homem velho, a mulher velha que subsiste dentro de nós, nós queremos deixar com Cristo o homem da impureza, queremos que morra com Cristo para que possamos renascer com Ele para a vida. Os cristãos sentiram uma coisa quase insolente, pelo menos muito insólita, eles acreditavam que o Espírito do Ressuscitado estava com eles. Nós aqui, não estamos apenas a celebrar um facto de há dois mil anos. Não, nós estamos a estremecer, como a haste de uma flor estremece ao vento. Nós estamos a brilhar, como quando uma luz se acende no interior. Porquê? Porque já não somos só nós, já não contamos apenas com as nossas forças, já não vivemos apenas a nossa pequena história, o Ressuscitado está connosco, o espírito do Ressuscitado hoje desce sobre nós. E Ele também nos transforma, Ele também opera a grande reviravolta, a grande transformação na nossa vida. Hoje, quando nos voltarmos a levantar seremos mulheres e homens novos.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

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2017/04/14 - "Tudo está consumado" (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Olhem para o sacrário, está aberto, está vazio. Olhem para o altar, não tem toalha, não há banquete hoje. Procurem a cruz, não está, desapareceu. Não há um único sinal cristão, tipicamente cristão. Nós estamos aqui como se estivéssemos entre escombros, como se estivéssemos num lugar vazio, como não houvesse um único sinal no mundo que nos falasse de Jesus, que nos falasse do Cristianismo, da nossa fé. Hoje é o dia da redução, às vezes nós vivemos a nossa fé com demasiadas coisas, agarramo-nos a isto, àquilo, temos tantas belezas e tantos símbolos que nos falam.

Hoje é o dia da nudez, hoje é o dia em que olhamos para as mãos vazias e não temos nada, vale tanto estar aqui como noutro sítio qualquer, nada nos distingue das outras mulheres e dos outros homens da terra. Nenhum sinal nós ostentamos senão as nossas mãos vazias. Hoje a liturgia começou com os presbíteros caídos por terra, em total silêncio. Essa é a nossa forma de oração neste dia, este dia e o dia de amanhã são os dias do ano em que não há Eucaristia, em que as Igrejas estão assim, como lugares vazios, como terra desolada. Essa é a lição da cruz.

Ontem nós agarrávamo-nos à pergunta que Jesus fez aos discípulos e faz a cada um de nós: “Compreendeis o que vos fiz?” Hoje esse exercício hermenêutico, esse tatear o enigma deste silêncio em que estamos mergulhados continua. Teremos nós compreendido o que Jesus nos fez? As duas últimas palavras de Jesus na narração do Evangelho de João que hoje nós lemos, a primeira “Tenho sede”, a segunda “Tudo está consumado”, parecem duas afirmações que se anulam. Porque “Tenho sede” quer dizer que está incompleto, quer dizer que falta alguma coisa, quer dizer que há o desejo ardente de vida. “Tudo está consumado” quer dizer que se chegou à plenitude, que o destino, que o desígnio se realizou. E a nossa vida habita como um hífen, como um intervalo estas duas frases de Jesus, que para nós são luz para o caminho que nós fazemos. Temos de descobrir que a nossa vida é uma vida que se deve consumar, que se deve realizar.

Já este ano desapareceu um grande sociólogo polaco, Zygmunt Bauman. Ele dizia muito na crítica da modernidade que ele faz que nós como sociedades sabemos muito bem o que é o consumir porque vivemos a consumir – a consumir recursos, a consumir bens, a consumir a nossa própria vida. Sabemos conjugar o verbo consumir e muitas vezes parece que não sabemos outra coisa. Porque, diz ele, “Desaprendemos, desistimos de conjugar o verbo «consumar»”, que é diferente de consumir. “Consumar” é realizar, é levar até ao fim, é concretizar da forma mais plena, é não guardar nada, é ir até onde se tem de ir.

“Tudo está consumado”, e nós vivemos uma vida onde tantas vezes dizemos: “Tudo está consumido”, mas não sabemos o que é estar consumado. Jesus é o Mestre para as nossas vidas, é o Mestre que nos ensina a realizar aquilo que somos, a realizar a nossa humanidade como um projeto que se cumpre, não como uma promessa que fica por realizar. Jesus ensina-nos a ir até ao lugar extremo, a esse lugar que nos deixa no vazio, no silêncio, sem nada como hoje nós estamos. Sem absolutamente nada, não temos nenhum símbolo. Nenhum símbolo mas sentimos que tudo está consumado. Agarremos nisto, agarremos nisto como caminho, como lição que Jesus nos dá. Às vezes ainda estamos agarrados a isto, àquilo, às vezes ainda nos perdemos no labirinto de tantas necessidades verdadeiras e falsas que são o sorvedouro da nossa vida, do nosso amor, do nosso desejo e a vida não se consuma, a vida não se oferece até ao fim. O que a cruz nos grita, o que a cruz nos diz é: ama até ao fim, ama até ao fim, consuma a tua vida, consuma, realiza, plenifica a tua existência. Não vivas a 50%, a 40%.

A Sophia de Mello Breyner dizia: “Meia verdade é como comer meio pão, é como receber meio salário, é como habitar meia casa.” Às vezes nós vivemos de meias verdades e não vivemos essa verdade total, essa verdade plena que é a lição do Crucificado para nós. Ele diz: “Tenho sede.” Porque Ele continua a ter sede, a ter sede daquilo que cada um de nós hoje pode realizar. Agora é a nossa vez, agora é o nosso lugar, agora é o nosso caminho.

No século XX, desenvolveu-se uma teologia muito ligada aos campos de concentração e às perseguições nazis, a teologia do Deus fraco que nós encontramos em vozes como de Dietrich Bonhoeffer, ou encontramos na mística de Etty Hillesum. Deus é fraco, Deus é frágil, Deus é vulnerável, Deus não nos pode salvar. O Deus que nós vemos levantado na cruz é um Deus fraco, um Deus fraco. E é um escândalo a fraqueza de Deus, é um escândalo. Porque nós estamos sempre à espera que seja Ele que resolva, estamos sempre à espera que seja Ele que deicida, estamos sempre à espera que seja Ele a fazer o que nós não conseguimos, ou o que nós não queremos, atiramos para Ele e Deus não pode fazer nada. Deus não pode, Deus não responde, Deus é o próprio silêncio de Deus, é este o enigma desta Sexta-feira Santa. Como olhar para este Deus pobre, para este Deus que não pode salvar?

Etty Hillesum abre-nos um caminho, ela diz: “Eu compreendi que tenho de ajudar Deus.” A fraqueza de Deus pode nos pôr a milhas. Podemos achar que esta palavra é uma palavra horrível e tapamos os ouvidos. Não podemos acreditar num Deus que seja fraco, nós queremos acreditar num Deus forte, no senhor dos exércitos, no Deus que tem a última palavra. Não é esse Deus que hoje nós estamos a celebrar com este vazio, com esta nudez. Não é esse Deus que nos vai ser mostrado daqui a pouco como um espetáculo, como um espetáculo desconcertante aos nossos olhos. Vamos descobrir Deus que está tapado e o que vamos ver é um homem crucificado. Isto é um escândalo!

Nós estamos habituados desde pequenos a olhar para a cruz, mas alguém que olhe pela primeira vez a cruz sente um desfalecimento. Então era isso? Então vamos destapar Deus? Era melhor tapá-Lo de novo. Para mostrar um Deus fraco? Não quero! E tantas vezes é isso que nós dizemos, e olhamos para a cruz sem ver a cruz, sem olhar para aquilo que está lá escrito, escancarado, documentado na cruz que é a vulnerabilidade de Deus.

S. Paulo dizia que isto é uma loucura, é um escândalo, que isto não se entende. E, de facto, não é do domínio do inteligível, é o paradoxo da fé cristã. Nós vamos adorar hoje a cruz, vamos inclinar sobre ela a nossa fronte, vamos receber o seu perfume na nossa vida. Mas, receber e adorar a cruz é compromete-se a ajudar o Deus fraco. Porque, na nossa vulnerabilidade, na nossa fragilidade nós podemos fazer muito, podemos fazer tudo por Deus, podemo-nos colocar ao Seu serviço. Uma mulher como Etty Hillesum no campo de concentração, um homem como Dietrich Bonhoeffer numa cela da prisão nazi, eles foram vozes de Deus em momentos completamente obscuros do século XX. E hoje, os justos que sustentam o mundo continuam essa tarefa de ajudar Deus sentindo-se cúmplices com a impotência de Deus, minorando-a, transformando-a em lugar onde Deus abraça as nossas feridas. Como, em Cristo, como se leu hoje na Carta aos Hebreus, nós temos um Sumo-Sacerdote capaz de se compadecer dos nossos sofrimentos, porque Ele próprio carregou a nossa culpa, carregou a nossa iniquidade. Ninguém se sinta só, ninguém se sinta só.

Muitas vezes até nos infernos que escolhemos percorrer é importante sentir que Ele está lá. Uma das frases mais extraordinárias aplicadas a Jesus pela Igreja primitiva e que nós encontramos no Evangelho é dizer: “Ele foi contado entre os malfeitores.” Ele foi contado, éramos um grupo de malfeitores e Ele foi contado entre nós, éramos um grupo de maldizentes e ele foi contado entre nós, éramos um grupo de miseráveis e Ele foi contado entre nós, éramos um grupo de condenados e Ele foi contado entre nós. Ele está sempre a ser contado entre nós porque é solidário com a fragilidade, com a vulnerabilidade humana. Esta solidariedade de Cristo ajuda-nos a ser, é a âncora, é a mão estendida à nossa humanidade mas é também um desafio a nós ajudarmos Deus.

Pe. José Tolentino Mendonça, Sexta-feira Santa, Celebração da Paixão do Senhor

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2017/04/14 - d'Homini+ na Celebração da Paixão do Senhor

O grupo vocal d’Homini+ vai cantar na Celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-Feira Santa, 14 de abril, às 15h, na Capela do Rato.

2017/04/13 - “Compreendeis o que vos fiz?” (homilia)

No final desta passagem do Evangelho que nós proclamamos há esta pergunta de Jesus: “Compreendeis o que vos fiz?” E esta pergunta continua a ser uma pergunta para cada um de nós. Compreendemos o que Jesus nos fez?

Estamos a celebrar o ciclo pascal de 2017, cada um de nós tem um caminho feito com Jesus. Alguns de alguns anos, porque temos cinco, seis, sete anos ou menos, mas outros de muitos anos. “Compreendeis o que vos fiz?” Esta pergunta não nos larga, porque é muito importante que cada um de nós compreenda. E muitas vezes, nós atiramos esta necessidade de compreender para debaixo do tapete do mistério. Dizendo que é um mistério, que isto era uma coisa de Jesus que era Filho de Deus, que isto é uma coisa que não se percebe bem, isto é uma coisa para acreditar, não é uma coisa para compreender, isto é uma coisa que eu nunca vou chegar lá, isto é uma coisa que me ultrapassa. No fundo, tantas desculpas que nós damos, e, contudo, a resposta de Jesus vai no sentido de que nós possamos compreender. “Compreendeis o que vos fiz?” E mais, Jesus diz: “É importante compreenderdes o que vos fiz para poderdes fazer o mesmo aos vossos irmãos, para poderdes fazer o mesmo uns aos outros.”

Então, o que é que Jesus nos fez? O que é que Jesus nos faz? Jesus, olhemos para as coisas de uma forma muito simples, da forma mais simples, mais desprotegida que tenhamos. O que é que Jesus faz? Primeiro, junta-nos à volta de uma mesa. E uma mesa é um símbolo transversal a tantas culturas humanas. Há mesas mais altas, mais baixas, maiores, mais pequenas mas há sempre uma mesa. Nem que seja uma toalha deitada no chão, é uma mesa. Onde houver mulheres e homens há mesas, porque a mesa faz parte da construção da nossa humanidade. Nós somos o que somos porque passamos por determinadas mesas. Há uma história, há uma biografia de cada um de nós à volta de mesas.

E porque é que a mesa é tão importante? Porque a mesa, de uma forma silenciosa que a gente nem dá por isso, é um lugar que nos constrói. Porque é que é tão importante, porque é que é tão decisivo nos sentarmos à volta de uma mesa? Por exemplo, numa família, porque é que é tão importante comer uns com os outros? É importante, não apenas por razões económicas, porque fica mais barato, mas é importante porque nos alimentamos uns dos outros. Porque, à mesa mais importante do que comer o pão, ou comer o bife, ou comer a sopa, nós comemo-nos uns aos outros. Isto é, alimentamo-nos da presença uns dos outros, olhamos uns para os outros e isso reforça em nós a necessidade de amor, de presença que temos dos outros. Alimentamo-nos dos outros porque nos inspiramos dos outros, alimentamo-nos dos outros porque recebemos o dom de vida dos outros e precisamos absolutamente desse dom. Às vezes é bom comer sozinho, e muitas vezes nós temos de comer sozinhos mas mesmo quem come a maior parte do seu tempo sozinho sabe o que é comer em companhia, e percebe que aquilo que distingue um dia ordinário de um dia extraordinário, um dia comum de um dia de festa é podermos comer uns com os outros. Porque, comer uns com os outros é fazer circular o dom, é receber, é receber vida uns dos outros.

Jesus pega no pão naquela última ceia e diz: “Tomai e comei, isto é o meu corpo.” Pega no cálice com o vinho e diz: “Tomai e bebei, isto é o meu sangue.” Reparem, às vezes nós interpretamos isto de uma forma muito materialista. Claro que é fundamental acreditarmos que aquele pão é o Seu corpo e que aquele vinho é o Seu sangue, e cairmos de joelhos perante esse mistério. Mas esse mistério é um mistério divino, que é um mistério humano que todos os dias acontece ou pode acontecer connosco, porque também nós temos de ter a capacidade de transformar a matéria em vida, também a nós é pedido que transformemos o pão num laço de amor, que transformemos o vinho, ou que transformemos a água, o copo partilhado num laço de vida que nos ressuscita, que nos levanta do chão, que nos enche de esperança. Não tem nada de mágico, no fundo, o que temos em cada Eucaristia é o acontecer de uma dimensão antropológica, que está completamente próxima de nós, não é apenas o mistério de Jesus. Não, Ele encenou e viveu radicalmente, historicamente aquilo que é possível cada um de nós viver. E por isso nós dizemos: a Eucaristia é o centro da nossa vida. A Eucaristia é o útero da Igreja, é o seio de onde a Igreja nasce e renasce em cada dia. Porquê? Porque aqui nós temos a grande lição de Jesus.
E a grande lição de Jesus qual é? Criar uma mesa aberta, criar uma mesa sem fronteiras, uma mesa sem muros, uma mesa aberta a todos, de onde todos se podem aproximar e oferecer-se completamente como alimento, como dom. Entregar a sua vida, dar-se, dar-se aos outros a ponto de dizer: o que tu estás a comer não é pão, o que tu estás a comer é a minha vida; porque eu entrego a minha vida por completo nas tuas mãos.

“Compreendeis o que vos fiz?” Foi isto que o Senhor nos fez, é isto que o Senhor nos faz. E por isso, às vezes penso que as nossas mesas estão demasiado sequestradas, pela nossa insegurança ou pela nossa rotina, ou pelo nosso medo e acabamos por ser pão que fica duro no fundo do saco. A nossa vida muitas vezes é um pão que se perde porque não é dado, porque não é oferecido. Nós vimos à Eucaristia mas ritualizamos a Eucaristia. Ora, a Eucaristia é um rito, mas é um rito para ser vida, não é um rito para ser rito. É um rito para acordar em nós a capacidade de fazer o mesmo, de fazer o mesmo. E fazer o mesmo é termos a capacidade de juntar à volta da nossa mesa os nossos mas não só os nossos, ter capacidade de juntar na nossa mesa os próximos mas não só os próximos. Ter capacidade de juntar na mesa que é a vida, que nem tem de ser uma mesa, mas a vida, toda ela, é uma mesa porque estamos todos sentados à volta desta grande mesa que é a terra; a nossa atitude ser a atitude de quem serve, de quem dá, de quem oferece, a atitude de quem faz da matéria, dos bens, das coisas do mundo, da materialidade da vida, quem é capaz de fazer disso dom, dom.

“Compreendeis o que vos fiz? Fazei o mesmo uns aos outros.” No Evangelho de S. João nós não temos a narrativa da Ceia, temos a narrativa do Lava-pés. Jesus tira o manto, coloca-se de forma mais despojada e começa a lavar os pés aos Seus discípulos. E aquele diálogo com Pedro é muito verdadeiro. Porque Pedro diz: “Senhor, jamais me hás-de lavar os pés. Isso não faz sentido nenhum! Temos de ser nós a lavar-te os pés.” E de facto, não faz sentido nenhum, não é razoável, não é, não é. Mas Jesus ensina-nos uma coisa, que aquilo que resgata a nossa vida, aquilo que dá a ver, aquilo que salva a nossa vida não é apenas as coisas razoáveis que nós fazemos, mas é o excesso de amor que pode assinalar a nossa vida. O excesso de amor, nós somos salvos pelo excesso.

Eu às vezes digo aos pais que têm filhos pequeninos da minha equipa de casais, hoje tenho a alegria de ter aqui uma delas a ajudar-nos no canto, às vezes com os filhos eu digo muito: “Vocês vão ser pais imperfeitos. Convençam-se disso, se acham que nunca vão errar, não, vocês vão errar, vão falhar completamente como pai e como mãe, vão falhar. Há uma coisa que vos safa é se forem capazes de mostrar aos vossos filhos o vosso amor incondicional, em determinados momentos eles ficarem sem a mínima dúvida de que vocês os amam com um amor que não é deste mundo, com um amor maior do que tudo. Serem capazes da pura graça, da pura gratuidade deles sentirem que, pronto, é o amor, é o amor. E isso é através do excesso de amor. Façam coisas que deem a certeza aos vossos filhos desse excesso de amor. Isso vai salvar a vossa relação com eles.”

