Queridos irmãs e irmãos,

No centro da nossa liturgia está a mesa. Esta Quinta-Feira Santa nós podemos entendê-la como um elogio da mesa, daquilo que a mesa significa. Na nossa vida, a mesa acompanha-nos sempre. É daquelas peças de mobília da nossa casa que podem variar mas estão sempre presente, e têm um papel fundamental.

A mesa que é o altar não tem uma função decorativa. É uma mesa verdadeira. O altar é uma mesa verdadeira. É o símbolo, é a imagem, de todas as mesas que construíram a nossa vida e ao mesmo tempo é a mesa do futuro que se abre para nós. Porque, esta mesa ensina-nos a arte de construir comensalidade, de construir relação, de construir vida partilhada. Por isso, nós sentimos que esta pobre mesa onde a cada domingo nós nos juntamos é a medida da nossa vida, é o propulsor daquilo que nós somos.

Façamos o elogio da mesa. Esta mesa que é a continuação natural da nossa própria vida. Porque, não há mesa sem dádiva. Não há mesa que se abre sem coração que se dá, sem vida suada, oferecida, entregue, transmitida aos outros. Façamos o elogio da mesa. A mesa que começa por ser a imagem da vida, daquela nutrição essencial que reflete o cuidado pela própria vida. A nossa primeira mesa foram os braços da nossa mãe, foram o corpo da nossa mãe – foram a nossa primeira mesa. Ou foi o colo do nosso pai. Foram a nossa primeira mesa. Aí nesses dias e noites, nós começamos esta aventura maravilhosa e há mulheres e homens que são mesa uns para os outros. A mesa não é só uma mesa física. A mesa é isto: a mesa é o cuidado fundamental da existência. E não é por acaso que àqueles dois foi confiada a coisa mais sagrada que é nutrir, garantir o pão e garantir a sede daquelas criaturas que eles geraram. É a missão sagrada de ser mesa, de embalar na vida. Por isso, a mesa há-de ser sempre o lugar onde se expressa o cuidado mais recôndito, mais essencial pela vida.

Na mesa, nós nem nos damos conta, mas na mesa joga-se a vida ou a morte, joga-se o sim ou o não, joga-se aquilo que somos ou a destruição de nós mesmos. Na nossa mesa e nesta mesa. Por isso, a mesa é um lugar de afirmação da vida fundamental. Façamos o elogio da mesa, dessas mesas que são a expressão do quotidiano. Acontece tantas vezes que depois nós perdemos a conta, perdemos o número. Quantas vezes nos sentamos à nossa mesa? Refeições banais, a correr, apressadas, coisas que não nos ficam na memória mas que depois, no conjunto, tornam-se a nossa biografia, tornam-se a seiva que nos alimenta. Porque nós somos feitos de vida comum, de vida ordinária, mas somos feitos dessa fidelidade permanente, repetida, mantida. Às vezes com que esforço, mas somos fruto dessa fidelidade àquilo que a mesa significa. A mesa que nos dá a ver o quotidiano e também o extraordinário.

Quando há uma festa nós abrimos a mesa. E a mesa, no seu brilho, na sua excedência, no seu ouro torna-se um lugar onde nós experimentamos o sabor que é ainda maior que o sabor habitual. Nós celebramos a vida. Sentimos não apenas a necessidade do corpo mas também sentimos o desejo da alma. E por isso, a mesa é também o lugar da festa. Porque a mesa não alimenta apenas o nosso corpo. Alimenta também a busca de sentido, a busca de verdade, a busca de beleza que cada um de nós é chamado a fazer.

Façamos o elogio da mesa. Eu tenho uma amiga que vive sozinha, ela disse-me um dia: “Eu como todos os dias na cozinha. E na cozinha só tenho uma cadeira na minha mesa pois sei que como sempre sozinha, mas não há vez nenhuma que eu me sente à mesa e não diga isto: «a mesa é comunidade.»” E diz ela: “Isso ajuda-me.” Eu próprio, os padres seculares que muitas vezes vivem sós, e se calhar muitos de nós que estamos aqui, também todos os dias comemos muitas vezes sozinhos. Mesmo quem tem uma família grande lhe acontece tomar uma refeição sozinho, ou em determinados momentos da nossa vida. Mas, é importante dizer no nosso coração: “A mesa é comunidade.” E que isso nos faça sentir que nós não estamos sós, sentir que a mesa nos conta uma história. Conta a história de todos os artesãos invisíveis que conspiram para que o milagre da nossa vida seja possível, e que ela se expanda, e liga-nos à fome e a sede de todas as mulheres e de todos os homens da terra. E liga-nos ao esforço, ao sentido da festa, liga-nos àquilo que cada um está a viver neste mundo vasto e largo de Deus. Rostos que nós nunca veremos mas que, na expressão da mesa, estão ali reunidos, estão ali presentes. A mesa é comunhão, a mesa é comunidade.

