Queridos irmãs e irmãos,

O Senhor passa pela nossa vida, Deus passa pela nossa vida.
A Sua Palavra é sempre a mesma, o repto de Deus é um repto eterno. É este “Segue-me!”,
faz da tua vida uma obra plena, faz da tua vida um momento de eternidade, faz da tua vida uma obra de arte, uma obra-prima, enche a tua vida dessa luz… Isso só acontece quando nós seguimos, quando nós nos desprendemos e vivemos no seguimento.
Este chamamento, como S. Paulo lembra, é um chamamento universal e é um chamamento que está sempre a acontecer.

Hoje, nós fomos chamados diversas vezes, e seremos ainda chamados. Em cada dia que o Senhor nos der, Ele há-de passar rente ao nosso barco, rente à nossa praia para dizer a mesma palavra que disse a Tiago, filho de Zebedeu e a seu irmão João, a mesma palavra que disse a Pedro e a seu irmão André, cuja festa hoje nós celebramos: “Vem e segue-me, eu farei de vós… uma coisa nova”

Hoje, nós juntamo-nos aqui para celebrar o aniversário da morte de Etty Hillesum. Ela, sendo judia, sendo uma mulher secularizada, distante da religião, sendo habitada por tantos contrastes, tantos ventos contrários, ela ouviu a voz do Senhor: “Vem e segue-me!” E isso fez na vida dela toda a diferença.

Nós conhecemos todos a vida de Etty, tivemos o privilégio de andar por aqueles lugares, (pelo menos uma parte, mas os que não foram também foram…), de maneira que para nós é uma história conhecida, que trazemos no nosso coração. Por isso, eu queria hoje perguntar: “Qual é o desafio que Etty nos faz? O que a sua vida, a sua morte, representam para nós?” Eu diria que é um triplo desafio.

O primeiro desafio é o da autenticidade. Etty foi uma mulher autêntica. Autêntica no disparate – foi autêntica e viveu o que tinha de viver: as procuras, os enganos, as ilusões, desilusões, a experiência do mal. Ela foi autêntica aí.

E viveu com autenticidade a santidade, que é uma coisa que nós temos, se calhar, dificuldade em viver. O nosso problema não é tanto de ser autênticos no disparate, mas é de ser autênticos na santidade. Ficamos com pudor, com reserva, temos medo de ir, temos medo de ser… no fundo, nós temos medo de ser. Nós que somos cristãos, nós que estamos dentro deste oceano de amor de Deus, nós que ouvimos “Vem e segue-me, vem e segue-me, vem e segue-me”, temos medo de ser… Algo nos impede. Vamos até certo ponto, damos mas nunca damos tudo, acreditamos mas não completamente, seguimos mas não com todo o nosso ser. Há sempre uma reserva, alguma coisa que nós não entregamos. E isso gera na nossa vida às vezes uma duplicidade, às vezes uma distância, às vezes uma incapacidade de ir até ao fim, às vezes uma “mornice” – ficamos num estado morno, não somos frios, mas também não somos quentes…

E Etty, de facto, é de uma autenticidade “Se é para ir, vamos!” Ela foi assim ao longo da sua vida toda, e nós estamos aqui a celebrar a memória da sua vida e da sua morte exactamente por isso: porque ela viveu com autenticidade.

A cada um de nós o Senhor também diz coisas, também pede coisas. Há coisas que cada um de nós vê, há coisas que cada um de nós sente. Sigamos, sigamos, sejamos! Sem os medos, sem as dificuldades, sem…

Outro desafio que a Etty nos faz é perceber que “é agora!”
Eu acho que se nos caísse em cima o que lhe caiu em cima, nós achávamos que era: “No fim, se isto tudo sobreviver, se alguma coisa restar, então vamos começar de novo. Quando isto tudo passar, quando o inferno acabar, então vamos começar a ver a luz.”

Ela teve a ousadia de dizer: “Não, é agora!”, “É no meio do inferno, é no tecto em chamas que eu vou olhar para as flores, que eu vou cuidar de flores. É na latrina do campo de concentração que eu me vou ajoelhar e rezar, é na caserna mais imunda, mais sitiada pela dor que eu vou tratar das flores” ou “que eu vou sentar-me a ler o poema do Rilke” ou “que eu vou rezar” ou “que eu vou servir”, ou “que eu vou oferecer a minha vida pelos outros”… é agora, não é num tempo ideal, não é num “quando” hipotético, que depois nunca é… Não, “é agora!”… é agora o quê? É agora que eu vou tornar a minha vida um centro espiritual.

E a vida de Etty Hillesum, o que é que foi? Foi um grande centro espiritual.
Onde quer que ela estivesse, na barraca, ela era o coração pulsante da barraca, o coração pensante daquelas tendas. Ela fez da sua vida um centro espiritual. No Centro Judaico, em Amesterdão, nas visitas, no campo de concentração, ela construiu de facto um centro espiritual. Onde a espiritualidade não era uma coisa teórica, era uma coisa prática, uma coisa vivida, que ela traduzia de mil formas num quotidiano banalíssimo.
E talvez a parte mais incrível do testemunho de Etty Hillesum é que o seu Diário espiritual é um relatório do quotidiano, de uma mística do quotidiano, daquilo que se pode fazer todos os dias, transformando a vida num grande centro de vitalidade, de revitalização espiritual – através da oração, através da palavra, através do testemunho, através da relação invisível, tornando o tempo um templo. Ela fez do “tempo um templo”…

O último desafio é aquele que se liga a esta data que nós estamos hoje a celebrar, e que é aquilo que ela escreve no postal quando sai naquele comboio onde as pessoas iam aninhadas, como troncos para a fogueira. Ela escreve naquele postal: “Saímos do campo cantando.”

A capacidade de sair cantando, de viver cantando… quando nós perguntamos: “Mas saiu cantando como?”, “Saiu cantando porquê?”, “Como é que é possível?”
Saiu cantando não ignorando, não desconhecendo, o destino final… “sair cantando” é um ícone!

Se eu tivesse de escolher uma imagem da vida de Etty Hillesum era dela a cantar …essa canção que, no silêncio do nosso coração, neste dia, nós podemos ainda ouvir…

Pe. José Tolentino Mendonça, Aniversário da morte de Etty Hillesum, 30 de novembro de 2017

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