E é no fundo, isto que acontece no interior de uma família, mas acontece com cada um de nós e acontece com o grupo dos discípulos. Porque é que Jesus lava os pés aos discípulos? Para que nem lhes passe pela cabeça que Jesus não está disposto a amá-los cada um até ao fim, eles não terem a mínima dúvida de que Ele está disposto a dar a Sua vida por cada um deles. E é isso que Jesus diz a cada um de nós, que nem nos passe pela cabeça que Ele não nos ama até ao fim, até ao fundo, muitas vezes até ao fundo do nosso poço, até ao fundo dos nossos dilemas, até ao fundo do nosso inacabamento. Ele ama-nos até ao fim e até ao fundo. “Compreendeis o que vos fiz?”

Pe. José Tolentino Mendonça, Quinta-feira Santa, Celebração da Ceia do Senhor

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2017/04/10 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética da Justiça - Viriato Soromenho Marques

Está disponível para ouvir a sessão de Viriato Soromenho Marques sobre Ética da Justiça, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/04/10 - Celebração Penitencial em tempo de Quaresma

Na próxima segunda-feira, 10 de abril, às 21h, terá lugar a Celebração Penitencial da comunidade da Capela do Rato, para preparar de forma sacramental a Páscoa.

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2017/04/09 - "É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa” (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nós acabámos de ler a grande narrativa da Paixão de Jesus. Hoje nós sabemos que a primeira parte dos Evangelhos a ser escrita foi a Paixão de Jesus. Quando olhamos para os quatro evangelhos juntos (Mateus, Marcos, Lucas e João) nós percebemos que aquilo que eles têm de mais próximo, aquilo que é mais comum entre eles é a narrativa da Paixão. Quer dizer que a primeira coisa a ser escrita, aquilo que foi conservado na palavra, no relato, no testemunho, na conversa dos cristãos, aquilo que foi segredado ao ouvido, aquilo que iniciou cada cristão fazendo-o discípulo e discípula de Jesus foi o contacto com esta narrativa da Paixão.

Nós hoje entramos na Semana Maior, na mais santa das semanas do ano. É uma semana para nós muito significativa porque temos oportunidade na liturgia de reviver o mistério pascal do Senhor, sentindo que este relato é a nossa coluna dorsal, que este relato é a nossa arquitetura íntima, que nós somos moldados por este relato, que ele é confiado a cada um de nós como se Jesus viesse bater à nossa porta.

É muito interessante que logo no início do relato aparece-nos uma figura anónima. Os discípulos vêm perguntar a Jesus “Senhor, onde é que queres celebrar a Páscoa este ano?” e Jesus diz “Ide dizer a casa de tal pessoa: o Senhor mandou dizer «Este ano é em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa.»” Nós não sabemos que pessoa é essa, é um anónimo. Seria com certeza conhecido de Jesus e dos outros discípulos. Mas o facto de na narrativa permanecer anónimo permite hoje que cada um de nós, leitores auscultadores desta narrativa, sintamos, porque é mesmo assim, que o Senhor diz ”Olha, este ano é em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa.”

Cada um de nós sinta esta Palavra como uma palavra a si dirigida e, por isso, procuremos viver o mistério desta semana em intimidade com Jesus, em união espiritual com Ele. Tentando perceber o que é esta narrativa, tentando perceber como é que ela pode ser nossa, que mistério extraordinário é este da solidariedade de Jesus que desce ao fundo do abismo, da solidão, do silêncio de Deus, do abandono, do sofrimento de uma vítima, de um justo inocente. Ele desce até aos fundos abissais do sofrimento humano para me abraçar, para me resgatar, para dizer a cada momento da nossa vida: “Tu não estás só. Eu já estive aí, eu já estive aí.” No lugar da nossa dor, do nosso dilema, do nosso impasse, da nossa miséria, do nosso sofrimento, do que nós não conseguimos aceitar nem compreender. Jesus pode dizer com verdade ao nosso coração: “Eu já estive aí, Eu já estive aí.” Ele esteve em todos os lugares onde o homem é vítima, onde a nossa humanidade é crucificada. “Eu já estive aí. Por isso, eu posso estar contigo a cada momento da tua vida.” Sintamos que este relato hoje nos é confiado, confiado a cada um de nós. E o que vamos fazer com isto? O que vamos fazer com esta história?

Dois mil anos depois, num ponto do Ocidente distante da Palestina mas marcado de uma forma indelével por esta história, são os nossos ouvidos que escutam esta história, são os nossos ouvidos que ouvem esta notícia, somos nós que recebemos este apelo e somos nós que temos de sair destas portas e anunciar ao mundo que há um homem crucificado que diz que é o Salvador.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Ramos

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2017/04/06 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/04/03 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas do Dever - Pedro Alves

Está disponível para ouvir a sessão de Pedro Alves sobre Éticas do Dever, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/04/02 - Viver segundo o Espírito (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Na Carta de S. Paulo que hoje nós lemos ele fala de dois princípios que servem de bússola para a nossa vida. Muito na linguagem paulina nós temos de um lado a lei da carne, o caminho da carne, o princípio da carne e o princípio do espírito.

S. Paulo desafia os cristãos, os da sua comunidade e os de cada tempo, a viverem segundo a lei do espírito. Isto é, desobedecendo à lei da morte que se insinua em nós, desobedecendo à escravidão, à dependência que limita a nossa liberdade e atrofia a nossa vida; e estimula-nos, inspira-nos para acolhermos uma vida segundo o espírito. Isto é, uma vida em que, a cada momento, nós estamos conscientes de que somos filhos e filhos amados de Deus, que somos cuidados e encaminhados pela Sua misericórdia, que somos divinizados pelo Seu amor. E por isso, a nossa vida tem de ter o sentido, tem de ter a expressão desta vida divina aqui na terra. Viver segundo o Espírito é viver nesta relação permanente com Deus, nesta consciência a cada momento de que estamos perante Ele, perante o Seu amor.

Por isso, as pequenas coisas da vida não são pequenas, são o nosso modo de relação, são a oportunidade, a oportunidade de uma relação. Viver segundo o Espírito é considerar sagrado cada momento, é considerar uma grande oportunidade tudo aquilo que nos é dado, mesmo aquilo que a gente não espera ou aquilo que a gente não quer mas que está para ser vivido. Aceitar isso como oportunidade, como lugar de encontro, como via, como estrada, como caminho que nos conduz até Deus e viver isso segundo o Espírito. Isto é, numa atitude profunda, filial, de confiança. Como um filho pequenino se abandona no colo da mãe, no abraço do pai, nós somos chamados a viver essa entrega da nossa vida, essa confiança, repetindo continuamente: “Eu sou Teu. Eu quero ir para Ti. Ajuda-me a permanecer em Ti.” Libertar-se de um princípio da carne que é uma vida autocentrada, uma vida muito egoísta, uma vida à procura do próprio prazer, à procura daquilo que é o nosso eu para viver uma vida segundo o Espírito, experimentando essa liberdade, essa confiança, essa certeza do amor de Deus e sermos capazes de experimentar o desprendimento. Desprendimento de tudo aquilo que nos aprisiona, de tudo aquilo que nos prende.

A Quaresma é uma máquina de produzir desprendimento, de produzir desapego, é uma máquina de fazer liberdade, de fazer mulheres e homens livres que na oração, no jejum e na esmola encontram formas de se libertar, de pensar no outro, de sentir que a nossa vida é maior do que aquilo que nós somos capazes de construir, que a nossa vida não está apenas ao nosso serviço mas que é um caminho que tem de transbordar. É uma fonte, é uma cisterna que tem de espalhar vida em redor de si. Viver segundo a carne ou viver segundo o Espírito? O que é que nós verdadeiramente vivemos? O que é que estamos dispostos a viver?

Neste tempo da Quaresma, nós estamos já no quinto domingo da Quaresma, entramos na última semana. E a última pode ser a primeira. Não é mal nenhum, a última pode ser a primeira, podemos começar agora, o importante é que experimentemos este viver segundo o Espírito que é viver na escuta, viver na atenção, viver na paz, viver na generosidade, viver na mansidão, viver na reconciliação, viver no amor – este deixar-nos habitar pelo Espírito. Nós precisamos espiritualizar muito a nossa vida porque a nossa vida vive muito escravizada por aquilo que temos a fazer, pela pressão do dia a dia, pela nossa agenda, pelos acontecimentos, que muitas vezes são uma necessidade e outras vezes são uma desculpa para não estarmos em nós mesmos, para não estarmos diante de Deus. É importante parar, é importante colocarmo-nos a verdade de certas perguntas como esta que a partir de S. Paulo nos é feita: como é que tens vivido? Mais na linha do Espírito ou mais na linha da carne, mais na linha do mundo, mais na linha da tua autossuficiência e do prazer do teu eu? Tens vivido esse desapego? Tens-te deixado conduzir pelo Espírito Santo nas grandes e nas pequenas decisões da tua vida? Deus é o construtor da cidade onde tu habitas? Ou não pensamos nisso? Ou isso não é uma coisa que entra nos nossos cálculos, nas nossas discussões interiores?

A palavra que hoje nos é dita, primeiro em forma de promessa e depois em forma de realidade, é que Deus está disposto a tudo para vir ao nosso encontro. E cada um de nós tem de sentir isso. Deus está disposto a tudo para me manifestar o Seu amor. E por isso nós ouvíamos a palavra do profeta Ezequiel: “Eu vos farei ressuscitar dos vossos túmulos.”

O túmulo parece o lugar do irreversível, onde já não há nada a fazer. Lázaro estava morto há quatro dias, já cheirava mal. Muitas vezes na nossa vida há coisas que já cheiram mal, coisas que parece que já não há nada a fazer, já é mesmo assim, só se pode suportar, só se pode aceitar. E contudo, o amor de Deus diz-nos: “Não aceites o irreversível, não aceites a fatalidade da morte, da pequena morte que se insinua dentro da nossa vida, não aceites, não aceites, acredita na força da promessa: “Eu vos retirarei dos vossos túmulos.”

No Evangelho de S. João temos esta cena da ressurreição de Lázaro, está muito bem contada. Aí nós vemos a amizade de Jesus, vemos como Ele Se emociona profundamente, como Ele chora. Vemos profundamente a humanidade de Jesus em cena. Mas, quando Jesus ressuscita aquele homem, aquele amigo chamado Lázaro, o que é que Jesus diz? O que é que Ele nos ensina a ver? O que é que Ele nos leva, nos conduz a acreditar? Ele diz-nos: a morte não é a última palavra sobre o destino humano. Nós temos de atirar o nosso coração para mais longe, temos de atirar o nosso olhar para o infinito. A morte não é a irreversibilidade. Jesus desfaz o irreversível, Jesus desfataliza a nossa história, reabre o nosso assunto. Jesus diz: “Não, isto não é um assunto arrumado.” Vamos reabrir – reabre o processo da nossa vida no sentido da esperança, não para nos julgar mas para nos reanimar, para nos revitalizar, para nos dar uma outra vida no Espírito.

Queridos irmãs e irmãos, confrontemo-nos, cada um de nós, com estes textos – o profeta Ezequiel:“Eu vos farei ressuscitar dos vossos túmulos.”, S. Paulo: “Vivei, não segundo a lei da carne mas segundo a vida do Espírito.” E o que é isso viver segundo o Espírito? Jesus que disse a Lázaro e diz a cada um de nós, manietados tantas vezes pelas nossas mortes, numa vida que tantas vezes já cheira mal disto ou daquele assunto: “Sai para fora, sai para fora.” E tira as ligaduras que nos prendem e devolve-nos à vida. Isto é aquilo que Jesus está disposto a fazer na vida de cada um de nós. Deixemo-nos trabalhar pelo Espírito Santo na vida.

Um cristão é uma criação de Deus, é uma criação do Espírito. É verdade que há muito esforço nosso, há muito compromisso, há muita vontade, há sacrifício da nossa parte, há dádiva, há sonho, há utopia, há desejo profundo de ser. Mas, ao mesmo tempo, sentirmos que esta vida nova em nós é um dom, é um dom que Ele nos dá à partida, que não tem a ver com merecer isto ou merecer aquilo. Ele dá-te o dom. Nós somos filhas e filhos deste dom, somos recriados, transformados por este dom, reinventados pelo Espírito. Desobedeçamos, rebelemo-nos de uma vida que seja apenas um conformismo, uma fatalidade, um “não vejo como possa ser de outra forma”. E sintamos que há uma possibilidade, que há este desejo de Deus, esta fantasia de Deus que é capaz de recriar a mulher e o homem que eu sou, que é capaz de me tornar, eu que sou homem velho, numa nova criatura. Sintamos por isso as mãos de Deus, que moldam silenciosamente a nossa vida e abandonemo-nos com confiança a esse trabalho. Que esta última semana da Quaresma seja para nós um reacordar, seja para nós um entregarmo-nos, seja para nós um exercitar da própria confiança deste Deus que nos conduz pelo caminho do Espírito e nos reveste do Seu Espírito Santo.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo V da Quaresma

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Março

2017/03/28 - Lançamento do livro do Pe. Adelino Ascenso sobre o ‘Silêncio’, de Shusaku Endo

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2017/03/27 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas Consequencialistas - Pedro Galvão

Está disponível para ouvir a sessão de Pedro Galvão sobre Éticas Consequencialistas, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

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2017/03/23 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/03/20 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas Ambientalitas - Maria José Varandas

Está disponível para ouvir a sessão de Maria José Varandas sobre Éticas Ambientalistas, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

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2017/03/19 - O conhecimento de Jesus (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

É muito interessante a forma como o Evangelho de S. João está construído porque é o evangelho dos diálogos. Como em nenhum outro evangelho Jesus dispõe-se a conversar. A conversar com aqueles que o procuram e com outras personagens que o próprio Jesus toma a iniciativa de encontrar, como é o caso desta mulher samaritana.

Isto compreende-se porque as mulheres não podiam procurar os mestres, só os homens tinham uma educação religiosa. Por isso, enquanto nós vemos, por exemplo, Nicodemos a procurar Jesus, é Jesus que tem de procurar a mulher samaritana, a iniciativa é Dele. Porque Jesus está disposto a franquear as fronteiras, a franquear os muros, a ir à procura da ovelha perdida, daquela que está mais distante.

Jesus conversa no Evangelho de S. João. Isto é uma imagem que, se calhar, nós não temos habitualmente de Jesus, mas é uma imagem existencial, mas é uma imagem que nós próprios vamos tateando dentro de nós. Porque, no fundo, o que é que é a nossa fé? A nossa fé é uma conversa longa que estamos a ter há vários anos, há muitos ou há poucos, mas que estamos a ter com Jesus. Um diálogo. Um diálogo saboroso como é este, um diálogo também de mal entendidos, como é este, um diálogo em que não se percebe logo à partida tudo, um diálogo que é progressivo e um diálogo que nos dá a conhecer Jesus. E, conhecendo Jesus, com esse conhecimento nós somos capazes de olhar para a vida de outra forma.

Por isso, é muito importante sentirmos que nos diálogos da nossa vida, tal como nos diálogos do Evangelho, o ponto principal é o conhecimento de Jesus. Que conhecimento é que nós temos de Jesus? Porque, porventura, precisamos de descobri-Lo de outra forma. Precisamos que o nosso conhecimento se torne um conhecimento efetivo e afetivo para que depois a nossa vida possa ser vista com outros olhos, com outra disponibilidade e com outra esperança.

É interessante que neste diálogo de mal entendidos vão atirando assim umas coisas como quem não quer. No fundo, às vezes parece que a conversa da samaritana é mais um desconversar. “Mas como é que Tu, sendo judeu, vens falar comigo? Tu dizes que tens aí a água e ofereces a água mas eu não te vejo com balde nem com corda. Como é que vais buscar essa água se o poço é fundo?” É assim um desconversar. Mas, quando Jesus Se vai manifestando, quando Jesus lhe diz “Se tu conhecesses o dom de Deus eras tu que pedirias de beber”, aos poucos, no coração daquela mulher há uma viragem que vai acontecer. Quando ela diz “Eu sei que há de vir um Messias” e Jesus diz “Sou Eu”, não “Sou Eu” em abstrato, “Sou Eu que estou a falar contigo.” Então, “Eu sou o Messias nesta relação, não sou o Messias dogmaticamente, Eu sou o Messias no encontro pessoal que tenho contigo. Eu sou o Salvador, sou Aquele que resgata a tua vida.” Quando a mulher descobre isto no fundo do seu coração, a sua vida transforma-se. Aquilo que eram obstáculos, impossibilidades, tornam-se coisas que são uma oportunidade para o grande encontro, são uma oportunidade para ela ser salva por Jesus, pelo conhecimento de Jesus.

S. Paulo, na Carta aos Romanos, diz-nos isso: “Vede o amor com que Deus nos amou dando-nos o Seu Filho, e um Filho que dá a vida por nós.” Não porque nós somos santos, não porque nós somos os melhores, somos os qualificados eticamente, somos aqueles que vão à frente do pelotão. Deus sabe, Deus sabe como nos arrastamos, Deus sabe a nossa dificuldade, Deus sabe os nossos obstáculos, Deus sabe aquilo que nos forma por dentro. Mas, S. Paulo lembra, por um santo, por um homem justo é normal que se dê a vida, mas por um pecador, por alguém que não merece… Ora, nisto vemos o amor com que Deus nos amou. Jesus ofereceu por nós Sua vida quando éramos pecadores. É esta palavra a que nos temos de agarrar. Que amor é este que se oferece inteiramente a nós quando somos pecadores? Não para premiar o nosso mérito, mas para estimular a nossa fraca esperança; não para nos arrancar do caminho percorrido mas para nos arrancar do caminho que não começa, que resiste a começar dentro de nós; não para dizer “Tu, de facto, cumpriste”, mas para dizer “Tu não cumpriste, tu não fizeste, tu ainda não deste o primeiro passo mas eu amo-te, eu amo-te, eu dou inteiramente a minha vida por ti.”