Não foi por acaso que Cristo na Última Ceia quis fazer o elogio da mesa. E a Eucaristia é o elogio da mesa. Porque no centro da Eucaristia está a Palavra que nós comemos, a primeira mesa. E depois está a mesa do pão, a mesa do vinho que se torna vida, porque é na mesa que nós compreendemos aquilo que Jesus nos fez, aquilo que Jesus pede a cada um de nós. Na mesa nós lavamos os pés uns aos outros, às vezes lavamos o rabo uns aos outros, cuidamos uns dos outros até ao extremo, até onde for preciso. Não temos de escolher, a vida não é de escolhas, a vida é o que é. À volta da mesa nós às vezes queríamos não ter isto, não ter aquilo. Não, é o que temos. E temos de abraçar a mesa, abraçar a mesa. Porque na sua vulnerabilidade, na sua fragilidade, a mesa é o lugar do abraço à nossa humanidade.

Jesus faz o elogio da mesa e Ele não tem dúvidas. O que é que é uma mesa? A mesa é a extensão do corpo. Como a nossa primeira mesa foi o corpo dos nossos pais, o colo da nossa mãe. O que é hoje uma mesa verdadeira? Uma mesa verdadeira não é uma mesa, é mais do que uma mesa, é a fraternidade que somos capazes de construir uns com os outros, é aquilo que colocamos lá. Mas é tudo o que nos levou a colocar aquilo na mesa e tudo aquilo que gostaríamos de colocar e muitas vezes fica por dizer, fica por nomear. Mas a mesa é o lugar onde podemos tocar mais profundamente a vida uns dos outros, nesse gesto arcaico, selvagem e sagrado que é comer. Que é colocar uma coisa que está fora dentro do nosso corpo e ela transforma-se no nosso corpo. É uma coisa primitiva, mas ao mesmo tempo é o gesto mais radical de uma hospitalidade mais radical. E não é por acaso que Jesus identifica a hospitalidade do ato de comer, e do ato de comer em companhia à hospitalidade de Deus, à hospitalidade que Deus nos oferece. Porque é assim: Deus torna-nos seus, Deus dá-Se-nos, Deus oferece-Se como alimento para que nós O comamos e para que a nossa vida se torne uma vida transformante e transformada por essa presença divina; que, na mesa, de uma forma sacramental nós podemos tocar, nós podemos beber.

Façamos, queridos irmãos, o elogio da mesa e que nas nossas vidas nós percebamos que a Eucaristia não é simplesmente um ritual estanque que fica aqui. Esta mesa é um porto, esta mesa é um ponto de partida. Desta mesa nós partimos para as nossas mesas, esta mesa é uma multiplicadora de mesas, é uma reconciliadora de mesas, é uma inventora de mesas. Cada um de nós tem de ser a mulher mesa, o homem mesa que é capaz de dizer: “Olha, estou aqui ao serviço. Ofereço-me, dou um passo em frente, estou contigo. Se posso ajudar, se posso solidariamente estar a teu lado, estou aqui.” Isso é perceber a lição fundamental de Jesus.

É claro, esta mesa, nós só percebemos iluminada pela cruz. Porque não há mulheres mesa nem homens mesa que não aceitem viver essa forma radical de amor que nós lemos hoje no Evangelho de S. João como introdução ao Tríduo Pascal. “Antes da festa, sabendo Jesus que chegara à Sua hora, Ele que amara os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” Até onde nós estamos dispostos a levar o nosso amor? Até onde nós estamos dispostos a levar a nossa dádiva?

O que nós vamos viver neste Tríduo Pascal é seguirmos Jesus. Como as mulheres e os homens, os discípulos seguiram Jesus. Um bocado desalentados, acabrunhados, desorientados, sem saber bem, amedrontados mas seguindo Jesus como puderam. Sigamos Jesus como pudermos, sigamos. Mas, coloquemos o olhar, vejamos o que Ele faz. Porque, como Ele diz no Evangelho: “Eu deixei-vos um exemplo. Eu deixei-vos um exemplo.” Queridos irmãos, nós vamos continuar a nossa celebração. Hoje é um dia de festa, porque à volta desta mesa nós sabemos o que é a comunidade, nós sabemos que não estamos sós. E sabemos que Ele é para nós o alimento que nos ajuda a ser alimento, para os outros.

Ainda a semana passada, passei no Colégio Moderno, fui lá falar a um grupo grande de jovens, mais de 200, miúdos do décimo primeiro, décimo segundo. Uma grande conversa sobre o mundo, a sociedade, a Igreja. E no final, uma miúda veio ter comigo, com aquela timidez bonita da puberdade e disse-me: “E o que é a vocação? Pode falar-me um pouco da vocação?” E eu disse-lhe: “Olha, a vocação é aquele lugar onde tu vais sentir que a vida é mais feliz, essa é a tua vocação.” E ela disse: “Eu quero ser feliz. Eu quero muito ser feliz.” E eu disse: “Se eu te posso dar um conselho, à luz daquilo que Jesus nos ensina é este: se queres mesmo, mesmo, mesmo ser feliz torna feliz o maior número de pessoas à tua volta. Porque, a felicidade dos outros vai-te contagiar para a felicidade que tu buscas, que tu anseias e que tu mereces.”

Esta é a história da mesa, estão a ver? Nós estamos sempre à volta de uma mesa.

Pe. José Tolentino Mendonça, Quinta-feira Santa – Missa da Ceia do Senhor

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