É este conhecimento de Deus, é este conhecimento de Jesus que mobiliza a nossa vida, que transforma a nossa vida. Por isso, o tempo da Quaresma é um tempo de reencontro com Jesus, é um tempo para aprofundarmos o nosso conhecimento, a nossa relação, não é apenas nós próprios estarmos com os nossos pontos de esforço, estarmos a modificar, a converter a nossa vida por nós próprios, não é disso que se trata. Trata-se de ampliar o conhecimento que temos de Jesus. Quem é este Jesus? No encontro com Ele como é que eu O escuto, como é que eu O descubro? Como é que eu recebo Dele a água viva? A água que desperta todo o meu ser, a água que me liberta da escravidão do meu ser, a água que me liberta da escravidão dos poços, a água que me dá a fecundidade interior, que me dá a liberdade, que me dá a esperança. Como é que eu me construo no diálogo com o próprio Jesus? Porque, o conhecimento de Jesus, o conhecimento do Seu amor é a pedra fundamental.

Por isso, queridos irmãs e irmãos, sintamos o grande desafio de na oração, na leitura da Palavra de Deus, na meditação, nos tempos de silêncio, de recolhimento da nossa vida, na Eucaristia ao longo desta Quaresma nós nos centrarmos na figura de Jesus. Porque, é quando nós descobrimos quem é Jesus que a nossa vida muda e muda para sempre. Não muda porque lhe damos uns retoques e fazemos umas práticas ascéticas que nos tornam um bocadinho mais aceitáveis, não é disso que se trata. Mas trata-se de receber o Espírito dentro de si, de receber o Espírito do Ressuscitado que nos transforma. “Eu Sou o Messias, Aquele que está a falar contigo.” Ele está a falar connosco, está a falar com cada um de nós, sintamos isso. E sintamos aquilo que os samaritanos dizem à mulher samaritana: “Antes nós acreditámos porque tu nos contaste do episódio da tua vida, agora nós acreditamos porque nós próprios vimos e sabemos que Ele é o Salvador do mundo.” Nós precisamos de ver e saber e reconhecer que Jesus é o Salvador, mas isso tem de passar por uma experiência interior, por uma experiência de relação, por uma experiência de fé que é sem dúvida o ponto mais essencial.

Hoje, o livro do Êxodo dá-nos uma imagem e, de facto, as imagens valem por mil palavras. É uma imagem de esperança, é uma imagem de confiança para nós que somos o Povo que caminha, para nós que vivemos tão tentados, tão ameaçados, tão expostos ao vento, tão expostos à sede, à tentação. Aquela imagem é uma imagem de força, porque, quando o Povo reclama e diz “Trouxeste-nos aqui para nos fazer morrer à míngua” Deus dá aquela vara a Moisés e Moisés toca na rocha e a rocha torna-se uma nascente. Isto é, a pedra que é o lugar mais seco, que é o lugar sem nada. Moisés toca com a vara de Deus na rocha e a rocha torna-se nascente. Esta é uma imagem de esperança para nós. Porque, se calhar o que trazemos dentro do peito é uma pedra, se calhar o que sentimos que é a nossa vida neste momento é uma rocha, se calhar aquilo que sentimos é uma sede. E é interessante que todos os personagens têm sede, o povo no deserto tem sede, Jesus tem sede, a samaritana tem sede, todos têm sede. Quer dizer, é a história da nossa vida, todos somos sedentos, todos temos sede, necessidades, estamos a caminho, estamos na luta pela sobrevivência.

Deus transforma a rocha, o obstáculo. Deus transforma o lugar onde é fácil cair, onde é fácil a esperança soçobrar numa nascente. O que é que salta desta imagem? Salta água fresca, mas salta sobretudo a confiança – nós podemos confiar, nós podemos confiar. E esta credibilidade de Deus que Jesus revela é que é a âncora das nossas vidas.

Queridos irmãs e irmãos, nós estamos num tempo de retiro, num tempo de manobras, num tempo para sacudir tapetes, para limpar as coisas dentro de nós, para vencer o inverno dentro de nós, para fazer irromper o verde da primavera dentro de nós. É um tempo de trabalhos interiores, é um tempo para dar-se luta, para apertar-nos, para dizer: vai, acredita, recomeça. Não te instales, não digas: ”Não consegui viver estas três semanas, acabou. A Quaresma já acabou, foi um fiasco”. Não, começa, é hoje o primeiro dia, é hoje o teu primeiro dia. Mas, que no centro desta experiência quaresmal, desta experiência penitencial esteja de facto o diálogo com Jesus, o encontro, a escuta de Jesus. Ele que vem ter connosco, Ele que se mete com a nossa vida, Ele que diz: “Tenho sede”.

Jesus tem sede de quê? Tem sede da nossa vida, tem sede da nossa esperança, tem sede dos nossos sonhos realizados, tem sede da nossa autenticidade, tem sede da nossa verdade, tem sede da nossa dádiva, tem sede do nosso dom, da nossa entrega, tem sede da superação de nós mesmos, do nosso egoísmo, tem sede da capacidade de servir, da amplitude de ser que está dentro de nós. Ele tem sede disso e Ele não desiste de nós. Nós estamos aqui, cada um de nós está aqui, pode pensar que é por uma outra razão qualquer, mas cada um de nós está aqui porque Deus não desiste de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III da Quaresma

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2017/03/18 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/03/16 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/03/13 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética da Responsabilidade - Manuel José do Carmo Ferreira

Está disponível para ouvir a sessão de Manuel José do Carmo Ferreira sobre Ética da Responsabilidade, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui ao texto da sessão.

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2017/03/12 - Pedagogia de cura (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nós ouvíamos hoje no livro do Génesis o início da história de Abraão, que é o pai dos crentes e reconhecido tanto no Judaísmo como no Cristianismo. Mesmo na tradição Islâmica, Abraão é considerado o primeiro dos crentes, aquele que começou a aventura da fé.

Abraão é um protagonista improvável dessa história, e isso dá que pensar. Porque, se tivéssemos de escolher uma personagem para pensar a história da salvação, para viver a aventura da fé, sair da sua terra e ir para um lugar que não conhece, passar por tantas situações, porventura nós escolheríamos um personagem diferente, escolheríamos um jovem. Alguém com a força vital, com a abertura, com a capacidade de sonhar, de deslumbramento que uma aventura como estas exige. E, contudo, aquele a quem Deus escolhe e diz: “Olha, sai da tua terra, da tua parentela e vai para a terra desconhecida que tu não sabes onde que eu te vou indicar, olha para o céu e conta o número das estrelas, a tua descendência será ainda maior.” Aquele a quem Deus diz isto é um ancião, é alguém que tinha pensado da sua própria vida: “Vou arrumar as botas, estou no parque de estacionamento da vida, os meus dias estão contados, agora isto já não é para mim.” É esta personagem improvável que Deus vai buscar para começar a aventura da fé.

Por isso, porventura cada um de nós se sente um pouco uma personagem improvável. Quer dizer, se Deus tem de fazer viver alguma aventura, com certeza que no outro, na outra nós descobrimos qualidades que evidentemente nos faltam. E contudo, a história da salvação faz-se assim, com protagonistas improváveis. Em horas em que não se espera, da forma que não se conta, aí vem o apelo de Deus meter-se connosco, a chamada de Deus tocar à nossa porta e a dizer sai de ti e vai para o lugar que eu te indicar.

O que é que Abraão aprende nessa espécie de nomadismo, de itinerância, de rutura com a vida sedentária que ele levava, com seu contexto sociológico e familiar? O que é que Abraão aprende quando passa a ser um viajante, passa a viver na estrada? Ele aprende a confiança. Porque a terra para onde Deus o manda ele não sabe onde é, não é um destino já fixo, já esclarecido. No fundo, ele tem de viver cada dia confiado, agarrado, suspenso como se a sua vida dependesse disso, suspenso dessa Palavra. Isso é que é a fé, a fé não é dizer, eu vou daqui para ali e sei bem o que deixo e sei bem para onde vou. A fé é viver na exposição, é viver no desabrigo, é viver na dúvida, é viver na incerteza, é viver no aberto; mas é viver com confiança, é viver agarrado a uma Palavra.

Por isso, o verbo imperativo que no episódio da Transfiguração aparece bem sublinhado é: escutai-O, escuta, escuta. O que é escutar? Escutar não é apenas ouvir com os ouvidos é ouvir com o coração. É amarrar-se àquela Palavra como Ulisses se amarrou a um mastro para não ouvir os cantos das sereias. É viver ligado àquela Palavra, é fazer a sua vida depender deste ato de escuta fundamental que nos forma e nos arquitetura, é isto o caminho da fé.

Queridos irmãs e irmãos, nós estamos a viver este tempo da quaresma. É um tempo desafiante para cada um de nós e é um tempo de desinstalação, é um tempo também de esforço, também de sacrifício, um tempo de mudança. Essa mudança só acontece quando nós permanecemos fiéis a uma Palavra, nos amarramos, nos agarramos a essa Palavra e persistimos nela. E não é uma força que vem de nós, é uma força que o próprio Cristo nos vai dando e que nós vamos descobrindo em cada dia. Mas é preciso expor-se, é preciso aceitar ir, é preciso correr o risco, é preciso aventurar-se. E depois, Ele revela-se, como diz S. Paulo na Carta a Timóteo: “Sofre comigo, porque isto não é uma graça que nós tenhamos em nós mas é a graça manifestada em Cristo.” E é dessa graça que nós recebemos a força.

Hoje, por exemplo, celebramos o episódio da Transfiguração. O que é a Transfiguração? É Jesus tentar passar aos discípulos uma imagem que os console, que arranque do seu coração acobardado o medo da cruz, o medo do que vai acontecer. Porque, nesta altura do campeonato, os discípulos já estão a ver que aquilo não vai dar certo e que vai acabar sobrando para eles. Eles já perceberam que os sonhos que tinham de um ser coronel, o outro ser general, herdar isto, herdar aquilo dum reino muito terreno nada disso vai acontecer. Eles estão a perceber que as autoridades vão liquidar Jesus e estão completamente apavorados, não sabem o que vão fazer, querem abandoná-Lo, mas ao mesmo tempo também não conseguem. Ficam com os pés pesados quando se trata de acompanhar Jesus. O episódio da Transfiguração é para lhes dizer: “Podem confiar, Eu Sou Aquele que o vosso coração sabe mas o vosso pensamento ainda não chegou lá, Eu Sou Esse, podeis confiar.”

É muito bela esta narrativa de S. Mateus, quase que a pedagogia de cura, de transformação que Jesus faz com os discípulos. É uma pedagogia em três passos. Jesus aproximou-se deles quando eles estavam caídos por terra cheios de medo. Jesus aproximou-se deles, passo um; tocou-os, passo dois; e falou-lhes, passo três. “Levantai-vos e não temais.” E são, no fundo, estes três passos que Jesus faz com a vida de cada um de nós, com a vida caída, a vida sucumbida, a vida assustada, a vida que não sabe se caminha para a Páscoa ou se volta para trás, a vida que não sabe se consegue chegar à cruz ou não, a vida que se acobarda, a vida que fica a meio caminho, suspensa entre tantas questões, a vida de todos nós.

Jesus aproxima-se, sintamos a proximidade de Jesus. Jesus não nos enjeita, Jesus não nos recusa porque não temos a força, não temos a graça, não temos a luz que devíamos ter, não temos a verdade que se espera, não temos isto. Não, isso não é um impedimento, Ele aproxima-Se de nós tal como somos. Tal como estamos, Ele aproxima-Se de nós.

E depois toca-nos, toca-nos. Isto é, toca o nosso coração. Sintamo-nos tocados pelo amor de Jesus, e tocar é assumir, e tocar é incorporar, e tocar é levar aos ombros, e tocar é levar ao colo, e tocar é carregar o peso da nossa vida. Jesus toca-nos, toca-nos. Isto é, abençoa-nos, trata-nos com amor, cuida das nossas feridas como o Bom Samaritano cuidou das feridas do homem caído. Ele cuida de nós, Ele toca-nos, não nos repele, Ele vem ao nosso encontro, e um encontro de verdade, um encontro profundo.

E depois, fala-nos. A palavra é muito importante porque é esta experiência que nós fazemos aqui, dominicalmente, que é cada um de nós é recriado por esta Palavra. A Palavra que vem da Sagrada Escritura, a Palavra de Deus é uma palavra que nos transforma. Nós experimentamos a força performativa desta Palavra que nos faz outros, que nos renova, que nos abre horizontes. Então, Jesus diz: “Levanta-te”. É muito importante este verbo “levantar-se” porque em grego diz-se ‘egeiren‘, que é a mesma palavra para dizer ressurreição. Aquilo que Mateus vai contar no Domingo de Páscoa é que Jesus Se levantou do túmulo. ‘Egeiren‘ é a mesma palavra que Jesus diz aos discípulos, “Levanta-te”, e é a mesma palavra que Ele diz hoje a cada um de nós: “Levanta-te, ressuscita, vive como um ressuscitado, levanta-te!” É essa palavra que Ele nos diz: “Levanta-te.” Tem de haver um levantamento na nossa vida, tem de haver um acordar, tem de haver um pôr-se de pé.

Cada um saberá o que é que isso significa, o que é que isso representa, mas Ele vem dizer-nos isso, mas diz-nos isso e possibilita isso. ‘Egeiren‘, levanta-te. E cura o medo do nosso coração. Levanta-te e não tenhas medo.

Queridos irmãs e irmãos, é este encontro que transforma a nossa vida. É natural o que nós sentimos, o que nós vivemos muitas vezes é o que temos para viver, é o que nos calhou em sorte, é o que está no nosso caminho. Não vamos julgar, não se trata disso, mas trata-se agora de saber o que é que eu vou fazer com isto. O que é que eu vou construir? Qual vai ser agora o meu caminho? É muito importante estes três passos que Jesus celebra com cada um de nós. Por isso, cada um de nós sinta que cada um destes passos acontece com o tempo e com a perceção necessária ao seu coração. Cada um de nós sinta que Jesus Se avizinha da sua vida, da sua história, que Jesus toca o corpo das nossas feridas e que Jesus nos oferece a Palavra restauradora, recriadora: “Levanta-te, não temas.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo II da Quaresma

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2017/03/11 - Retiro aberto sobre a espiritualidade de Etty Hillesum

Estão disponíveis para ouvir as reflexões do Pe. José Tolentino Mendonça no retiro aberto sobre a espiritualidade de Etty Hillesum.

Pode aceder aqui aos textos das reflexões.

1ª Parte

 

2ª Parte

2017/03/06 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas do Cuidado - Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Está disponível para ouvir a sessão de Maria Luísa Ribeiro Ferreira sobre Éticas do Cuidado, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/03/05 - A construção de Si (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

No início do tempo da Quaresma temos como Evangelho as tentações de Jesus. Sabemos que uma vida no tempo, uma vida em liberdade, é uma vida tentada. Todos temos essa experiência de vozes contraditórias que nos habitam. Ou vamos para aqui, ou vamos para ali, sentimo-nos chamados para direções diferentes, sentimos em nós inclinações. Nós somos um emaranhado de palavras, de tendências, de possibilidades, de desejos. Precisamos esclarecer isso que somos, esse emaranhado de linguagem e de vida por organizar que cada um de nós é.

O modelo de Jesus é também um modelo de organização de si, de organização daquilo que somos. No meio de tudo aquilo que eu sinto, puxado para um lado e para o outro, por onde é que eu quero caminhar? Qual há de ser a minha estrada? Qual há de ser o meu ethos, o meu caminho ético que vou construindo no meu quotidiano?

Jesus não foi apenas tentado uma vez nem recebeu apenas três tentações. Mas este texto é também um texto simbólico e é um resumo de uma vida que, como a nossa, é uma vida exposta à dificuldade, é uma vida exposta à própria contradição. Mas nestas três tentações nós temos, de certa forma, a síntese de tudo aquilo que nos tenta, de tudo aquilo que para nós nos faz cair, nos faz tombar.

E há a figura de um Tentador que a tradição bíblica chama o demónio, o daemon, essa voz interna. As principais tentações não são aquelas que chegam de fora, são aquelas que se insinuam dentro de nós. E chama também diabolos, que é no fundo aquele que divide. Porque nós fazemos esta experiência interna de uma divisão, estamos divididos entre o bem e o mal, entre o erro e a verdade, entre o amor e a violência. Nós sentimo-nos divididos, sentimos que há uma certa diabolização. A figura do tentador serve para, de uma forma dramática, dar-nos a ver alguma coisa que acontece no silêncio da nossa vida. Porque normalmente nós não vemos um diabo vir ter connosco a fazer-nos propostas, não é preciso isso porque dentro de nós está isso tudo. Este teatro externo que nós vemos neste texto de S. Mateus é o nosso teatro internalizado, é o drama que nós vivemos ao nível da nossa consciência.

O demónio faz três propostas a Jesus. A primeira proposta é que Ele transforme as pedras em pão, que Ele coma as próprias pedras transformadas em alimento para Ele. E Jesus recusa. Diz: “Nem só de pão vive o homem.” Isto é muito importante e corresponde a uma tentação da nossa vida, que é tudo existir em função de nós e nos tornarmos devoristas, vivendo numa espécie de rapacidade em relação à realidade. Seja a realidade dos outros, dos nossos irmãos, seja a realidade do mundo, tudo serve para nos enchermos, tudo serve para nos alimentarmos, tudo existe em função de nós.

Há um comentário muito belo de Simone Weil que diz que a história seria muito diferente se Eva, quando olhou para a maçã, a tivesse admirado e não a tivesse comido, não a tivesse arrancado e não a tivesse comido. De facto, é uma atitude diferente: podermos olhar, reconhecer, admirar mas não estender a mão para possuir, para fazer nossa, para marcarmos o nosso território. Quer dizer, há um mundo para lá de nós, há um mundo que tem uma existência que nos ultrapassa, há um mundo que eu tenho de reconhecer como outro. E não numa ilusão enlouquecida da mesmidade, ou do alargamento do eu – tudo é eu, tudo é eu. Não, o eu é uma pequena parte da realidade, e a realidade é outro e eu tenho de respeitar a distância, tenho de respeitar a fronteira que vai de mim ao outro. E o olhar que eu dedico ao outro não é em função de mim, se é bom ou não para eu comer, para eu usar. Não, há uma bondade que não depende de mim, há uma bondade que eu descubro no outro, nas outras coisas do mundo que não depende do bem ou da utilidade ou do uso que eu possa fazer. Nesse sentido, há uma pobreza do nosso eu que é necessário adquirir, que é necessário fortalecer, colocar-se limites, dizer: não posso ir além disto, tenho de parar. As coisas são belas, não têm de ser belas na minha jarra, eu posso ver uma flor belíssima que continuará belíssima se eu não a colher. Mas, se eu olhar uma flor bela, e quiser meter na jarra de minha casa todas as flores belas, eu torno o mundo mais pobre, torno o mundo mais pobre. A questão é essa, quando nós dizemos às pedras para se transformarem em pães nós tornamos o mundo mais pobre e entramos num delírio de nós próprios a achar que tudo existe em função de nós. Dizer “Calma”, colocar-se limites, dizer “Eu sou apenas uma parte, eu não sou o todo”, isso é o ensinamento da primeira tentação.

A segunda tentação é quando o demónio leva Jesus ao pináculo do templo e diz: “Olha, deita-Te daqui a abaixo que Deus vai mandar os seus anjos para te aguentarem.” E Jesus diz: “Não, não tentarás o Senhor teu Deus.” Às vezes nós vivemos com um sentimento exacerbado de omnipotência. Queremos ser Deus, queremos correr todos os riscos, queremos atirar-nos de cabeça para as coisas porque alguma coisa há de acontecer, porque algum milagre, alguma solução há de se encontrar. Temos que dizer: calma, não colocarás Deus à prova, não podes transcender a tua medida. Muitas vezes nós vivemos como se não tivéssemos o corpo que temos, a vida que temos, a realidade que temos, as imperfeições que temos, os limites, vivemos num delírio de superação que não corresponde à nossa realidade.

“Não tentarás o Senhor teu Deus.” Isto é, não adotarás um providencialismo. E o providencialismo não é apenas Deus há de me socorrer, não é apenas de caráter divino, nós podemos usar de um providencialismo secularizado. Quer dizer, alguém há de me aguentar, a minha família, os meus amigos ou o Estado, ou isto ou aquilo, alguém há de pagar a fatura. Não, olha para ti, olha para a tua responsabilidade, sente a responsabilidade pela tua vida, por aquilo que tu és, organiza-te a ti mesmo. Isso é também um trabalho interior de conversão, de correção, de transformação que nós precisamos.

A terceira tentação é quando o demónio oferece a Jesus todos os reinos da terra desde que Ele o adore. Nós sabemos como quase sempre, para não dizer sempre, o poder e um certo tipo de poder implica vender a alma. Implica fazer de conta que certos valores não são valores, implica passar por cima de outras pessoas, implica usar métodos muitas vezes que são já subtraídos àquilo que nós sabemos que é a ética da verdade para podermos dominar, podermos chegar. E isso também é um delírio porque, no fundo, para chegar ao poder os fins tornam-se meios, e nós estamos disponíveis a abdicar, a vender, a comprar aquilo que não tem preço. Estamos disponíveis para nos trairmos a nós mesmos para chegarmos a determinado lugar, a determinado objetivo, a determinada situação. Recusar isso e adotar a clareza do próprio Jesus: “Não, não adorarás senão o Senhor teu Deus.” Isto é, guardarás intacto no teu coração o lugar para a verdade, o lugar para a pureza, o lugar para a integridade, guardarás isso intacto no teu coração e não te venderás, não trocarás a tua alma por outra coisa qualquer, por qualquer bem deste mundo.

O que é que nós assistimos nas tentações de Jesus? Assistimos à construção de Si. Nós esquecemos muito isso no sentido de que parece que temos uns anos de formação, quando somos crianças até à adolescência, os nossos pais têm um poder de correção, de acompanhamento da nossa vida e depois estamos por nossa conta e risco. Depois é como se já soubéssemos tudo, vivêssemos tudo, fossemos pessoas perfeitas, acabadas, concluídas. É como se não houvesse mais caminho interior para fazer. E não, nós precisamos de viver numa formação permanente, numa formação espiritual permanente. Há um processo de caminho que é também um processo ascético de correção, de melhoria, de esforço, de morte para si mesmo, de renascimento que nós temos de ensaiar em nós.

A Quaresma o que é? A Quaresma é um tempo de exercícios espirituais mas com esta forte componente ascética porque é um tempo de conversão. Nós precisamos mudar. É uma ilusão acharmos que não precisamos mudar nada, só precisamos manter aquilo que somos. Não, precisamos mudar, precisamos melhorar, precisamos sentir a tensão de ir mais longe, a tensão de transformar, de corrigir. Isso é uma libertação para a nossa vida, é uma libertação interior que é necessária para nós próprios. Porque o pior da nossa vida são as zonas cinzentas, é aquele claro-escuro, não é que seja mau mas também não é bom. E depois acabamos por viver numa lógica de compensações e não haver um tónus cristão, uma marca cristã, uma evidência cristã, um eu posso dizer que sou cristão. E andamos ali a marcar passo. O tempo da quaresma é um tempo para sacudir, para dizer: não, vou fazer alguma coisa.
É muito bom que façamos juntos, é muito bom que estejamos todos a ouvir esta Palavra, sentindo que a Igreja nos convoca a todos: não é uma coisa de mim, não é uma coisa de ti. E, se calhar, sozinho eu não consigo, mas se eu tiver a força da comunidade eu se calhar consigo.

Agora alguns conselhos práticos. Quando iniciamos um caminho de transformação ascética é preciso uma certa objetividade, no sentido de dizer: eu não me vou conseguir mudar de um dia para o outro e se calhar isso não é bom, se calhar não é isso que Deus quer. Porque eu serei sempre eu, e isso também é bom. Amar-se a sim mesmo, abraçar-se a si mesmo, sentir o amor de Deus na sua vida, isso é a coisa espantosa. Não vou mudar de um dia para o outro e tenho de ter uma objetividade. Tem de ser pequeno, pessoal e possível.

Tem de ser uma pequena mudança, não pode ser uma grande mudança. Tem de ser pequena, tenho de ter a humildade de identificar uma coisa pequena. E é uma coisa pessoal, não posso estar a contar que seja o outro a mudar. “Agora na minha família vamos mudar!” – isso não é propósito de Quaresma. O propósito de Quaresma não é a tua família, és tu, és tu! E que seja uma coisa possível, porque às vezes colocamos metas tão altas que é já o demónio a tentar-nos, porque nunca vamos conseguir, não estamos preparados para chegar lá. Um atleta não começa por saltar o seu record, ele chega ao record depois de muito trabalho, muita tentativa, muito esforço. Por isso, uma objetividade, olhar para a nossa vida, fazer o diagnóstico da nossa vida e selecionar uma ou duas coisas, não mais. Com objetividade, pequeno, pessoal e possível. E depois, rezar essa coisa, colocar essa coisa no centro da nossa oração. Porque, o importante na Quaresma não é uma coisa que eu vou fazendo sozinho, um exercício ascético em que eu me vou penitenciando e castigando e esforçando. Não é isso o sentido da Quaresma. O sentido da Quaresma é eu abrir-me na minha pobreza, na minha fragilidade, na minha humilhação diante de Deus. Contar com Deus, rezar esse meu problema, isso que eu quero transformar, que eu quero corrigir em mim, rezar isso, rezar…

O tempo da Quaresma é um tempo para aumentarmos o nosso tempo de oração, para rezarmos mais. Eu não digo rezar melhor porque nós não sabemos o que é rezar melhor. Rezem mais, se rezarmos mais vamos rezar melhor. Aqui é um daqueles casos em que a quantidade gera também a qualidade. Porque é quando nos expomos a Deus que alguma coisa acontece. Então, vamos rezar, vamos rezar essa questão.

Depois, vamos fazer o tal exercício ascético que nós chamamos de jejum. O jejum é físico, nós começamos a Quarta-feira de Cinzas e temos a Sexta-feira Santa como dias de jejum, mas o tempo da Quaresma é um tempo para praticar um jejum. Jejum de algumas coisas, de alguns confortos, de alguns gostos que nós temos e que muitas vezes deixamo-nos embalar por eles e a nossa vida é só um reforço de si, é só uma satisfação de apetites, de vontades, de paixões. Temos de desenvolver também o sentido crítico em relação a isso. Porque, no fundo, nós não somos livres. Nós somos livres face a todos menos a nós mesmos e nós soçobramos com a maior das facilidades. Por isso precisamos ganhar liberdade e o jejum é isso, é dizermos “Não” a nós mesmos, dizermos “Não” a nós mesmos. E é dizendo “Não” que podemos dizer “Sim”.

Então, vamos identificar essa coisa ou essas duas coisas e vamos trabalhá-las, vamos trabalhá-las dizendo “Não” e com a força da oração. E depois, esta transformação não é uma coisa apenas nossa, porque a Quaresma, estes exercícios ascéticos que fazemos durante 40 dias, não são apenas para nos tornarmos super-homens e supermulheres, muito virtuosos, espetaculares, mas é para sermos mediadores da Graça, mediadores da alegria na vida uns dos outros, para darmos esmola, para socorrermos, para irmos ao encontro da vulnerabilidade dos nossos irmãos. E esse é o terceiro eixo muito concreto que nós temos de adotar.

Queridos irmãs e irmãos, coloquemo-nos a caminho. Que cada um de nós este primeiro domingo faça de facto o seu propósito. No diagnóstico da nossa vida identifiquemos aquilo que somos chamados a mudar, aquilo que é possível mudar, aquilo que eu posso mudar. E coloquemo-nos a caminho, rezando, procurando ajuda. Se calhar este é o tempo em que poderíamos ir por semana uma vez à missa, cada um sozinho, num horário que desse jeito, rezando, expondo, ouvindo a Palavra de Deus. E ser um tempo em que eu também combato as minhas facilidades. Gosto muito de chocolates ou gosto muito de uma cerveja ou gosto muito não sei de quê, é bom privar-se, é bom privar-se. Até para sentir o gosto das coisas, para não se tornar tudo mecânico, é bom privar-se. Que este seja, com realismo, também um tempo de privação, também um tempo de frugalidade porque a Quaresma é um tempo de frugalidade. E depois, seja também um tempo de caridade. Tornemos este tempo rico por exercícios de caridade, de encontro, de serviço aos nossos irmãos.

Nós empobrecemos tudo, não temos flores, o padre veste-se de roxo, não cantamos o “Aleluia”, não cantamos o “Glória”, quer dizer, adotamos um tom penitencial. Mas não pode ser só o rito, tem de ser dentro de nós que esse despojamento também aconteça. Porque, a liberdade pascal, o Aleluia pascal, a ressurreição pascal, nós só vamos viver se aceitarmos morrer um bocadinho para nós próprios.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo I da Quaresma

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2017/03/02 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/03/01 - Um tempo de Graça (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nós começamos este tempo da Quaresma. Quaresma quer dizer 40 dias e nós sabemos como o número 40 é um número simbólico, é um número forte. Foram 40 os anos de travessia do povo de Deus no deserto, anos de aprendizagem, de escuta, de tentação mas também de caminho ao encontro da grande Aliança com Deus e da entrada na Terra Prometida. Formam também 40 dias os que Jesus passou no deserto, na memória desses antigos 40 anos mas também na preparação da Sua vida pública.

Nós, em cada ano, temos estes 40 dias que são um tempo de graça, um tempo oportuno. Este é um tempo de retiro coletivo que como católicos nós fazemos. É um tempo propício, um tempo de manobras espirituais, um tempo de revitalização interior, um tempo para quebrar aquela rotina, ou para romper com uma religião que é apenas para ser visto, para os outros dizerem: “Olha que bem, esta pessoa até faz isto e até aquilo.” Para romper, no fundo, com um mundo de aparências em que tantas vezes a nossa vida se resume. E para fazermos a experiência de uma vida autêntica, aquela experiência que passa por entrarmos em nós, no nosso quarto, trancarmos a porta. Isto é, não falsearmos o encontro, mas nos expormos com a nossa nudez, até com a nossa miséria, com a nossa dificuldade, com a nossa imperfeição, mas nos expormos com confiança ao olhar misericordioso de Deus.

Em todo o Evangelho que nós proclamamos Jesus repete a palavra “Pai”. Estamos diante do Pai. Cada um de nós está diante de um Pai que o ama. O que nós vamos fazer juntos estes 40 dias e individualmente não é um castigo porque nós não nos temos portado bem. Pelo contrário, é um estímulo de crescimento, é uma resposta amorosa, é uma resposta de autenticidade que nós damos, queremos dar, em diálogo com este Pai. Sentindo que temos de vencer a orfandade que às vezes nos caracteriza e olharmos para Deus como Pai, sentindo Nele que temos um Pai que nos ama e que nos oferece de uma forma incondicional.
Mas nós não podemos receber esse Amor em vão, foi isso que também ouvimos na leitura da Carta de Paulo que hoje nós lemos: “Não recebeis a graça de Deus em vão.” Nós sabemos que muitas vezes a recebemos em vão, muitas vezes vivemos a verdade como se ela não fosse verdade, muitas vezes ouvimos esta Palavra como se esta Palavra não determinasse nada de novo, não inspirasse, não suscitasse caminhos novos. Muitas vezes, comemos o pão, bebemos o vinho, e não é uma vida nova que entra dentro de nós a contaminar tudo à nossa volta, mas é apenas o rame-rame, é apenas o morno, é apenas o que não é frio nem é quente, é apenas a parte ritual, é apenas no fundo religião, religião, religião e não é vida transformada, não é este sobressalto de vida, não é uma primavera que acontece dentro de nós.

Por isso, o tempo da Quaresma, para nós, é um tempo de primavera, é um sopro de primavera que tem de entrar pelas nossas vidas. Porque a primavera não é apenas fora de nós que acontece: nós somos chamados a romper com o inverno gelado do nosso coração e a sentir que há um degelo. Alguma coisa é possível fazer. Porque o Cristianismo, sendo uma religião de paz, ele também é agónico no sentido que dá luta, Deus dá luta, esta Palavra dá luta, nós entramos também num combate espiritual. É uma expressão que a tradição cristã amou muito, o combate espiritual, e que hoje nós refletimos muito pouco sobre isso porque somos um bocadinho contaminados por esta sociedade instantânea. Parece que se carrega no botão e está tudo feito, e na vida de uma mulher e de um homem não é assim, não há botões para carregar, há caminhos, há sementes, há esforço, há morrer e nascer, há cair e levantar-se, há tomar consciência. Há um itinerário de maturação espiritual que nós precisamos praticar e esse itinerário chama-se combate espiritual. Porque não é apenas na linearidade que nós caminhamos, não, é com altos e baixos. Muitas vezes nós temos de perceber que se não lutarmos nada acontece na nossa vida, deixamo-nos ir, deixamo-nos levar e precisamos de facto de dizer não, não, não. Que o nosso “sim” seja um sim e que o nosso “não” seja um não. Não vivamos como troca-tintas interiores: o “não” até pode ser um “sim” e o “sim” pode até ser um “não”, e tudo vale a mesma coisa. Não, não é assim, tem de haver uma clareza dentro de nós, uma verdade dentro de nós.

A Igreja apresenta-nos três instrumentos de construção, de revitalização da nossa vida e que são propostas para este tempo da Quaresma, que em todo o mundo os cristãos vão pegar nelas e transformar as suas vidas.

A primeira é a oração, porque não há conversão sem oração. A conversão não é: eu caio em mim e com grande esforço meu transformo-me. Isso não é a conversão cristã. A conversão é eu escutar a Palavra de Deus, eu deixar-me curar por Ele, como Jesus curou o cego de Jericó e lhe deu uma nova visão da realidade, permitiu-lhe ver o que ele ainda não tinha visto. Também é na oração que nós subimos àquela temperatura que nos torna maleáveis. Porque nós somos intransigentes, duros e para tornarmo-nos tenros e para se poder fazer alguma coisa connosco tem de ser à força da oração. Precisamos regar o nosso coração com a oração, transformar o nosso coração com a oração. Precisamos todos de rezar mais. A oração é talvez a coisa mais importante para fazer na Quaresma. Que cada um possa, no seu programa quaresmal, colocar a oração em primeiro lugar, descobrir Deus, descobrir isto de estar em silêncio diante Dele. Ler um livro bíblico, imaginem: agora vamos ler o Evangelho de S. Mateus nesta Quaresma e meditar nele. Se calhar vamos a uma missa durante a semana, não só à missa de domingo. Se calhar vamos rezar uma dezena ou um terço em cada dia. Se calhar vamos rezar um salmo, vamos rezar lendo um autor místico, um autor espiritual. Mas o importante é que rezemos, é que rezemos porque aquilo que nos transforma – é o poder da oração, o poder da oração. E a oração parece que é uma coisa inútil, parece que não serve para nada.

Porque é que não rezamos mais? Porque andamos de um lado para o outro? Nós que somos pessoas úteis e só fazemos coisas úteis, achamos que a oração é uma perda de tempo, porque há isto para fazer e há aquilo. O nosso coração dispersa-se e não percebe a força do inútil. Entre a ação e a contemplação nós achamos que devemos privilegiar a ação. E a contemplação? A contemplação dá-nos uma outra capacidade de agir, dá outra densidade à nossa ação, dá outra intensidade, não somos só nós, não somos só nós. Por isso, fortaleçamos a nossa oração nestes 40 dias, procuremos rezar mais em cada dia, procuremos rezar com mais intensidade, procuremos estar diante de Deus, escutá-Lo, ouvi-Lo, rememorar a nossa vida diante Dele, falar das nossas coisas, ouvir a Sua Palavra, ouvir o Seu silêncio, isso é sem dúvida o ponto de apoio, de transformação das nossas vidas. O que transforma as nossas vidas é a oração, o nosso segredo é a oração, é a oração. E assim, esta vida aquecida pela oração, este ferro forjado nas labaredas de uma oração simples, mas sincera, mas buscada, mesmo quando nos custa estar ali, como a lâmpada que permanece acesa junto do tabernáculo, é isso que nos vai ajudar a usar os outros dois instrumentos.

O outro instrumento é o jejum, o santo jejum. É um instrumento que não é tipicamente cristão porque outras tradições espirituais usam o jejum e às vezes pessoas que não têm nada a ver com religião usam o jejum, porque o jejum purifica, é purificador. Purificador porquê? Porque nós vivemos viciados, nós vivemos com demasiadas coisas, para nós o necessário é uma casa cheia de coisas e de razões, quando eramos capazes de viver com muito menos. E o jejum é uma forma de privação, começa por ser isso. Nós praticamos jejum em dois dias: hoje, esta Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. São dias em que nos privamos do alimento para lembrar ao nosso corpo, para espiritualizar a nossa própria carne. E também, criando um vazio no estômago, cria também uma disponibilidade para Deus e ela percebe que é chamada também a outras coisas, que não vivemos só de pão, embora o pão nos seja tão necessário. Mas o jejum é essa privação voluntária, essa privação voluntária em nome de um valor espiritual, isso é o jejum.

Mas o jejum também é um símbolo, porque nós precisamos de fazer jejum de tantas coisas. Não é só dos alimentos, não é só das gulodices, não é só das bebidas, não é só no fundo de uma vida em que muitas vezes nós não temos de pensar naquilo que ingerimos, naquilo que são os hábitos da nossa existência. Temos de olhar de forma mais crítica, mais autocritica para os nossos hábitos, as nossas rotinas, aquilo que a gente gasta, aquilo que nos dá prazer. O jejum ajuda a olhar criticamente para isso de uma forma saudável. Porque o jejum não é para nos acabrunhar, um jejum até aumenta o nosso sentido de humor, aumenta a relativização de uma vida que nós percebemos que afinal não depende tanto daquilo que nós achamos de que depende a nossa alegria. Afinal a nossa alegria depende também de coisas espirituais, não apenas de coisas materiais.

Mas o jejum é esta privação do alimento e daquilo que nos alimenta. Por exemplo, nós vivemos numa sociedade da comunicação, vivemos dependentes do telemóvel, não sabemos já viver sem o telemóvel, sem o whats app, sem o facebook, sem essas coisas todas. E se nós olharmos criticamente para isso, de uma forma saudável, qual é a palavra que aparece? A palavra que aparece é dependência, estamos dependentes, viciados verdadeiramente. E aquilo que comunicamos já não é uma coisa de qualidade, não tem uma qualidade. É quase uma reação, é quase um estímulo que recebemos e uma resposta que damos, imediata, e perdemos um tempo, perdemos uma vida com coisas inúteis, a mandar mensagens que não são mensagem nenhuma, a usar palavras de que nos envergonhamos, que não é nada. Melhorar a nossa comunicação que fazemos com os outros, isso também é fazer jejum. Nós vivemos num mundo carregado de imagens e grande parte delas são pura poluição que entra dentro de nós, também precisamos fazer jejum dessas imagens, fazer silêncio.

Então, de facto, o jejum o que é? O jejum é esta liberdade de dizer “não”, é esta privação voluntária. E nós não tenhamos dúvidas, se nós não dissermos “não” nunca conseguiremos dizer “sim”. Por trás de cada “sim” há um “não”. Nós facilmente nos tornamos dependentes, viciados, sequestrados, reféns. Nós facilmente perdemos a nossa liberdade, e o jejum é um instrumento de liberdade. Sermos livres, e muitas vezes sermos livres em relação a nós próprios, porque somos uns tiranozinhos, à nossa escala, à nossa medida, só fazemos os nossos apetites, a nossa vontade, só seguimos as nossas paixões, o nosso eu, eu, eu, eu, eu, eu. E há que batalhar, há que dizer: alto lá menino, alto lá menina, põe-te lá no teu lugar, reduz-te a tua insignificância, calma, não tens de ter o primeiro lugar, não tens de ter a última palavra. E isto é muito saudável, e não é outro que nos diz, somos nós que dizemos a nós mesmos, vigilantes em relação a estes excessos que nos caracterizam.

Por isso, a Quaresma é um tempo para fazer caminho e caminho muito concreto em relação à requalificação da nossa vida interior que está intoxicada, intoxicada. É tempo para olharmos com realismo o que é que é tóxico? De que é que eu me vou libertar? E pedir a Deus a força para fazer isso durante estes 40 dias, que é um tempo para chegar mais leve de muita coisa. Porque só assim é que a Páscoa do Senhor vai ser morte e ressurreição dentro de nós.

Mas não é apenas um exercício interior a Quaresma. É um grande momento de retiro interior, é um grande momento para sacudir coisas dentro de nós, é um grande momento para reconquistar mordendo os dentes a nossa liberdade, é um grande momento para dizer “não”, é um grande momento e privação, de jejum.

E ainda um aspeto importante que não queria esquecer: nós fazemos o jejum na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa, mas todas as sextas-feiras é um dia de combate espiritual forte e em que há a tradição da abstinência. A abstinência é não comermos carne, e o que é não comer carne? Não comer carne é não derramar o sangue, não cortar outra vida para nós termos vida. Há quem diga: não é nada importante isso de ser carne ou de ser peixe, hoje em dia o peixe é mais caro que a carne. Eu acho que estas coisas têm um grande sentido. Na sexta-feira da quaresma, a abstinência tem esse sentido literal de não comermos carne e comermos outro tipo de alimentos que não impliquem o derramamento de sangue. Mas, claro, esses alimentos têm de ser marcados também por uma frugalidade, porque este tempo é um tempo frugal. Isso compreende-se muito bem: se é um tempo em que nós estamos a caminhar, quem caminha não anda em banquetes, quem caminha leva uma sandes no saco e toca a andar porque o que importa é a viagem. Então, estes 40 dias são dias de viagem, não são dias para estarmos parados com grandes festejos porque isso só impede e distrai do caminho que temos de fazer. Por isso, tem de predominar neste tempo um sentido de frugalidade.

E depois, claro, tudo isto é para ampliar a nossa capacidade de amar, de servir e de cuidar. Por isso, neste tempo, a dimensão da esmola é uma dimensão fundamental. Não é apenas eu, com Deus, aqui a minha luta, o meu combate interno, não, é na expressão da minha relação com os irmãos – ela tem de ser requalificada, tem de ser transformada em gestos de amor, de cuidado, de atenção, de caridade, em multiplicar os atos de caridade. E renunciar até – e a Igreja diocesana pede que façamos isso – por exemplo, se eu bebo três cafés há um que eu renuncio e aquele dinheiro, no fim da Quaresma, é entregue como renúncia quaresmal para uma instituição ou para uma causa que o nosso Patriarca indica. É o nosso contributo, é o meu estilo de vida mas desse estilo de vida eu retiro qualquer coisa para pensar nos irmãos. É só um exemplo daquilo que deve ser uma atenção e uma atitude que nos ajuda a viver este tempo.

Queridos irmãs e irmãos, vamos continuar a nossa celebração, vamos agora abençoar estas cinzas e recebê-las na nossa cabeça. Que estes 40 dias sejam dias bem vividos por cada um de nós, porque é uma oportunidade para a nossa vida. Sintamos como uma necessidade, nós necessitamos deste tempo, nós precisamos renascer. Precisamos mesmo, cada um de nós precisa mesmo. E por isso, recebamos esta cinza como um desafio a uma transformação, a uma aceitação de que somos pecadores e precisamos fazer um caminho. Mas, ao mesmo tempo, com a responsabilidade das cinzas que parecem apagadas, eu tenho de fazer surgir o fogo novo da ressurreição, tenho de reacender esta vida com a graça de Deus em mim.

Pe. José Tolentino Mendonça, Quarta-feira de Cinzas

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Fevereiro

2017/02/27 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética Animal - Manuel João Pires

Está disponível para ouvir a sessão de Manuel João Pires sobre Ética Animal, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/02/23 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2017/02/20 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Éticas da Cidadania - Mendo de Castro Henriques

Está disponível para ouvir a sessão de Mendo de Castro Henriques sobre Éticas da Cidadania, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui ao texto da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/02/19 - A gramática da compaixão (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Neste domingo temos uma palavra que nos é oferecida com uma forte dimensão ética. No fundo, esta palavra faz-nos refletir sobre o fulcro do nosso estar, do nosso ser, da relação que temos com os outros, e enche o nosso coração de perguntas. A primeira é sobre a qualidade da relação, da expressão de nós mesmos. Que qualidade, que cor tem aquilo que somos em ato, em acontecimento, em situação, em contexto? Será que nós somos verdadeiramente cristãos?

Para a Palavra de Deus que hoje escutamos é muito claro que nós só podemos dizer que acreditamos em Deus se nos tornamos de alguma maneira naquilo que Deus é. Se aquilo que Deus é – e nós sabemos que Deus é amor, porque é essa a revelação – se essa verdade fundamental for expressa naquilo que somos e nós formos uma coisa só com Deus. Não é acreditar que Deus é bom, se eu não sou bom não acredito que Deus é bom, não sei o que é Deus ser bom. Não é acreditar que Deus é amor, porque se eu não amo, se eu não vivo na tensão do amor, eu verdadeiramente não sei aquilo que Deus é.

Então, a vida concreta nas suas relações, o ethos, a expressão prática daquilo em que nós acreditamos é de facto fundamental, é a forma de conhecimento, é a ciência fundamental para sabermos quem é Deus. Se não, nós até podemos dizer um catecismo inteiro de verdades acerca de Deus, mas não sabemos quem é Deus. Porque, o saber de Deus é o sabor de Deus. A nossa vida tem de estar contaminada de Deus, tem de estar banhada, ensopada da arte de Deus, do estilo de Deus, do reflexo de Deus, da luz de Deus para sabermos o que Deus é. Se não o nosso saber é um saber abstrato, é um saber com uma distância enorme e não é aquele saber espiritual, aquele saber íntimo que nasce da convivência que nasce da relação, que nasce de uma mimésis, de uma imitação do próprio Deus. E o saber da fé, o acreditar da fé não é o acreditar simplesmente racional, passa pela nossa cabeça mas tem de passar pelo nosso coração. Tem de passar pelos nossos gestos, tem de passar por aquilo que somos. E este para nós é o grande desafio.

Jesus não tem dúvidas, nós temos de viver numa tensão, numa tensão. Nós ouvimos tantas coisas sobre o modo de viver e como organizar a nossa vida. Jesus diz isso: “Ouvistes que foi dito: «olho por olho, dente por dente».” E esta que é uma das antigas Leis, e teve até o seu papel porque, “olho por olho” não é um olho e eu tiro-te dois olhos. Nesta Lei antiga há uma certa razoabilidade, é um primeiro passo de civilização. Se eu sou prejudicado em 50 é em 50 que eu vou requerer, se é um dente é outro dente, não são os dentes todos. Já aí há um avanço. Mas Jesus não se fica por aí, não se fica por essa espécie de moral negociada, Jesus fala de uma ética que supera. É preciso superar, nós vivemos mergulhados também numa determinada visão ética do mundo que, mesmo de uma forma inconsciente, acaba por regular a nossa vida. Nós reagimos de uma determinada maneira aos acontecimentos, ao que nos fazem, ao que nos dizem, partilhamos uns com os outros “já viste isto e já viste aquilo, vou fazer desta maneira, vou fazer daquela.” E, de repente, há uma praxis ética que vai regendo a nossa vida. A grande questão é saber se ela é uma praxis cristã. Se nós somos cristãos até à medula e se depois isso se exprime no bom e no mau, no certo e no errado, no fácil e no difícil, no feliz e no dilemático da nossa vida, se aí nós somos verdadeiramente.

Jesus é muito claro: nós só somos se superarmos este estádio ético que é até de uma certa razoabilidade, que é de fazer aos outros o que eles nos fazem, que é de criar distanciamento, que é de pagar na mesma ordem de coisas, de sentimentos. Jesus diz: “Não, é preciso romper com isso.” A Palavra de Jesus nós podemos reinterpretá-la, podemos explicá-la, podemos comentá-la, podemos tentar atenuar e domesticar a força desta Palavra, mas a verdade é que Jesus disse isto: “Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita oferece-lhe também a esquerda, se alguém quiser ficar com a tua túnica deixa-lhe também o manto, se alguém te obriga a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ama os teus inimigos e ora por aqueles que te perseguem.” Este é um código, é um código ético. E é um código ético que nós não podemos dizer: “Não é para nós. Não é para mim, não sou capaz, não consigo.” Não consegues hoje, não consegues agora, mas faz desta Palavra o mapa da tua vida. Faz desta Palavra o teu projeto da casa, da vida, da existência que estás a construir. Habita a tensão, a provocação que esta Palavra te deixa. Porque só isso é que nos coloca dentro de Deus.

Nós podemos dizer: “Se eu viver desta maneira, eu vou ser engolido por todos, eu vou ser espezinhado, eu vou ser esmagado, vão-me tratar como um louco.” Pois é precisamente isso que S. Paulo nos diz na Carta aos Coríntios. Há uma sabedoria de Deus e essa sabedoria de Deus faz-nos aparecer como loucos aos olhos do mundo. O que é viver como loucos? É vivendo numa sabedoria alternativa, vivendo de um modo diferente, de um modo consistente, sentindo que de facto nós somos lugares sagrados. Nós somos expressões de Deus, nós somos fragmentos de Deus, nós somos templos no meio do mundo. Nós não temos a Capela de Nossa Senhora da Bonança, nós somos capelas. Nós estamos aqui uma rede de capelas, uma rede, uma rede de capelas que se junta, nós somos uma confederação, é isso que nós somos. A vida de cada um de nós é um lugar sagrado cheio de encontros, cheio de vida, ou de silêncio, ou de esquecimento, ou de ocultação, mas é isso que nós somos. Estamos aqui, juntos, confederados para tornar santo aquilo que em nós já é santo, já é santo.

Eu esta semana ouvi falar de um projeto que me deixou muito interessado e a pensar o resto dos dias. É uma rede que está a surgir que é a rede das cidades compassivas. No fundo, é a ideia de que as próprias cidades têm de se organizar e as comunidades têm de estar mobilizadas para a compaixão, para ir visitar os doentes, para cuidar daqueles que necessitam, para estar atento às situações de exclusão, para escutar a dor uns dos outros, o sofrimento uns dos outros, para perdermos a atitude agressiva ou de indiferença em relação aos nossos irmãos e fazermos da compaixão o nosso caminho, a nossa forma de estar. Para já, a rede das cidades compassivas está apenas em algumas cidades da América Latina onde está a começar; em Portugal querem fazer, penso que de Castelo Branco, a primeira da rede de cidade compassiva. Mas eu pensei: será que são só as cidades? Porque não também uma rede de famílias compassivas? Porque não uma rede de casas compassivas ou de referentes de compaixão? E como a rede eclesial que nós somos, esta confederação de lugares sagrados que estamos aqui, todos juntos, porque é que não assumimos a compaixão como cultura, como modo de ser, como prioridade?

Hoje no Salmo nós rezávamos isso: “Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.” Nós precisamos voltar a esta gramática, a gramática da compaixão, a gramática da clemência, a gramática da bondade. É verdade que nós podemos dizer: “Eu não quero passar por parvo, eu não quero ser enganado.” Mas será que queres ser o juiz do teu irmão? Será que é isso que Deus espera de ti? É que pessoas que nos julguem nós todos temos muitas. Eu acho que temos de mais. Pessoas que olham para nós e nos julgam ou veem de fora, ou não nos conhecem verdadeiramente, ou não pararam um minuto para nos escutar eu acho que todos nós temos de sobra. Mas agora pessoas que nos amaram, pessoas que de uma forma gratuita, de uma forma generosa, desinteressada se colocaram a caminhar a nosso lado, pessoas que nos ouviram sem sobreporem um juízo, um julgamento àquilo que nós dizemos, isso é tão raro, isso é tão raro! E, de facto, aquilo que nos transforma é a experiência de amor, não tenhamos dúvidas. Aquilo que nos transforma é a experiência de amor!

Eu não faço isso, mas lembro-me de uma senhora que eu conheci há muitos anos, uma alemã, que dava esmola a todas as pessoas que lhe pediam. Eu lembro-me muitas vezes dela. Ela sabia que muitas vezes era enganada ou não era necessário, mas se lhe pediam ela dava e aquele gesto que parece um gesto louco, insensato ou radical é um gesto que salva o mundo, é um gesto que salva o mundo. Digamos, a insensatez dela enche o mundo de maior sabor, de maior luz, de maior amor do que a minha sabedoria de só dar a quem eu acho que merece. E é isto: se nós só damos, só amamos aqueles que achamos que merecem o mundo não fica contaminado por Deus, o mundo não fica contaminado por Deus.

Porque, como diz Jesus nesta belíssima imagem: “Deus faz nascer o sol sobre bons e maus.” E é esta que tem de ser a nossa atitude. Porque muitas vezes nós não sabemos o que vai no coração dos outros, e temos uma responsabilidade muito grande, que nós esquecemos, que é: nós não podemos fazer com que o outro perca a esperança. Às vezes a esperança do outro é conseguir vender uma revista. A esperança do outro é uma coisa irrisória aos nossos olhos mas nós somos pastores daquela esperança, somos responsáveis pela pequenina chama naquela torcida, por aquele brilho de luz que está no meio daquelas cinzas. Somos responsáveis por isso, e como tal, a nossa atitude se calhar tem de ser mais complexa do que é, se calhar tem de estar mais próxima de Jesus. Porque nós lemos tantos livros e ouvimos tantas coisas mas depois temos de voltar a estas palavras, estas palavras que Jesus diz, deixar que elas façam eco no nosso coração e deixarmos que elas nos moldem.

O místico Angelus Silesius dizia isso: “Nós não sabemos o que Deus é, só acreditamos Nele tornando-nos em Deus.” Este tornar-se naquilo que Deus é penso que representa o grande desafio para as nossas vidas.

Nesta Eucaristia com alguns irmãos nossos, algumas famílias nós estamos a lembrar também alguns parentes que partiram: mãe, avó, avô. Pessoas que deixaram uma marca indelével de quê? Que marca é que essas pessoas deixaram que 20 anos, meses, anos depois da sua partida nós continuamos a sentir que eles são uma fonte de vida? Que marca é essa? Eu diria, é a marca de amor. E não há amor se não houver excesso de amor. Porque o amor é sempre uma coisa em excesso. O amor não é uma coisa muito equilibrada, muito regrada, muito calculada. O amor é ariscar, o amor é dar o nosso amor ao outro sem controlar aquilo que o outro pode fazer com o nosso amor. O amor é isso, e é quando nós somos tocados por essas experiências de amor que nunca mais nos esquecemos e sentimos que essas pessoas fazem eternamente parte de nós.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo VII do Tempo Comum

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2017/02/13 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Bioética – Marta Mendonça

Está disponível para ouvir a sessão de Marta Mendonça sobre Bioética, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui ao texto da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/02/12 - Lei, liberdade e sabedoria (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nas três leituras que hoje proclamamos há uma palavra que emerge e que, de certa forma, estrutura a organização interna de cada um dos três discursos que nós escutámos.

Sem dúvida que no Evangelho de S. Mateus, nesta extraordinária passagem em que Jesus aparece revestido de uma força ética extraordinária, como o novo Moisés a falar, a refletir sobre a Lei, trazendo para a vivência da fé uma espessura moral, uma espessura ética, não basta acreditar, é preciso praticar, é preciso concretizar. Neste discurso de Jesus, sem dúvida a palavra é a Lei. E o confronto com a Lei é um confronto importante para compreendermos Jesus e para nos compreendermos a nós próprios. Porque a Lei tem uma função. A Lei organiza, a Lei baliza, a Lei protege, a Lei esclarece as situações, a Lei oferece-nos as linhas com que cosemos de uma forma equilibrada a vida, aquilo que é o equilíbrio entre os nossos direitos e os nossos deveres. De maneira que a Lei tem a sua importância. Mas a Lei pode ser uma máscara, a Lei pode ser uma cápsula, a Lei pode ser uma desculpa. Porque nós dizemos: “Eu cumpro a Lei.” E cumprimos a aparência da Lei, o formalismo da Lei. Nós sabemos como todas as leis – e esse é o seu grande pecado – assentam num formalismo muito grande de procedimentos, que muitas vezes funcionam como se tivessem vida própria e como se tudo se esgotasse ali. Como se a justiça fosse unicamente os procedimentos ligados à justiça mas não a justiça verdadeira, não a justiça em si.

A grande crítica que Jesus vem fazer ao espírito legalista da religião do seu tempo é que usavam a Lei para desobrigar-se do amor. Eu cumpro a Lei, como cumpro a Lei já não tenho de fazer mais nada. E muitas vezes fico a cumprir a Lei para que os outros vejam que eu cumpro a Lei, mas no meu coração não fui transformado por uma ideia de justiça, por uma ideia de misericórdia, por uma ideia de amor. Por isso, os legalismos são de sua natureza muito hipócritas, muito dúplices, porque ao mesmo tempo estão protegidos naquela cápsula de aparente legalidade e que ata as mãos e cria uma espécie de desmobilização moral, desmobilização ética na própria vida.

Isso é um discurso e uma crítica que Jesus faz que é também muito importante para a nossa maneira de viver a religião. Porque muitas vezes é uma aparência de religião, é uma aparência de justiça, é alguma coisa que em vez de nos mobilizar, de nos comprometer, de nos radicalizar no amor e na misericórdia pelo contrário tornamo-nos fregueses. Estamos à vontade no Templo, estamos à vontade com as coisas da religião, mas não mergulhamos no seu espírito como pergunta, como caminho, como uma exigência de amor que nunca está completamente saciada, nunca está completamente satisfeita e por isso me obriga a viver numa tensão. Aquilo que Jesus diz é: “Eu não vim eliminar a Lei, eu não vim ab-rogá-la. Eu vim exigir que ela fosse plenamente cumprida.” E ela só é cumprida quando tocar, não apenas a pele, mas quando tocar o espírito, quando nos mover por dentro, quando não nos bastar cumprir apenas a forma mas sentirmos a necessidade de mergulhar no fundo.

Os exemplos que Jesus dá são exemplos tocantes, exemplos até incómodos para nós. Porque se a exigência da Lei começa, de facto, no nosso desejo, na nossa maneira de ver, na nossa maneira de olhar, na nossa maneira de nos relacionarmos com os outros, nesse lugar (que aparentemente ninguém vê, ninguém sabe) que é o nosso coração, se é aí que tudo começa, se é aí que se decide a justiça então, de facto, nós metemo-nos em trabalhos sem fim. Mas é isso que Jesus vem fazer, porque Jesus não vem apenas para satisfazer uma regra, a regra número um da expectativa messiânica. Jesus veio para salvar o Homem, para transformá-lo, para tocar o seu coração. É isso que nós temos de sentir, rompendo muitas vezes com o caminho mais cómodo da nossa vida que é o caminho da Lei, que nos deixa muitas vezes isentos e neutros em relação a deveres mais profundos, a atitudes mais radicais, a transformações porventura mais necessárias, mais comprometedoras, que no fundo são aquelas que Jesus diz que fazem acontecer o Reino na nossa vida. Porque nós podemos cumprir todas as regras, todos os mandamentos e depois no fim Jesus dizer: “Não te conheço, não te conheço.”

O que é que nos torna conhecidos por Jesus? É essa verdade de fundo, é essa radicalidade, é o contrário de um certo descomprometimento, de um certo alívio que o cumprimento de uma regra nos dá e depois nos demite da coisa fundamental. Da coisa fundamental que é o encontro, da coisa fundamental que é a construção de uma relação verdadeira, da coisa fundamental que é ir até ao fim, cumprir até ao fim este chamamento ao amor e ao dom que Jesus faz a cada um de nós.

Na leitura de Ben Sira a palavra que emerge é a palavra liberdade. O autor de Ben Sira é muito claro: “Depende de ti, depende da tua vontade, depende da tua liberdade o seguimento que fazes de Deus. Deus coloca diante de ti o fogo e a água: a escolha é tua.” Nós temos de sentir isto: que a escolha é nossa. Por isso, o nosso viver tem de ser um viver desperto, e temos de sentir que estamos a escolher dia a dia, na forma como vivemos nós estamos a escolher. Parece que só estamos a ir ali ou a cumprir aquilo, parece que é apenas a máquina da vida a funcionar mas não é. Por trás dela estão as nossas escolhas, está a nossa liberdade. E a experiência da fé é também uma experiência de liberdade.

Os grandes crentes, as grandes mulheres, os grandes homens crentes são exploradores da liberdade. Muitas vezes até são libertinos do espírito, completamente libertários, são pessoas fora da caixa, fora do sistema, mais apaixonados por uma trajetória de liberdade e uma liberdade singular que os faz ser a cada momento. Nós caminhamos arrumadinhos no rebanho e muitas vezes esquecemos que a fé é, de facto, uma aventura de liberdade em que nós temos de dizer: ”Eu quero, eu estou aí, eu vou, eu sigo.“ Não é apenas o caminhar sonolento do ir por ir. Não, é uma decisão que me compromete, é uma decisão que eu repito a cada momento, é um “sim” que é um “sim” e é um “não” que é um “não”. E esta clareza, esta limpidez que a liberdade nos dá é fundamental para construirmos também um itinerário de fé.

Na Carta de S. Paulo aos Coríntios neste trecho a palavra que emerge é a palavra sabedoria. Podem imaginar que Paulo está a dizer isto em Corinto que era a segunda cidade grega. Era uma cidade que rivalizava com Atenas, fica a cento e poucos quilómetros de Atenas, para sul. É claro, não tem a grande escola de Platão, de Aristóteles, mas tinha também ali outros filósofos, os cínicos por exemplo partiam muito de Corinto, e havia ali também uma sabedoria, uma quantidade de templos. De maneira que a palavra mágica no mundo grego é a palavra “sophia”, a palavra sabedoria. Todos andavam à procura de uma sabedoria, todos pregavam uma sabedoria, todos viviam galvanizados por uma sabedoria. E Paulo também fala de uma sabedoria, mas fala de uma sabedoria diferente, fala da sabedoria de Deus. Aquela sabedoria que habita o interior de Deus. Paulo poderia ter perdido a cabeça por causa desta frase que ele diz: “Esta sabedoria nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu.” Por esta frase Paulo podia ser morto logo ali. Porque dizer isto é dizer, por exemplo, que o imperador de Roma não conheceu a sabedoria. Como é que é possível? O imperador? Acreditava-se que ele era o filho de deus, que ele era o homem mais sábio, que ele detinha tudo e Paulo diz: “Não, os príncipes deste mundo não conheceram a sabedoria. Porque se tivessem conhecido a sabedoria não teriam crucificado o Senhor da sabedoria, o Senhor da glória.”

Então, esta sabedoria de Deus, esta sabedoria da profundidade de Deus é uma sabedoria que nos é revelada e traduzida por Jesus Cristo no seu mistério pascal, na sua morte, na sua ressurreição. Há uma sabedoria, há um conhecimento, há uma ciência na cruz, no mistério da cruz.

É essa ciência, essa arte, essa nova forma de entendimento da realidade, essa chave de compreensão do mundo a que nos temos de agarrar, temos de pedir a Deus que nos dê essa sabedoria. Que não é apenas aquela sabedoria que encontramos nos nossos membros, na nossa carne, no nosso corpo, na nossa inteligência. Desde o braço que sabe fazer isto à inteligência que tem as ideias, ao corpo que parece que anda por si. Há uma sabedoria que nós já encontramos instalada nos nossos membros mas é outra sabedoria. Nós temos de pedir esta que não temos, esta que vem de Deus, esta que o Espírito instala em nós, esta que tem no mistério pascal de Cristo o seu núcleo fundamental, o seu núcleo mais ardente.

Por isso, Paulo está a pregar numa terra de filósofos, domingo passado ele dizia: “Eu estou aqui, no meio de vós com temor e tremor.” Mas há uma só coisa que Paulo vai pregar: a Cruz de Cristo como mistério de sabedoria de Deus. Isto é uma transformação, é uma reviravolta da história, é uma maneira completamente nova, é uma rutura de pensamento, mas é isso que nós precisamos – essa transformação, essa rutura que o Espírito nos permite revelando-nos a ciência da Cruz, a sabedoria da Cruz.

Vamos pedir ao Senhor que estas três palavras: a palavra “Lei”, a palavra “Liberdade”, a palavra “Sabedoria” nos acompanhem. E que o Senhor nos ajude a vivê-las, nos ajude no processo de conversão, nos ajude num caminho autenticamente cristão.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo VI do Tempo Comum

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2017/02/09 - Percurso de Preparação para o Crisma

Mais informações aqui.

2017/02/06 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética das Virtudes e Ambiente – Sofia Vaz

Está disponível para ouvir a sessão de Sofia Vaz sobre Ética das Virtudes e Ambiente, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui ao texto da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/02/05 - Um poder transformador (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

É interessante notarmos na força plástica das imagens que Jesus hoje utiliza: Ele recorre à imagem do sal e à imagem da luz. São imagens muito curiosas porque, tanto o sal como a luz, atuam numa espécie de fusão com a realidade. O sal tem de desfazer-se, deixa de ser sal para tornar aquilo em que ele se desfaz salgado. A luz também é assim, nós não vemos exatamente o ponto da luz, mas vemos a iluminação que ela provoca.

Há assim nestas imagens uma espécie de desafio a nos aproximarmos da realidade, corpo a corpo, pele a pele de maneira que já não possamos olhar como se fosse uma realidade outra, como se fossemos espectadores. Mas estando dentro, sujando as mãos, sentindo que somos uma coisa só. Com o quê? Com o mundo, com a realidade, com a história.

A nossa fé não nos deixa como espectadores da vida, olhando para aquilo que acontece como se o mundo fosse uma realidade estranha à vivência da nossa fé e distante daquilo que Deus pede e espera de cada um de nós. Não, Deus desafia-nos a abraçar o mundo, a abraçar a vida, a abraçar as circunstâncias da história e a sentir que este lugar de contradição, este lugar de desafio, este lugar de luta é também o lugar onde o sal pode ser aquilo que é, pode salgar, e a luz pode ser aquilo que é, pode iluminar. Um cristão precisa de mundo, um cristão precisa de vida, uma fé precisa de concretude. A nossa fé não pode ficar uma realidade abstrata ou uma zona de conforto tão íntima, tão nossa, tão pessoal, tão privada que deixe de exercer um poder transformador.

A nossa fé é chamada a exercer um poder transformador: o poder do amor em relação à realidade. Não podemos ficar, como dizia o Péguy, como aquelas pessoas tão preocupadas por não sujar as mãos na realidade que acabam por ficar sem mãos, sem saber para que é que servem umas mãos. Eu não sei se como cristãos nós sabemos para que é que servem as nossas mãos, para que é que servem os nossos olhos, para que é que servem os nossos ouvidos, para que é que serve a nossa boca, para que é que serve o nosso coração. Para que é que esta máquina humana serve em termos evangélicos, em termos daquilo que o Senhor espera de nós?

Hoje o profeta Isaías e o Salmo 111 que nós proclamamos colocam-nos no centro da nossa atenção a figura do pobre. De facto, o Cristianismo tem desde sempre o desafio de ir ao encontro do pobre. O nosso Cristianismo fica incompleto se não tem uma dimensão social, se não emprestamos à nossa fé uma concretude, um desafio também que se realiza no encontro com os mais pobres, no encontro com o irmão que sofre, no encontro com o irmão que é carente, na pessoa do irmão que passa pelas dificuldades de uma vida.

Ainda estes dias estive fora na Colômbia, conheci lá um escritor, Andrés Felipe Solano, que escreveu um texto muito singular. Ele trabalhava numa revista, tipo Granta, e a revista fez-lhe uma proposta meio maluca que foi ele deixar seis meses a cidade onde vivia e a vida que levava, ir para outra cidade da Colômbia, Medellín, e aí, trabalhar numa fábrica têxtil e viver unicamente com o salário mínimo. Não é que antes ele levasse uma vida rica, os jovens aos 30 anos que escrevem aqui e ali também contam os tostões. Mas se ele tivesse de entrar num táxi não tinha de pensar duas vezes, ou se tivesse de ir comer fora não era um problema, ou se lhe apetecesse comprar um livro ou um disco fazia-o tranquilamente. Mas quando ele se muda para Medellín e passa a viver com o salário mínimo percebe que isso é completamente impossível. E muitas vezes, como ele diz, tem de pensar qual é a coisa que deve escolher: ou comprar lâminas para a barba, ou comprar o remédio para a gripe porque o salário não chega para as duas coisas. Ele diz uma coisa que não me saiu da cabeça desde que a li, ele diz que viver do salário mínimo para a maior parte de nós seria como uma experiência de guerra. Se, de repente, tivéssemos de viver apenas com salário mínimo não sei se nos aguentaríamos. E contudo, temos uma boa consciência em relação ao salário mínimo na nossa sociedade. E muitas vezes são as questões financeiras, a engenharia financeira e económica que pesa, e claro, tudo isso tem o seu peso. Mas não esqueçamos, não percamos de vista a vida das pessoas, a vida dos nossos irmãos mais pobres.

Nesse sentido, a palavra do profeta Isaías é verdadeiramente uma palavra profética: “Se repartires o teu pão com o faminto, se deres pousada aos sem-abrigo, se levares roupa a quem não tem de vestir, se não voltares as costas ao teu semelhante as tuas feridas não tardarão a sarar.” Nós temos de nos perguntar se muitas das nossas feridas, muitos dos nossos dilemas, muitos dos nossos conflitos, muito desta vida que não nos satisfaz também não é fruto de uma vida trancada em si própria, autossuficiente e indiferente àquilo que poderíamos realmente fazer: ir ao encontro dos outros.

Uma coisa que se aprende, por exemplo, na Comunidade de Santo Egídio, e eles são também um texto profético para a Igreja do nosso tempo, é a amizade com os pobres, o valor da amizade com os pobres. Não é apenas fazer assistência social, não é apenas ter o sentido da justiça, isso é o mínimo. Mas é ter amizade com os pobres, cada um de nós conhecer pobres, ter amizade, tratar como da família.

Por isso, uma nota que eu vi que me emocionou também, e temos também de dizer essas coisas, foi a fotografia que ontem o Expresso trazia: o Presidente da República a comer na mesa de um casal de sem-abrigo que refez a sua história. Um Presidente da República não tem apenas de comer nas grandes mesas, nos grandes lugares, ele tem de ir também ao encontro destas vidas últimas. E isso também constituí para nós um desafio a mudarmos muitas vezes as nossas trajetórias e a sermos capazes de nos colocar no lugar dos outros, nos sapatos dos outros, para percebermos a nossa própria marcha, o nosso próprio caminho.

Se o sal não serve para salgar é inútil, ele terá de ser deitado fora. Se a luz não servir para iluminar, porque é que ela é luz? E nós temos com sinceridade, com humildade, mas ao mesmo tempo com confiança e sem descorçoar, também de nos perguntar: o que é que eu tenho feito do meu sal? O que é que eu tenho feito da minha luz?

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo V do Tempo Comum

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Janeiro

2017/01/30 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética da Virtude – António Pedro Mesquita

Está disponível para ouvir a sessão de António Pedro Mesquita sobre Ética da Virtude, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Pode aceder aqui à apresentação da sessão.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/01/29 - O filme Silêncio, de Scorsese, na homilia do Pe. Adelino Ascenso (homilia)

Há um ensaísta japonês, Hiroshi Osada que escreveu um livro com um título sugestivo: Começar a partir da leitura. Ele define o livro como amigo, mas refere que antes da invenção da escrita já existia o livro, o livro da boca ao ouvido. Naturalmente isto tem a ver com a narração e com a dinâmica do processo narrativo onde há uma história e um contador de histórias. Ocorre-me a bela misteriosa atmosfera das histórias contadas numa tenda de seminómades no Tibete – houve palavras que eu não entendia mas de certo modo intuía – ou à volta de uma fogueira africana.

Os apóstolos são os ouvintes que transmitem as histórias que eles mesmos escutaram. Assim, o Cristianismo é uma comunidade narradora de histórias. Existe uma linha ininterrupta e as histórias não terminam em qualquer tipo de resultado concreto e acabado. O ouvinte envolve-se de tal forma que se transforma em narrador, o ouvinte transforma-se em ator da narração e segue as suas ações. É neste sentido que podemos imaginar o Cristianismo como que uma cadeia infinita de narrações ou talvez uma infinita narração. Essas narrações ou essa narração que se prolonga ou se prolongam de geração em geração.

Fala-se muito do filme Silêncio, de Scorsese. Tal como sabeis o filme é baseado no romance Silêncio do escritor japonês Shusaku Endo e tem lugar no Japão durante as perseguições ao Cristianismo, na primeira metade do século XVII. O protagonista, Padre Rodrigo, é um missionário jesuíta português que entra no Japão em segredo, é capturado, passa por uma terrível provação psicológica e acaba por apostatar por compaixão para com os cristãos japoneses que estavam a ser torturados, uma vez que as autoridades lhe tinham garantido que libertariam os cristãos japoneses se ele pisasse a imagem de Cristo. Ora aqui está uma narrativa de grande densidade teológica, onde o protagonista trava uma luta terrível com a fé no seu coração.

Começar a partir da leitura, Silêncio, ora que tem isto a ver com o tema da Eucaristia de hoje? Tudo. Vejamos, na narrativa do Evangelho temos aquela passagem do Sermão da Montanha, aquele monumento ao Cristianismo que Mahatma Gandhi não sendo cristão tanto amava. “Bem-aventurados os pobres em espírito, os humildes, os que choram, os que têm fome e sede de justiça”, estes já vivem a lógica do Reino, aquela lógica que é ilógica.

A mesma leitura recomenda a misericórdia, a pureza de coração, a promoção da paz, a perseverança diante das perseguições. Perseverança diante das perseguições, aqui parece que se fala dos mártires, dos fortes. Ora, Silêncio fala-nos dos fracos, dos débeis que não aguentam o sofrimento, seja ele o próprio ou o alheio, o do outro. Digamos que se trata de uma apologia do débil e do direito à sua existência, o direito à existência do débil, do fraco, do cobarde.

Rodrigo, o protagonista de Silêncio, passa por um processo muito doloroso de conversão que é simbolizado na transformação da imagem que ele tem de Cristo. Tal transformação na aparência da imagem de Cristo nasceu a partir do árduo esforço por cruzar as barreiras culturais do Oriente e do Ocidente. A transformação da face de Jesus na imaginação de Rodrigo acontece lenta e gradualmente como parte de um doloroso processo de conversão. Quando partiu de Macau a imagem que ele via era aquela que ele trouxera da Europa, ainda sem qualquer transformação. Isto é, não inculturada, um rosto cheio de vigor e força. Na prisão de Nagasaki o Cristo que Rodrigo imagina é um Cristo sofredor. Finalmente, no capítulo 9 do livro o rosto que Rodrigo vê tem um olhar triste. A segunda e terceira imagens são aquelas que ele vê depois de cair num abismo do desespero, o que nos sugere a necessidade da crise – a crise nunca nos deve assustar. Sugere a necessidade da crise para que possamos voltar a germinar espiritualmente.

Como afirma o teólogo irlandês Michael Paul Gallagher, falecido há menos de um ano: “Perante os desafios da vida ou a pessoa passa por um processo de conversão ou permanece atolada em respostas herdadas.” Em face dos terríveis desafios colocados a Rodrigo ele escolheu o caminho do difícil processo de conversão. Oh, sim! Muito difícil! Quem viu o filme entenderá, mas quem leu o livro entenderá de uma forma muito mais intensa.

No filme Silêncio chegamos à conclusão de que Cristo é aquele se torna vivo connosco, que é nosso companheiro nos pântanos da nossa vida. Um Cristo vulnerável, compassivo, um Cristo que Se ajoelha diante de nós e que nos é exemplo para que nos ajoelhemos diante do outro, do pobre, do desesperado, do buscador de vida, do buscador de vida. Um Cristo que Se comove connosco e Se alegra connosco, um Cristo universal que está mergulhado no lodo de qualquer cultura e na profundidade do olhar de qualquer irmão. Um Cristo que é fraco com o fraco.

É bom que tenhamos em mente o verdadeiro Cristo, não aquele que tantas vezes – falo por mim –  transformamos na situação ou na pessoa que nos agrada. Assim, deixaríamos de seguir Cristo, seguiríamos um ídolo criado à nossa imagem ou criado à imagem daquele que veneramos.

Começar a partir da leitura, eu acrescentaria: continuar a partir do encontro. E o encontro com o Evangelho de hoje é precisamente esse caminho descendente. Caminho do desnudarmo-nos do nosso orgulho, da nossa autorreferencialidade, tal como fez Rodrigo, da nossa vaidade, tal como fez Rodrigo, da nossa prepotência, tal como fez Rodrigo. O “cairmos de nós abaixo”, uma expressão que eu escutei uma vez a um dos nossos bispos, “cairmos de nós abaixo”. A primeira leitura também apela à humildade. E como diz Paulo de forma contundente na segunda leitura: “Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios.” A lógica do Evangelho deixa-nos muitas vezes desconcertados, também o filme Silêncio, ou o livro Silêncio nos deixa desconcertados. E isso é bom. Tanto o Evangelho de hoje como o romance ou o filme Silêncio devem forçar-nos a refletirmos. Não esqueçamos: a fé é uma luta entre a dúvida e a esperança. É sempre uma luta entre a dúvida e a esperança, é nesta luta que vamos rasgando caminhos de luz.

Que esta seja, para cada um de vós, uma semana iluminada.

Pe. Adelino Ascenso, Domingo IV do Tempo Comum

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2017/01/26 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/01/23 - Curso "Filosofar é também agir - grandes correntes da ética ocidental" – Ética, Moral, Religião e Direito – Teresa Ximenez

Está disponível para ouvir a sessão de Teresa Ximenez sobre Ética, Moral, Religião e Direito, no Curso “Filosofar é também agir – grandes correntes da ética ocidental”.

Mais informações sobre o curso aqui.

2017/01/22 - "Transformai o vosso modo de pensar" (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Temos neste passo do Evangelho de Mateus, que hoje lemos, o início da vida pública, da missão de Jesus. Em literatura chama-se o incipit, o lugar onde as coisas começam. A forma como se começa é programática, diz muito daquilo que é a intencionalidade do próprio Jesus. A primeira palavra de Jesus, de certa forma, é o seu programa messiânico, o seu mapa para a ação missionária que Ele vai desempenhar.

Jesus diz “Metanoiete”, a tradução aqui diz “arrependei-vos”, que é uma tradução muito na linha do Antigo Testamento. Mas verdadeiramente, “Metanoiete”, o imperativo grego, quer dizer “Metanoein”. “Metá” quer dizer mudar, ir além e “noein” vem de “nous”, que é o pensamento, a inteligência. “Ide para lá do vosso pensamento habitual, mudai o vosso pensamento, mudai a vossa maneira de pensar, a vossa maneira de julgar.” A primeira palavra de Jesus é este imperativo: “ Mudai a vossa perceção, mudai a vossa compreensão das coisas.” Jesus provoca-nos a uma nova visão da própria realidade. Jesus não vem para somar com aquilo que nós já somos, com aquilo que nós já sabemos, com tudo o que trazemos habitualmente dentro de nós. Jesus não é mais um a somar ao existente. Jesus é tudo isso mas conjugado de uma forma nova, numa atitude nova, com um olhar outro sobre nós próprios, sobre o mundo, sobre o nosso destino, sobre a nossa própria missão.

“Transformai o vosso modo de pensar.” É interessante que nós podemos ler toda a ação messiânica de Jesus a partir deste verbo. Por exemplo, Jesus fez muitas curas, muitos sinais, muitos milagres durante a sua vida pública, e esses milagres, para os doentes a quem essa ação era feita, tinham um sentido literal – os cegos viam, os coxos andavam, os leprosos eram curados. Mas aquela ação de Jesus tornava-se para os outros também uma ação simbólica, também uma espécie de chamamento. E o chamamento era a quê? Era a ver com outros olhos, era a andar de outra maneira, com outra força, com outra vitalidade, de outra forma, era sentir-se purificado de todas as lepras, era sentir-se curado de todos os assediamentos que a morte nos faz. No fundo, é esta transformação vital de nós mesmos que Jesus vem anunciar.

Nós estamos a recomeçar um ano, estamos no terceiro domingo do ano comum, temos um longo caminho pela frente, domingo a domingo, e é importante que sintamos que há algo de novo a começar em nós, que há uma proposta de mudança, uma proposta de transformação que não é feita abstratamente, para o mundo em geral, mas é feita para mim. Eu sou desafiado a ganhar outros olhos, a ganhar uma outra inteligência para olhar-me a mim mesmo, para olhar os outros, para olhar para Deus. É esse o repto de Jesus. Porque Jesus constrói a nossa compreensão do mundo, Jesus constrói uma nova atitude, uma nova arte de ser. Sintamo-nos, por isso, muito desafiados a uma desinstalação.

Para nós cristãos – o Papa Francisco fala muito disso – os nossos grandes pecados acabam por ser a autorreferencialidade. Quer dizer, nós anulamos bastante a força profética, o desassossego destas palavras no conforto de uma religião que é vivida muito pacatamente, vivida como um manual de boas maneiras, como uma ritualidade que no fundo não nos tira do sério, não nos tira o chão debaixo dos pés, não nos põe à prova, não nos faz começar de novo a vida em cada domingo, mas é quase uma experiência de manutenção e não este choque de transformação que nós vemos na palavra de Jesus. Este é o primeiro pecado, uma certa autorreferencialidade, tudo é reconduzido a nós próprios e ao nosso conforto.

Outro pecado é a mundanidade, aquilo que o Papa Francisco chama com esse nome, que é, no fundo, uma cedência ao mundo, uma cedência aos apetites, uma cedência ao consumo, uma cedência ao egoísmo materialista, que não nos faz perceber a palavra de Jesus que diz: “Transformai a vossa forma de pensar, transformai o vosso modo de estar porque o Reino de Deus tornou-se próximo, porque o Reino de Deus avizinhou-se da vossa vida.”

E o Reino de Deus o que é? É a presença de Deus, é a possibilidade de Deus, é a hipótese de Deus que é colocada com toda a força, com toda a disponibilidade na nossa vida. Deus faz-Se presente e nós o que é que vamos ser? O que é que vai acontecer a partir disso? Jesus diz estas palavras e parte para junto do mar da Galileia e ali, junto daquelas vidas, vai chamando e dizendo àqueles pescadores: “Vem e segue-Me.” E eles deixaram tudo para seguir Jesus. Uma mudança de pensamento é isto: é deixar o nosso quadro habitual de resolver a nossa vida para resolvermos a nossa vida com Jesus, a partir de Jesus, a partir do chamamento que Ele nos faz. Este “Vem e segue-me” que Jesus diz àqueles pescadores em específico, não é apenas para eles. A vocação não é apenas pensarmos a vocação do matrimónio, a vocação religiosa, a vocação dos padres. A vocação é a nossa vida, é a nossa existência. Nós temos em cada dia de nos sentir chamados, convocados, porque em cada dia Ele passa pela nossa vida. Claro que há a condição com que vamos viver e dar forma à nossa existência, mas a vida de um cristão é toda ela vocacional, é toda ela vivida como escuta de Alguém que chama por nós.

Se no dia a dia muitas vezes parece que ninguém diz o nosso nome, parece que nada nos chama, parece que apenas a vida nos engole ou que vivemos em modo de voo, em modo de pausa, a verdade é que se estivermos atentos no fundo do nosso coração, na realidade da história, nas suas circunstâncias pequenas e grandes nós vamos ouvir a voz de Jesus que passa pelo mar da Galileia da nossa vida e repete: “Vem e segue-me”. E o que é importante é nós termos aquela disponibilidade que os discípulos tiveram, deixaram tudo para seguir Jesus.

Não tenhamos dúvidas, nós temos de deixar para poder seguir. O nosso mal é querermos compactuar: sim e sim e sim e sim e às tantas, de todos os nossos “sins” não se diz um “sim”, não se diz um “sim” que seja verdadeiro. Os discípulos tiveram de deixar para seguir Jesus e nós também temos de deixar para seguir Jesus. Seguir Jesus implica deixar algumas coisas que para cada um de nós possivelmente são coisas diferentes, possivelmente nem são coisas materiais, não são coisas espaciais. São atitudes, são vícios, são círculos viciosos, são modos – é tanta coisa! São coisas que nos prendem e que no fundo nós temos de deixar para seguir verdadeiramente Jesus. Há uma radicalidade na vivência cristã que nós próprios também temos de experimentar. Um cristão é um cristão. Não é um puzzle de coisas e de valores e de memórias diferentes. Não, um cristão é um cristão.

Está agora nos cinemas este filme de Scorsese,  “O Silêncio”, que adapta o belo romance de Shusaku Endo também com esse nome. É um filme muito rico que dá conversas muito interessantes. Mas uma verdade evidente é que um cristão é alguma coisa que não se consegue apagar. Ali no filme é impressionante que nem no pecado, nem sequer na apostasia, quando pelas circunstâncias históricas, pelo medo por tanta coisa nós negamos Deus, Deus nos nega. Deus não nos nega. O cristão acaba por ser alguma coisa irremovível, o elemento cristão é alguma coisa irremovível dentro de nós. Por isso, mesmo aqueles que são apóstatas podem negar a Deus e negar a Jesus mas verdadeiramente continuam à luta com Jesus, continuam naquele combate sem fim com o desejo de Deus.

Um cristão é uma coisa muito séria e para nós a memória dos mártires e a memória de todos aqueles que nos precederam também nos deve dar o alento para não reduzirmos o ser cristão apenas a uma característica, mas fazermos dessa condição um foco de vitalidade que fertiliza a nossa vida, que nos dá uma criatividade de ser que potencia aquilo que somos, que nos rasga à sede e ao desejo de infinito que nos torna buscadores, exploradores de sentido em cada dia. Ser cristão é um acelerador de partículas. Nós já não estamos mais parados, não estamos mais estagnados. Estamos sempre em movimento, estamos sempre em caminho. Jesus passa pela nossa vida e diz “Vem e segue-Me” e esse é o nosso caminho.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Tempo Comum

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2017/01/15 - Somos nova criação (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Nós celebramos no Batismo de Jesus a Sua investidura. Isto é, a tomada de consciência de Jesus da Sua própria missão. Naquelas palavras que se escutam do céu, “Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti coloco o Meu amor”, Jesus descobre o caminho, o sentido e o horizonte dos Seus próprios passos.

Estes primeiros domingos, na sequência do final do tempo de Natal, trabalham também em nós a nossa própria investidura. Isto é, o que é que nós somos na história da salvação? Qual é o nosso papel? Qual é o nosso lugar? De que missão estamos nós investidos? Qual é a nossa identidade profunda?

É no fundo esse trabalho identitário, da ordem do nosso próprio ser e da relação que temos com a história da salvação, que hoje também nos é colocado como desafio na Palavra que escutamos. Temos na história da Igreja um modelo claro na figura de Paulo. No arranque da primeira Carta aos Coríntios que hoje nós lemos, a saudação inicial e o início de ação de graças, vejamos o bilhete de identidade de Paulo. Como é que ele se apresenta? Isto é, que consciência Paulo tem de si e da sua missão? Ele diz: “Paulo, por vontade de Deus escolhido para apóstolo de Cristo Jesus, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos que foram santificados em Cristo chamados à santidade, com todos os que invocam em qualquer lugar o nome do Senhor Jesus.”

Paulo entende-se a si mesmo como escolhido, eleito por vontade de Deus para ser apóstolo, para ser missionário, mensageiro de Jesus Cristo. Ele pensa a comunidade à qual se dirige, neste caso a comunidade de Corinto, como mulheres e homens que foram transformados por Cristo, foram santificados por Cristo.

Na consciência de Paulo a nossa vida não é só aquilo que nós construímos, a nossa vida não é só o resultado das nossas ações, dos nossos projetos. A nossa vida, antes de tudo, é uma vida modificada, é uma vida transformada pelo próprio Cristo: “Aos que foram santificados por Ele.” E santificados quer dizer colocados de parte para ser especialmente trabalhados, elaborados, modelados por Cristo.

Então, o grande desafio no início deste tempo é cada um de nós descobrir-se em Cristo, descobrir o que é na ação de Cristo, naquilo que Cristo faz em nós. Talvez seja uma surpresa para nós próprios a descoberta que podemos fazer da nossa própria vida. Porque a nossa vida não é só isto que está confiado às nossas mãos, a nossa vida é infinitamente mais preciosa do que aquilo que podemos pensar porque a nossa vida não é só a nossa vida. A nossa vida é este lugar santificado por Cristo, é este lugar que recebeu a vida de Cristo, é este lugar habitado, insuflado, transfigurado pelo espírito do ressuscitado.

Cada um de nós passou a valer muito mais, e é assim que cada um é chamado a olhar para a sua própria vida, com um valor que não deriva apenas de mim mesmo mas com um valor que deriva da ação de Cristo em mim. Eu descubro-me mulher e homem, nova criatura, “nova criação” como S. Paulo também dirá. Um cristão é uma nova criação a partir da Páscoa de Jesus. Então, nós somos novas criaturas, não somos o homem velho, a mulher velha que insiste dentro de nós com as manias de sempre, as dificuldades de sempre, os limites de sempre, esta espécie de círculo vicioso que muitas vezes é o nosso quotidiano. Não somos apenas isso, somos uma realidade transfigurada, transformada pelo próprio Cristo, somos nova criação.

É interessante que Paulo se coloque na linha dos profetas de Israel. Hoje nós lemos o profeta Isaías. É interessante que os profetas de Israel entendiam a sua missão, a sua vocação, como alguma coisa que já aconteceu no seio materno. Isto é, não é numa determinada altura da nossa vida adulta que nos sentimos vocacionados ou competentes, ou desafiados a realizar um determinado serviço. Não, os profetas entendiam a sua vocação e missão como alguma coisa que desde sempre tinha estado no pensamento de Deus e Deus preparou-nos desde sempre.

Queridos irmãos e irmãs, o grande desafio neste início deste ano, neste novo entendimento de nós próprios e daquilo que somos também é um desafio a relermos a nossa história. Se calhar, olhando para a nossa própria biografia nós encontramos coisas certas e incertas, encontramos o bem e o mal, encontramos a incompletude. Mas sobretudo nós somos desafiados a encontrar o movimento da Graça de Deus, o fio da Sua misericórdia, do Seu amor, que são eternos para connosco e que desde sempre nos ampararam. Nós estamos aqui porque o Senhor nos trouxe pela mão, porque na Sua misericórdia o Senhor chamou pelo nosso nome. Mesmo que nós pensemos que estamos aqui porque viemos fazer companhia a alguém ou viemos por uma razão fortuita qualquer, isso não existe. Nós estamos aqui porque o Senhor nos trouxe até aqui, porque Ele nos conduziu até este dia, até esta hora. E com que amor o Senhor está a trabalhar cada um de nós, com que gentileza, com que expressão da caridade divina Deus está a formar, Deus está a modelar, a nossa história. Está a modelar para nós sermos capazes de apontar para Jesus. Qual é a missão do cristão no meio do mundo, no interior da história? É apontar para Jesus e é dizer aquilo que João Batista disse: “Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.”

Mas para nós podermos dizer isto com autenticidade, nós próprios devemos antes ter experimentado na nossa própria vida essa radicalidade de vida nova que Jesus coloca dentro de nós. É porque nós saboreamos, porque nós tingimos as nossas vestes no Sangue do Cordeiro, é porque nós nos atiramos para os pés de Jesus, é porque nós reconhecemos Nele Aquele que nos salva, Aquele que dá sentido à nossa história que nós podemos dizer uns aos outros: “Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele é o Salvador, Ele é Aquele que devia vir.”

Queridos irmãs e irmãos, há uma história para escrever. Nós temos de olhar para o tempo que nos é dado como uma oportunidade para escrever uma história. E uma história que seja, não uma história de maldição, não uma história de fatalismo, não uma história de desistência mas uma história de salvação em que olhamos para Jesus com confiança, com esse salto que é a fé e dizemos: “Senhor, Tu és o Cordeiro que me salva, Tu és aquele que repara o mundo, Tu és aquele que dá sentido à nossa vida sobre o mundo.”

Este tempo, queridos irmãs e irmãos, é por isso de uma grande responsabilidade. Que cada um de nós sinta o seu lugar, o seu papel, a sua missão. E aqui o Senhor atua em cada um de nós. Às vezes eu posso perguntar: “O Senhor atua em mim, um homem carregado de pecados? Não sei nada, não posso nada, o Senhor será que pode falar em mim?” Ora, se o Senhor falou através da burra de Balaão, não vai falar através de mim? Se o Senhor falou através das pedras, através da natureza, através da luz e da noite o Senhor não pode falar através de mim? Cada um de nós sinta que a sua fragilidade não é um obstáculo. A nossa miséria não é um impedimento. O Senhor é capaz, o Senhor pode, o Senhor transforma a nossa vida, o Senhor faz de cada um de nós instrumentos da Sua paz, instrumentos do Seu amor.

Por isso, a grande oração é aquela que hoje é proclamada pelo Salmo 39, que hoje nos é dado como palavra de Deus. O salmista, neste salmo que se acredita composto pelo rei David, diz: “Não vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos. Não pedistes holocaustos nem expiações, então clamei: aqui estou!”

Queridos irmãs e irmãos, que cada um de nós no seu coração diga isto: “Senhor, abre-me os ouvidos. Senhor, aqui estou para fazer a Tua vontade.”

Pe. José Tolentino Mendonça, Baptismo do Senhor

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2017/01/12 - Percurso de Preparação para o Crisma

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2017/01/01 - A gratuidade da vida (homilia)

Queridos irmãs e irmãos,

Ontem fui ao barbeiro e no final despedi-me dos que estavam lá a desejar bom ano, e foi interessante a reação de uma pessoa que me disse: “Olhe, eu do alto dos meus trinta e poucos anos há uma coisa que aprendi: se nós não tornamos os anos bons nunca teremos bom ano.” Eu parei, comecei a falar, claro não podia fazer um sermão ali na barbearia, mas comecei a tentar dizer: “Bem não somos só nós, não estamos sozinhos, há coisas que são a gratuidade da vida que vem ao nosso encontro, temos abrir um pouco o nosso coração.” Tentei dizer isto mas a pessoa estava muito fechada na sua lógica: “Não, se nós queremos pêras temos de subir à pereira, não há hipótese senão o trabalho que nós formos capazes de investir e fazer.”

Eu fiquei a pensar naquela conversa porque, por um lado, ele tem muita razão. É muito fácil nós fazermos votos de bom ano, nós descansarmos a bondade dos nossos anos sobre as costas de um incógnito ou sobre o poder de Deus como se nós não tivéssemos de fazer nada, tivéssemos só de respirar e depois tudo vai acontecer. Nós sabemos que não é assim. Evidentemente os anos tornam-se bons ou tornam-se melhores quando nós temos um projeto, quando nós estabelecemos um compromisso, quando nós como dizia a pessoa da barbearia damos o litro, isto é, quando nós damos tudo o que temos, quando nos tornamos dons, artesãos, fazedores. Mas, ao mesmo tempo, nós precisamos ou não de uma bênção? Nós precisamos ou não de Alguém que está para lá de nós? Nós precisamos ou não de uma experiência de graça? Nós precisamos ou não de Alguém que nos salve? Ou a vida, de uma forma muito prática e comezinha, como se pode falar dentro de uma barbearia, é apenas aquilo que nós conseguirmos fazer, senão estamos fritos, ninguém virá em nosso socorro?

E aqui é que se joga de facto o mistério da fé que é, no fundo, esta compreensão de que há uma missão reservada a cada um de nós. Cada um de nós tem de investir, tem de dar, tem de se entregar, tem de modificar, tem de sacudir as sandálias, tem de se pôr de pé, tem de se entregar à luta; mas, ao mesmo tempo, tudo é graça, tudo é dado, tudo é dom. A vida é conquista – certo, claro que sim e é importante dizê-lo. Mas a vida também é dádiva, a vida também é um mistério que nos visita, a vida também é a graça que se vem sentar a nosso lado, a vida também é aquilo que nós não sabemos explicar mas que acontece e que muitas vezes é a experiência decisiva, muitas vezes é a epifania e o milagre na nossa vida. A nossa vida avança numa linha reta, a nossa vida é uma linha, é. Mas também é feita de ruturas, também é feita de saltos, também é feita disso que só o exercício profundo da confiança nos pode fazer tocar.

Por isso, neste primeiro dia do ano, nós sabemos isto: numa mão temos a força da conquista que temos de fazer, dia a dia, hora a hora, plasmando o tempo, sendo nós os oleiros do tempo; mas a outra mão é a mão que recebe, é a mão que a vida vai encher, onde Deus vai colocar caminhos para vivermos – essa mão que é o milagre, essa mão que nos vai encher o coração de gratidão, essa mão que é o mistério de Deus que vem ao nosso encontro, essa mão que é o amor com que Deus em cada dia de uma forma incondicional nos abençoa.

Por isso, neste primeiro dia do ano nós lemos sempre essa maravilhosa bênção do Livro dos Números, com que muitas vezes terminamos a nossa celebração aqui dominicalmente: “Que o Senhor te abençoe e te proteja, que o Senhor te olhe com compaixão, desça sobre ti o Seu olhar com toda a compaixão e que o Senhor te encha de paz.” Nós precisamos disto, nós precisamos desta salvação, nós precisamos de um Salvador porque nós não somos a chave, a única chave da nossa vida. A vida não se resume àquilo que nós podemos fazer, nós precisamos de ser redimidos nesse encontro com o Outro e com todo o outro. Nós não nos demos a vida e não nos damos a vida, a verdade é essa. É na conjugação, é na rede, é na roda, é na dança que a vida surge, que as coisas mais importantes rebentam, nascem, florescem. E por isso, temos de abrir o nosso coração e precisamos sentirmo-nos abençoados.

É claro que quando uma pessoa me diz “Olhe, eu só conto com o meu esforço, não conto com mais nada.”, eu já tenho poucos cabelos e por isso sei também o que essa frase significa. Não é apenas uma tomada de posição ideológica, é uma ferida evidentemente. Uma pessoa que só conta com o seu esforço é uma pessoa que não está completamente feliz, que se sente só, que sente a ferida da solidão, sente o peso das coisas que não aconteceram, deseja mais mas não quer dizê-lo, não quer confessá-lo. E muitas vezes é essa a nossa situação, endurecemos, enrijecemos numa determinada posição porque alguma coisa nos dói ou porque muita coisa nos dói. E então, preferimos desacreditar. Mas nós precisamos de uma bênção, e a maior bênção é aquela que Jesus nos traz, aquela que Jesus é.

Jesus é o Filho de Deus que nasce homem, que toma a nossa condição, toma a vida de qualquer um de nós com uma missão, dizer-nos isto que S. Paulo diz tão bem na Carta aos Gálatas que hoje proclamamos: “Jesus faz-Se homem, para dizer que o homem é filho de Deus.” Para dizer que cada um de nós não é escravo, é filho. Isto é, sobre cada um de nós repousa a vida de Deus, o sonho de Deus, o projeto de Deus, a misericórdia de Deus, o amor de Deus de uma forma incondicional. E, como diz Paulo: “Se eu sou filho, também sou herdeiro.” Então, eu vou olhar para a vida não como uma madrasta que me rouba tudo, que me rouba os sonhos, que não me deixa ir mais longe, mas eu vou olhar para a vida como herdeiro. Vou sentir que o mundo é também construído pelas minhas mãos, mas o que eu recebo do mundo é incalculável, o que nós recebemos da vida é incalculável de bom, de alegre, de maravilhoso, de inexplicável. Nós somos herdeiros fundamentalmente. Claro que somos inventores, descobridores, mas verdadeiramente somos herdeiros porque quando nos sentamos à soleira, no fim das nossas conquistas importantes, nós percebemos que as coisas mais importantes – o ar que respiramos, o vento que sopra, o sentido do universo, estarmos aqui – não são coisas que verdadeiramente dependem de nós. Por isso sentimo-nos abençoados e é importante que esta verdade também nos cure porque nós precisamos de ser reconciliados. Apanhamos pancada aqui, cacetada ali, ferida acolá e depois a vida parece uma coisa cada vez mais estreita que ou fazemos ou nada acontece. Não, há coisas que não fazemos, há coisas que recebemos, há coisas que nos são dadas e a mais bela coisa que nos é dada é esta certeza de que somos filhos e que somos filhos amados de Deus.

Os pastores, quando olharam para o Menino da manjedoura, saíram a contar aquilo que viram e ouviram, Maria guardava tudo isto no seu coração e meditava em cada uma das palavras dos factos que ela assistiu. Nós também no Natal, que agora já vai caminhando para o fim como tempo litúrgico, o que é que levamos daqui para contar? O que é que nós vivemos, o que é que nós vimos, o que é que nós tocamos acerca do mistério da vida que nós vamos conservar no nosso coração e meditar nisso ao longo do ano? O que é que nós vamos contar, partilhar uns com os outros daquilo que vimos? Um Menino deitado numa manjedoura o que é que é para nós? O que é que isso significa?

Nós estamos a celebrar a Jornada Mundial de Oração pela Paz. São já 50 jornadas e, quando elas começaram, o Papa Francisco cita-o na sua mensagem, o Papa Paulo VI disse: “Agora para a nossa geração é muito claro: só há um caminho para o progresso, só há um caminho para o bem-estar na terra, esse caminho é a paz.” Aquilo que parecia claro há 50 anos hoje também para nós é claro. Mas, não é claro para nós todos ou não é claro sempre. A verdade é que a paz continua por cumprir, continua por realizar. Não só no nosso mundo com toda as convulsões, as aberrações, o mal, o mistério do mal perfeitamente injustificado à solta, a fazer vítimas, as atrocidades de que nós somos testemunhas e “vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar”.

Mas ao mesmo tempo também a responsabilidade de cada um de nós. Dostoievski dizia: “Nós somos responsáveis por tudo diante de todos.” Deste clima de guerra, de medo também nós somos cúmplices, somos responsáveis. E como é que invertemos esta lógica? Transformando o nosso coração. Por isso, a mensagem do Santo Padre sobre a cultura da não-violência, sobre a atitude da não-violência é um desafio muito grande. Ele dá como modelos a Madre Teresa de Calcutá, o Gandhi, o Luther King, todos aqueles que fizeram grandes transformações pelas vias da paz, usando as armas do diálogo, a força que a paz, que parece frágil, é capaz de ter.

Às vezes também nós resolvemos a nossa vida de uma forma violenta, fechando a porta, dizendo a palavra, rompendo. E se calhar aquilo que seria mais fecundo, mais evangélico é de facto a cultura da não-violência. Nós precisamos erradicar do nosso coração a violência, trabalhar isso, porque violentos somos todos. Esse trabalho interior, essa pacificação, essa transformação dos maus sentimentos, da agressividade, do rancor, do ressentimento, mesmo da violência física isso tem de ser vencido dentro de nós, temos de fazer um trabalho interior para que a paz venha aos nossos corações. A paz que Jesus nos ensinou, Ele que viveu até ao fim, que deu a sua vida, que teve aquela morte e sempre de uma forma pacífica: “Não são vocês que me tiram, sou eu que dou.” Esta atitude de Jesus é para nós uma semente, um modelo, um paradigma de uma vida a ser vivida.

Hoje celebramos a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Maria é para nós um modelo de vida. Aquela rapariga da Galileia tem tanto a ensinar-nos nas atitudes fundamentais da sua vida, na capacidade de dizer “Sim”, um sim a uma história muito maior do que ela, que jamais ela poderia conquistar, que jamais ela poderia fazer e ela abre as portas do seu coração a isso, assumindo que isso tem um custo, que isso se paga também em sofrimento, em compreensão, em solidão – ela assumiu essa história. E depois, a fidelidade que Maria vive em cada momento a essa história. Ela deve muitas vezes ter olhado para Jesus e não ter entendido nada, mas guardava isso no seu coração, guardava imagens, guardava palavras, pedindo a Deus que desse um sentido àquilo que ela via e não entendia, sentindo que tinha ela própria também de fazer um caminho para descobrir Jesus. Maria não é aquela que entende tudo logo, não, ela terá de ter feito um caminho duríssimo de compreensão progressiva do mistério de Jesus.  É também esse caminho que nós fazemos, um caminho progressivo de compreensão do mistério que nos visita.

Que Maria Santíssima seja, neste ano de 2017 em que celebramos os 100 anos de Fátima,  também aquela que acompanha cada um de nós. Que celebrar os 100 anos de Fátima seja também para nós uma ocasião para redescobrirmos a figura de Maria e que no silêncio desta mulher nós aprendamos os caminhos da nossa alma, os caminhos interiores do nosso coração.

Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

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